CONSPIRACIONISMO GOSPEL

FIM DOS TEMPOS, TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO E FAKE NEWS NO MEIO EVANGÉLICO

INTRODUÇÃO

É praticamente impossível utilizar as redes sociais hoje em dia sem esbarrar em algum comentário de um “especialista” a respeito de todo o cenário que envolve a pandemia do novo Coronavírus. Desde aqueles posts que aparecem em nossas timelimes até os comentários em qualquer notícia sobre o tema, sempre haverá alguém que foi capaz de desvendar o grande plano globalista de dominação mundial e que, no momento, tenta desesperadamente trazer luz aos incautos. Acontece que isso não é novo. Entre os anos 90 e início dos anos 2000, por exemplo, houve bastante movimentação no meio evangélico com a popularização de uma mensagem pregada pelo Pr. Josué Yrion, no qual ele denunciava estratégias satânicas de domínio mundial por meio das famosas mensagens subliminares presentes nos filmes da Disney.

Infelizmente, com a internet e popularização dos canais do YouTube, ao invés das pessoas buscarem conhecimentos mais amplos e verdadeiros a respeito de assuntos de seu interesse, caíram nas ciladas das mentiras espalhadas por e-mails e depois redes sociais. Atualmente, estamos vivendo uma pandemia avassaladora em termos de contágio e efeitos colaterais econômicos e, quando olhamos para nossos púlpitos, não vemos mais uma mensagem de esperança, mas sim de desespero e evidente despreparo em lidar com aspectos culturais e sociais. Por conta de uma teologia que sempre olhou para o próprio umbigo, sem uma preocupação real em ser útil e proveitosa para as pessoas de fora. Uma teologia do medo e, que confia mais na política que em Deus. Por conta desse panorama vemos textos e imagens bíblicas sendo interpretados de forma totalmente errada, fora de sua aplicação correta, sem harmonia com a visão bíblica a respeito destes temas e ignorando qualquer traço de coerência mínima que a fé cristã exige. Há pouco tempo estávamos comemorando o Natal. A encarnação do Deus Todo-Poderoso, para em seguida, vermos pastores defendendo um deus fraco que cede e pode ter seus planos frustrados por uma suposta organização mundial. Usando do medo como chave hermenêutica para questões que devem ser vistas com esperança. O fim dos tempos é a consumação do plano de Deus e o início da eternidade, se instruímos as pessoas a olharem para esse tema com medo do que virá, então, estamos na religião errada. No paganismo é onde todas as coisas convergem para um fim melancólico, no cristianismo não. Em nossa crença, o fim é a glória, onde todas as peças se encaixarão e o caos existencial, não será nem mais uma lembrança do passado, pois as coisas velhas desse mundo já terão passado (Ap 21.4,5).

O QUE É A MARCA DA BESTA?

A única vez onde a marca da besta é mencionada em toda a bíblia, é em Apocalipse 13.16-18. O apóstolo João comenta que a marca é uma consequência da sedução que o falso profeta promoverá à besta que emergiu da água, no caso, o Anticristo (v. 14). Essa ação será por meio de sinais e maravilhas, chegando ao ponto de até mesmo fazer com que uma estátua/imagem da primeira besta fale, e ainda mate aqueles que não adorassem à imagem do Anticristo. Muito mais que simplesmente comprar e vender, quando falamos nesse sinal, estamos nos referindo à adoração empregada ao homem da iniquidade.

No primeiro século, as moedas usadas para comércio possuíam a seguinte inscrição “Kaesar Kurios” que significa, “César é Senhor”. Ao sinalizar que ninguém poderia comprar ou vender com a marca em questão, João estava dizendo que o culto ao governador estava presente em todo o sistema financeiro da época. Importante salientar que, o número 666 é equivalente numérico em hebraico para Nero César. Dessa forma, a hostilização a cristãos era permitida uma vez que, estes não reconheciam a autoridade divina que era atribuída ao imperador.

A característica relacionada à adoração da marca em questão fica ainda mais evidente quando lemos o capítulo 7, do livro de Apocalipse. É nele que vemos uma menção a uma marca dada pelo próprio Deus ao seu povo (Ap 7.3-5). O mesmo selo é mencionado em Apocalipse 9.4. Ainda no contexto do capítulo 7, no verso 9, temos a informação que aqueles que possuírem a marca da besta beberão do cálice da ira de Deus, sendo alvos diretos dela. Ou seja, Deus sela os seus para que não recebam da sua ira, mas não os impede que sejam atingidos pela tribulação e pela morte de outros meios.

Considerando que já falamos sobre o que é a marca da besta, sua função e contexto histórico e profético, a pergunta que surge então, é quando essa marca será implementada. Para entendermos bem esse panorama, precisamos nos atentar às palavras de Jesus e do profeta Daniel, pois são os que fornecem maiores detalhes a respeito de como as coisas irão se desenrolar no fim dos tempos. O relato de Jesus, por sinal, nos dá o mais próximo possível do que seria uma linha do tempo, então temos:

  1. Princípio das dores – Mateus 24.4-8;

  2. Dores mais intensas – Mateus 24.9-14;

  3. Grande Tribulação – Mateus 24.15-28;

  4. A vinda do Filho do Homem – Mateus 24.29-31

Em Mateus 24.15, Jesus menciona a abominação desoladora do qual falou o profeta Daniel. A profecia que Jesus cita está em Daniel 9.27, e se refere a um governante que fará um pacto com muitos por uma semana. A semana em questão, se refere à última das 70 semanas, ou seja, é um período de sete anos. Na metade da semana, após três anos e meio, o sacrifício e a oferta de cereais serão interrompidos e tanto o santuário quanto a fortaleza serão profanados (Dn 11.31).

Entendemos então que o Anticristo, visando usurpar para si toda a adoração direcionada a Deus por meio dos sacrifícios e ofertas de cereais, em invadirá Jerusalém e ao profanar o Santo dos Santos, iniciará a grande tribulação. Alçado o posto de referência religiosa e política, exigirá adoração para si, tendo como sinal do seu povo, uma marca. Marca essa conhecida como a marca da Besta. Ou seja, de todos os acontecimentos do fim dos tempos, a Marca da Besta é um dos últimos, se não for o último, antes do derramamento da ira de Deus sobre as nações.

Para se ter uma ideia, antes que a marca seja instituída, é necessário que o Domo da Rocha (local sagrado para o Islã) seja derrubado, pois está no local em que deverá ser erguido o templo para a retomada dos sacrifícios. Uma vez retomados os sacrifícios e movimentos do templo, haverão ainda três anos e meio, até que o Anticristo invada Jerusalém, profane o santuário e institua a marca da besta. São uma sequência de eventos que precisam acontecer e que, no momento, ainda parecem distantes. Mesmo o acordo que está sendo costurado entre Israel e os países do Oriente Médio, não englobam esse tipo de iniciativa religiosa, apenas comercial.

Agora que entendemos o quando, vamos falar um pouco sobre o “como” a marca será implantada. A esmagadora maioria das teorias e maluquices que vemos as pessoas escreverem na internet sobre a marca da besta sugerem que está havendo um treinamento ou, uma espécie de condicionamento para que quando a hora chegar, as pessoas recebam a marca de forma que nem irão perceber. É uma teoria que faz sentido, afinal, melhor que sugerir que as pessoas recebem marcas à força, é muito melhor prepará-las com tempo e paciência. Acontece que, essa ideia não tem respaldo bíblico. Em Apocalipse 13, João diz que as pessoas serão seduzidas pelas demonstrações de poder da Besta, e por isso a adorarão e se curvarão diante dela. No capítulo 14, versos 9 e 10, temos a referência dessa adoração e as consequências desta. Não se tratará de algo involuntário, pelo contrário, as pessoas saberão exatamente no que estão se metendo e por se rebelarem abertamente contra Deus, procurarão a marca por conta própria. Os únicos que sofrerão por conta da rejeição à marca, serão os que a rejeitarem. Não haverão inocentes quando tais pessoas se colocarem diante de Deus.

Com base em tudo o que vimos até aqui, podemos entender que, a vacina contra o coronavírus, o PIX, o famoso Mondex, os códigos de barra, a medição de temperaturas ao entrar em estabelecimentos, o facebook, os cartões de crédito e os smartphones não são a marca da besta. Portanto, parem de palco para maluco e quando as vacinas estiverem liberadas, tomem. Enquanto a vacina não chega, usem máscaras e se cuidem na prevenção ao coronavírus.

TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO

Caso de alguma forma, você não esteja familiarizado com o termo, implicações e seu significado, vamos começar definindo o que é uma teoria da conspiração. Trata-se de uma hipótese que pode ser explicativa ou especulativa, a respeito da união de dois ou mais indivíduos ou empresas para a execução de um plano que envolva desenvolver ou acobertar alguma ação que possa ser ilegal, imoral ou antiética. O YouTube está lotado delas, com muitos canais, inclusive, se dizendo cristãos lutando contra a Nova Ordem Mundial, como que em uma cruzada dos tempos modernos. Acredito que a teoria da conspiração mais famosa, no momento, seja a que envolve a Terra Plana, pois é alvo dos mais variados espectros. De memes à adesão crédula de apoiadores, uma teoria da conspiração pode ter muitos resultados.

Será que uma algo tão inocente quanto uma teoria sobre os governantes do mundo e uma elite financeira ou intelectual pode impactar negativamente nossa sociedade? A resposta para essa pergunta, é um sonoro SIM! Vou usar como exemplo para explicar meu ponto uma outra teoria da conspiração que tem a ver com o tema de nossa conversa: o movimento antivacina.

Em 1998, o médico Andrew Wakefreld publicou um artigo falso, ligando o autismo à vacina MMR, que protege contra o sarampo, caxumba e rubéola. Em 2004, o artigo foi desmentido e classificado como fake news. Entretanto, seis da publicação de algo tão grave não seriam revertidos com um outro artigo. Pelo contrário, os adeptos da ideia de não-vacinação de seus filhos, viram na iniciativa da comunidade científica de responder à mentira, como uma retaliação dos “donos do mundo” contra uma verdade que ninguém gostaria que soubessem. Hoje, em pleno 2020, ainda temos pessoas com ideais desse tipo. Para se ter um panorama dos riscos que esse tipo de coisa pode inflingir à sociedade, doenças como poliomielite (paralisia infantil), sarampo, rubéola e difteria que havia sido erradicadas retornaram aos plantões médicos. Vinte e dois anos após o artigo do “médico” Wakefreld, temos crianças com risco de morte, pois ainda há essa ideia na cabeça de muita gente.

Quando teorias da conspiração entram no seio da igreja e se criam, sendo propagadas em púlpitos, temos a real situação de nosso estado espiritual. E a realidade não é nada boa. Uma igreja que cede a esse tipo de teorias da conspiração, não conhece o Deus a quem diz servir. Acreditar que os poderes do mundo podem, de alguma forma, ser uma ameaça real aos propósitos estabelecidos por Deus, é o sintoma mais claro de uma teologia fraca e uma escatologia que sequer podemos dizer que existe. Precisamos com urgência, limpar nossos púlpitos desse tipo de ideias e lotá-los com o evangelho. Teorias da conspiração são tentadoras, eu sei, já fui adepto de várias delas. Sei como é a sensação de portar um “conhecimento” que ninguém mais possui, me engajar no combate às forças malignas que tentam sufocar a igreja e nos fazer, sem que percebamos, negar a Cristo como nosso Senhor. Conheço bem a sensação de se embriagar buscando no oculto, respostas que encontramos apenas à luz da Palavra de Deus. Esse tipo de coisa mexe diretamente no nosso senso de importância para a história humana. Enquanto na realidade somos pessoas simples com poucas coisas das quais nos gabar, nas conspirações somos guerreiros da verdade que não possuem mais escamas em seus olhos, e que a cada post, comentário, ou refutação postada nas redes sociais, estamos mais próximos do objetivo de desfazer todo o estratagema das ostes de Satanás, na figura da tal Nova Ordem Mundial. Quando confiamos em nossa capacidade de combate, por mais que as intenções sejam boas, na prática, nós removemos o Senhor dos Exércitos da liderança.

Para lidar biblicamente com esses sentimentos, não existe remédio melhor que uma escatologia consistente e, uma boa dose de confiança no que Deus afirma em sua Palavra. Precisamos sempre nos lembrar que no Dia do Senhor, somente Ele será glorificado (Is 2.12-18).

Conclusão

Uma das recomendações da Palavra de Deus para nosso comportamento, é a sobriedade (1 Pe 5.8) . Ser sóbrio não é somente não se embriagar com álcool ou qualquer outra coisa do gênero, é ter uma atitude equilibrada diante das situações que se mostrem a nós. Partindo dessa premissa, não podemos nos deixar levar por qualquer coisa que tenha traços de verdade. A tentação de mergulhar em teorias e falácias são muitas, mas nosso conhecimento da verdade deve ser o suficiente para não cairmos nessas ciladas espirituais. Corro o risco de fazer um comparativo errado aqui. Mas, curiosamente, os gnósticos que foram combatidos por Irineu possuíam uma linha de raciocínio muito similar a desses canais do YouTube, ou seja, o que estamos vendo não é nenhuma novidade. As pessoas buscam explicações ocultas para justificar a simplicidade da realidade há tempos. Mas se em tempos antigos, o que era oculto ainda não havia sido revelado, agora não temo mais justificativas para embarcar nesse tipo de coisa.

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