Animais como filhos, crianças como animais

Recentemente, ouvi um vídeo que minha esposa assistia no Facebook, no qual um casal apresentava a irmãzinha, para o integrante anterior da casa. Expressões como: “olha sua irmãzinha”, “não falamos que íamos trazer sua irmãzinha para casa?” são as que mais se repetem no decorrer do vídeo. Confesso que, ao ouvir tudo aquilo, até me emocionei e fui conferir a cena completa. Qual não foi o meu espanto ao ver que a irmã mais velha que recebia a mais nova membra da família, era uma cadela? Fiquei estarrecido com a situação, o que me trouxe de volta a uma situação que tenho comentado com frequência: quais os limites para uma interação saudável entre pessoas e animais de estimação?

Antes de mais nada, é preciso entender que há uma banalização do que é o amor. Em Mateus 22 Jesus alerta sobre, quando diz que nos últimos dias o amor de muitos se esfriaria (v.37). É por esse motivo que vemos tantos animais de estimação – a situação é mais comum com cachorros e gatos – sendo tratados como membros da família e coisas do tipo. Por mais que gostemos de nossos bichinhos, é preciso entender que eles não foram feitos para compor nossa família. Em nenhum local da escritura encontramos esse tipo de relacionamento como sendo aprovado por Deus, pelo contrário. Com frequência, a Bíblia alerta justamente para não cairmos na tentação de adorar a imagem dos animais, como além do que realmente são (Dt.4:16,17; Sl.106:20; Rm. 1:23).

A criação

Deus criou os animais para compor todo o ambiente que Ele criara. Nenhum tratamento especial é dado a eles, além da ordem específica de povoamento (Gn. 1:20-22). Não vemos Deus dando instruções, atribuindo qualidades, preceitos morais, princípios de relacionamento consigo, ou qualquer outra coisa que possam de alguma forma colocá-los em uma posição que não seja glorificar a Deus com sua existência. Como parte da criação, a sua existência deve glorificar a Deus por si só. Podemos notar isso ao observar o relacionamento entre predadores e presas. Apesar de sentirmos uma certa compaixão, as leis que o Senhor estabeleceu permanecem inalteráveis.
Para comprovar, precisamos apenas de uma observação simples. Se compararmos os bandos de zebras e leões, notaremos que o número de zebras é muito superior ao de leões. Dessa forma, o número daquelas que serão devoradas pelos leões não chegará a comprometer o equilíbrio necessário entre as espécies. Mesmo nos casos onde a presa possui um número menor, como nos casos dos alces e lobos, notamos que somente um alce é o suficiente para satisfazer uma alcateia inteira, mantendo o equilíbrio. Em outras ocasiões o equilíbrio é feito por meio dos intervalos de digestão e até mesmo por meio da hibernação, que permite que o número de presas seja sempre maior que o de predadores. Assim, obedecendo aquilo que o próprio Deus estabeleceu ao criar todas as coisas, os animais O honram ainda que de forma inconsciente.

O homem e os animais

Ao contrário do que muita gente pensa, o trabalho não foi criado como uma forma de punição pela desobediência do homem. Antes que o homem sequer tivesse uma parceira, ele já possuía um trabalho específico: zelar pela criação (Gn. 2:5).
Durante o processo de criação, Deus havia dado a ordem para que a produzisse árvores de todas as espécies, porém, como ainda não havia chovido e o homem ainda não existia para lavrar o solo, ainda não havia vegetação. Aqui é um ponto muito importante para nos atermos, pois já revela que o homem não foi feito para ficar desfrutando de uma vida ociosa, segundo a vontade de Deus para tudo aquilo que Ele mesmo criou, o homem possuía uma função em todo o equilíbrio planejado por Deus (Gn. 2:8).

Eis que veio o pecado

Quando o homem peca, toda a criação é corrompida. Essa corrupção resultou também na deturpação de tudo o que é bom e na compreensão equivocada daquilo que Adão conhecia através da pessoa de Deus, inclusive, o amor (Gn. 3:17).
Nossa concepção de amor é totalmente equivocada e egoísta, visando nossa própria satisfação pessoal e o prazer em uma existência onde tudo gire à nossa volta. É por esse motivo que não pensamos duas vezes antes daquela selfie diante do morador de rua, que não resistimos à tentação de arrotar nossas virtudes sempre que podemos, que fazemos questão de apontar o quanto os outros são pecadores e nós estamos mais próximos de Deus porque julgamos que o caminho que seguimos é o mais correto moralmente. O motor por trás de todas essas coisas, é o pecado que impede que busquemos usar o evangelho como régua que mede nossas ações, pois quando o usamos, vemos o quanto somos egoístas e arrogantes em nós mesmos. E ninguém busca ver a imagem degradante que tem a sua alma.

Mateus 22:37

Não existe meio termo, a multiplicação do pecado resulta no esfriamento do amor. Curioso, é que não me lembro de em toda a minha vida ter ouvido tanto a respeito do chamado “poder do amor”, tem até um mantra: mais amor, por favor.
Porém, ao olharmos para o que vemos acontecer em nossos dias, o modo como a maldade, os desejos pecaminosos, o hedonismo e a repulsa pela pessoa de Cristo, vemos que não há como o amor se espalhar quando a expressão máxima deste, que é Jesus, é deixado de lado como se fosse uma roupa que não serve mais. E um sintoma disso, é a substituição que alguns casais fazem, optando por não ter filhos, porém, adotando animais e tratando-os como se fossem, de fato, filhos.
Não é muito difícil ver na internet imagens de animais recebendo festas de aniversário, e coisas do tipo, enquanto crianças passam fome. O próprio exemplo que citei no início do texto é um caso desses, onde a cadela é colocada no mesmo nível da filha recém-nascida.
Tomei a liberdade de fazer duas perguntas simples para algumas mães que conheço. As perguntas foram:

  • O que a maternidade significa para você?
  • Você seria capaz de direcionar o mesmo que sente pela Malu para um animal de estimação, na mesma intensidade?

Abaixo, seguem algumas respostas:

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Jackeline Bispo, 27 anos.
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Daiane Souza, 26 anos
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Mayana Moura, 25 anos
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Thais da Costa, 31 anos

Essas mães, pelo que sei possuem visões bastante distintas umas das outras, e vivem em contextos totalmente diferentes e em realidades diferentes. Porém, todas possuem uma característica em comum: não substituem seus filhos, nem são capazes de direcionar o amor que sentem para um animal de estimação, de tão sublime e com um padrão tão elevado que este sentimento possui. Não pode ser considerado condicional, pois nenhum de seus filhos fez nada por elas para que retribuíssem, é voluntário. O amor de pais para filhos, é o mais próximo que podemos chegar de exemplificar o amor de Deus. Quando Cristo fala para sermos como crianças, ele está se referindo justamente à dependência que estas têm dos pais e como precisam ser cuidadas por eles (Mt 18:1-3; Sl. 131:2).

O amor que não chega às crianças

O amor que é direcionado aos bichos não chega às nossas crianças, e o motivo não é outro se não, a multiplicação da iniquidade (maldade, em algumas versões). O pecado nos tira o referencial da presença soberana de Deus, nos faz negar sua autoridade como Criador de todas as coisas (Rm. 1:21; Ef. 4:18). Tal negação impede que reconheçamos que a preservação da humanidade é fruto de sua misericórdia e amor (Sl. 78:28; Lm. 3:22; Ml. 3:6). Amor esse, que não muda, pois não é comparado ao que nós entendemos. Como já disse aqui no blog, Deus ama porque quer nos amar, não porque simplesmente, sente amor pela criação. Sendo o amor em sua forma perfeita e plena, só podemos de fato, conhecer o amor, quando pela graça e ação do Espírito Santo somos levados a Deus (Jo. 16:7-11; 15:22). O primeiro dos dois mandamentos que Cristo deixa é justamente amar a Deus sobre todas as coisas, e o segundo é amar ao próximo como a ti mesmo (Mt. 22:34-40). O segundo é consequência do primeiro. Não amaremos o próximo se não conhecer o amor, graça e justiça de Deus. Qualquer coisa fora disso, não passam de tentativas de provar para nós mesmos que podemos fazer o bem, mesmo vivendo à margem de Deus. Ou seja, vaidade.
A prova disso é que, segundo o Cadastro Nacional de Adoção (CNA) existem aproximadamente, 5.490 crianças em condições de serem adotadas, número bem menor que os 31.680 de casais na fila para adotar. Na teoria, o problema seria resolvido com folga, porém, a seleção que os casais fazem levando em conta suas preferências pessoais e conjugais é algo que impede a resolução de forma prática. Essa escolha que os aspirantes a pais fazem, é um reflexo dessa falta de amor que temos abordado no texto. Muito pouco se fala sobre a questão da adoção no Brasil – inclusive, em igrejas – o que colabora para outras pautas como o aborto, por exemplo (falaremos com mais detalhes, em um texto específico).

Enquanto cães, gatos e outros bichos recebem festas de aniversário, crianças passam fome; enquanto mascotes, dormem em hotéis, crianças dormem na rua; enquanto chamamos animais de filhos, crianças são selecionadas em orfanatos.
Como cristãos, não podemos nos conformar com essa cultura, que é fruto da multiplicação do pecado. Não há a mínima possibilidade de dizer que conhecemos o amor de Deus, e ainda assim, direcionar em outra direção que não seja o nosso próximo em seu estágio mais frágil, para cuidar e zelar por ele (Rm. 13:8-10; Gl. 5:14).
O bichinho de estimação, quando não temos mais condição de criá-lo, o doamos a outra pessoa, um filho, não… Nós deixamos de levar o mascote a um lugar onde ele não é aceito. Quando nossos filhos não são aceitos em um local, nós mudamos de local, mas não deixamos nossos filhos para trás…

O próximo a quem Cristo se refere para amarmos como a nós mesmos, é um ser humano, não um animal, por mais fofo e companheiro que ele possa ser.

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