As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Expiação Limitada

“Aqui somos movidos a lembrar-nos de que ele morreu pela igreja. Não devemos perder de vista esta verdade. Ele morreu pela igreja; ele não morreu por ninguém mais.”
Martyn Lloyd-Jones

Estamos então no ápice das Doutrinas da Graça, pois, neste ponto vamos tratar do tão sublime sacrifício de Cristo. Nós, cristãos, devemos sempre nos alegrar neste assunto, pois através do sacrifício gracioso de nosso Senhor, encontramos a libertação da escravidão do pecado, nossa salvação. Mas, então se inicia a discussão: Por quem Cristo morreu?

Acho muito interessante alguns cristãos se auto-denominarem “meio calvinistas”, ou “calvinistas de quatro pontos”, pois aceitam todas as outras doutrinas da TULIP, porém, ao se depararem com a expiação limitada, recuam. Novamente, assim como na eleição, crêem que Deus seria cruel se enviasse seu filho para morrer apenas pelos eleitos.

Podemos definir “expiação limitada”, ou como outros a chamam, “expiação definida”, como a doutrina que ensina que Cristo morreu exclusivamente por aqueles que foram escolhidos pelo Pai, e, sendo assim, assegurou a salvação de todos pelos quais ele morreu[1].

Existem quatro pontos de vista sobre a extensão da expiação[2]:

  1. Redenção ilimitada e universal– Este conceito presume ouniversalismocompleto, porque crê que a intenção de Deus era que Cristo morresse por todos, a fim de que todos fossem salvos. Na história do cristianismo, alguns teólogos mantiveram esta opinião, como Clemente de Alexandria (160 – 215 d.C.) e Orígenes (185 -251 d.C.), sendo que este último afirmou que o próprio Diabo seria salvo. Porém este universalismo se opõe ao que diz a Bíblia. O próprio Jesus afirmou claramente a existência do inferno[3]. O amor de Deus não exclui o castigo eterno, pois o amor de Deus é justo.
  2. Redenção limitada universal– A expiação é universal em seu desígnio e limitada em sua realização. A idéia aqui é que a Trindade propôs a salvação de todos por meio da morte expiatória de Cristo, porém nem todos serão salvos. Em outras palavras, a expiação de Cristo tornou os homens “salváveis”. Este ponto de vista foi defendido por Jacob Arminius (1560-1609). Para ele a salvação dependia da aceitação do homem, dividindo assim a ação da salvação como um oferecimento de Deus, porém que depende que o homem estenda sua mão numa ação de fé e a receba.
  3. Universalismo hipotético– Esta posição, primeiramente defendida por Moïse Amyraut (1596 – 1664), ensina que Cristo morreu hipoteticamente por todos, sem exceção, mas a graça de Deus e a eleição garantem que somente os eleitos crerão. Esta posição demonstra um conflito, pois afirma que Deus dispôs um decreto geral, no qual deseja a salvação de todos, e um decreto especial, segundo o qual Deus quer a salvação dos eleitos.
  4. Expiação limitada ou definida– Este é o ponto calvinista o qual defendemos. Joel Beeke traz uma definição mais clara acerca deste ponto:

“O Pai enviou seu filho à cruz para pagar a penalidade dos pecados dos eleitos, de modo que Cristo morreu, de modo pessoal, visando à salvação, em favor de todo o povo eleito de Deus. A sua morte foi um ato voluntário (Sl. 40.7-8), resgatador (Mt. 20.28), obediente (Rm. 5.19), vicário (Rm. 6.23), expiatório (Hb. 10.10, 14), propiciatório (Rm. 3.25), reconciliador (Rm. 5.10), redentor (1Pe. 1.18-19) e vitorioso (Rm. 8.31-39) que garantiu a salvação de todos os que o Pai lhe dera.”

Jesus sempre afirmou que entregaria sua vida pelas ovelhas, sendo estas, as pessoas que o Pai lhe deu (João 10.14-15). Deus escolheu aqueles que haveria de salvar numa ação amorosa e graciosa, e os deu a Jesus para que este assegurasse a salvação deles (João 10.11). Não foi para a salvação do mundo inteiro que Cristo morreu. Ele morreu para que pessoas de todas as classes de gente fossem salvos (João 12.32). Como nas palavras de Steven Lawson, “Ele não morreu por todos os homens, mas por indivíduos pertencentes a toda e qualquer classificação de homens”[4].

Como tenho afirmado nestes últimos estudos, este não é um motivo para ver Deus como um ser cruel, porém amoroso, pois Ele cumpre o que se propõe a realizar. Não nos deixa numa condição salvável, mas Ele realmente nos salva. Nenhuma gota do sangue eficaz de Cristo foi derramado em vão. Os planos de Deus não foram frustrados com a perda de homens de rejeitaram a salvação. A salvação é triunfal, pois tem um objetivo claro: dar vida aos que Deus escolheu.

Apontando para esta idéia, temos Atos 20.28, onde Paulo claramente declara que Deus, em Cristo, comprou a igreja com seu próprio sangue. Ele não diz que tornou a igreja redimível, mas que a redimiu. Também no texto de Efésios 1.4, 7-12 Paulo volta a mostrar que a obra de Cristo foi muito específica em sua intenção.

Não nego que o sangue de Cristo seria eficiente para salvar todo o mundo. Porém esta não foi sua intenção. A eficácia do sangue de Cristo foi planejada somente para os eleitos. Para encerrar, faço uso das palavras de Steven Lawson:

“Se Cristo tivesse morrido por todos e tivesse cancelado a escrita da dívida total e completamente, todos seriam perdoados. Mas não é o que acontece. Somente aqueles por quem Cristo morreu são perdoados; ninguém mais.”

Qual é sua reação diante disso? Oro para que você leia estas palavras e sinta um ardente fervor, não de raiva contra mim, mas para que Deus perdoe seus pecados e agradeça esta maravilhosa graça que Ele nos concedeu. Nos próximos estudos vamos trabalhar um pouco mais sobre as marcas dos eleitos. Lembrando, não sabemos quantos são e nem que são, mas nosso dever é proclamar Sua graça salvadora.

[1] LAWSON. Steven J. O Foco Evangélico de Charles Spurgeon. São José dos Campos: Editora Fiel: 2012.

[2] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[3] Referências acerca do inferno nas palavras de Jesus: Mateus 12.32; 13.40-42, 49-50; 25.41, 46; Marcos 9.44-48; Lucas 12.4-5.

[4] LAWSON, Steven J. Fundamentos da Graça. São José dos Campos: Editora Fiel, 2012.

 

Vinícius Mello

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *