As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Perseverança dos Santos

“Esta doutrina é meu sustento diário: eu me afundaria totalmente sob pavor de sofrimentos iminentes, não estivesse eu firmemente persuadido de que Deus me escolheu em Cristo desde antes da fundação do mundo, e que agora, tendo sido efetivamente chamado, ele não permitirá que ninguém me arrebate de sua mão poderosa.”
George Whitefield

Chegamos ao fim de nossa jornada nas doutrinas da graça. Mas ainda falta um ponto chave: a segurança dos salvos. A ausência das doutrinas da graça nos púlpitos explica a incerteza quanto à salvação dos crentes, pois divide a salvação entre ação de Deus e ação do homem, ou melhor, sela a salvação somente pela ação humana. Vivemos em um período do cristianismo onde a certeza da salvação é pregada baseando-se nos sentimentos: emocionalismo, “frio na espinha”, batismo no Espírito, experiências sobrenaturais, etc. A emoção e o entusiasmo baseiam a certeza da fé para este movimento.

Joel Beeke define a doutrina da perseverança dos santos da seguinte forma:

A doutrina da perseverança dos santos ensina que todos que participam da graça e do poder salvífico da união com Cristo, pela fé, continuam nessa união com seus frutos e benefícios.[1]

Vale a pena também destacar a definição de Wayne Grudem:

Pela perseverança dos santos, todos aqueles que verdadeiramente nasceram de novo serão guardados pelo poder de Deus e perseverarão como cristãos até o final da vida, e só aqueles que perseverarem até o fim realmente nasceram de novo[2]

A idéia primordial para este ponto, é que como a salvação depende totalmente de Deus, a garantia está firmada completamente Nele (Filipenses 1.6). Mas, reitero que, isto não significa que o eleito está imune ao pecado, de modo que ele não possa falhar. E por não entender desta forma, muitos cristãos vivem com grande incerteza de sua salvação, por isso, tem um grande empecilho para o crescimento espiritual.

Esta segurança não está baseada em nossa própria capacidade de persevevar. R.C. Sproul, então, modifica ligeiramente perseverança para preservação, e explica da seguinte forma:

A razão pela qual verdadeiros cristãos não caem da graça é que Deus, graciosamente, não os deixa cair. A perseverança é o que fazemos. A preservação é o que Deus faz. Nós perseveramos porque Deus preserva.[3]

A Confissão de Fé Batista de 1689 diz:

Ainda que muitas tormentas e dilúvios se levantem e se dêem contra eles, jamais poderão desarraigá-los da pedra fundamental em que estão firmados, pela fé. Não obstante, a visão perceptível da luz e do amor de Deus pode, para eles, cobrir-se de nuvens e ficar obscurecida, por algum tempo, por causa da incredulidade e das tentações de Satanás. Mesmo assim, Deus continua sendo o mesmo, e eles serão guardados pelo poder de Deus, com toda certeza, até a salvação final, quando entrarão no gozo da possessão que lhes foi comprada; pois eles estão gravados nas palmas das mãos de seu Senhor, e os seus nomes estão escritos no Livro da Vida, desde toda eternidade.[4]

O arminiano sustenta que a salvação está condicionada à cooperação voluntária do homem, porém as Escrituras afirmam justamente o contrário quando olhamos para as seguintes passagens:

As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar. – João 10.27-29

Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. – Romanos 8.33-39

Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados. – Hebreus 10.14

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível sem mácula imarcescível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo. – 1Pedro 1.3-5

Vemos então, à luz destas passagens que Deus é a base para a nossa confiança. A herança de nossa salvação é uma herança espiritual, e o próprio Jesus afirmou que coisas terrenas não podem corromper nossa herança eterna (Mateus 6.19-20).

Mas então, como lidar com a apostasia? Como entender aqueles que “caem na fé”? Olhemos para o texto de 1João 2.19:

Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos.

Neste texto, João está alertando acerca de falsos mestres que estiveram na igreja, estiveram no meio de cristãos, mas saíram e começaram a ensinar suas heresias. E assim, evidenciando falsas opiniões acerca de Cristo. E então, João chega à conclusão que estes apóstatas nunca foram crentes verdadeiros, e como diz Jay Adams, “enquanto faziam parte da igreja visível, não pertenciam à igreja invisível[5]. Este ainda ressalta um segundo ponto:

Os verdadeiros crentes permanecem na fé e na igreja. Eles perseveram até o fim. Certamente é possível um crente desanimar por um tempo, mas, como Pedro ou João Marcos – que tiveram lapsos temporários –, eles se arrependem e, por fim, voltam.[6]

Concluindo, o que pode dar ao crente a plena segurança? Faça para si mesmo, estas três perguntas que Grudem propõe:
1. Será que confio hoje na salvação de Cristo?
2. Há porventura no meu coração provas da obra regeneradora do Espírito Santo?
3. Será que percebo uma tendência constante de crescimento na minha vida cristã?

Espero que estes estudos básicos das Doutrinas da Graça realmente possam ajudar o caro leitor, e que, acima de tudo, o Espírito Santo aplique a cada dia em nossos corações estas preciosas pérolas.

 

[1] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[2] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática – Atual e Exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 1999.

[3] SPROUL, R.C. Eleitos de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

[4] Fé Para Hoje – Confissão de Fé Batista de 1689. São José dos Campos: Editora Fiel, 1991.

[5] PARSONS, Burk (Ed.). João Calvino – Amor à devoção, doutrina e glória de Deus. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[6] ibid.

 

Vinícius Mello

As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Graça Irresistível

“Em suma, nenhum coração humano é tão obstinado a ponto de ser impossível ao Espírito conquistar e convertê-lo.”
Steven J. Lawson

Também conhecido como “chamado eficaz”, podemos definir este ponto como a ação do Espírito Santo, que convence do pecado, chama, atrai e regenera os pecadores eleitos. Nenhum dos eleitos, daqueles pelos quais, Cristo entregou a vida em sacrifício, deixa de crer. Esta ação do Espírito leva o homem a arrepender-se de seus pecados e a crer, garantindo a conversão do eleito.

R.C. Sproul afirma:

“A graça de Deus é resistível no sentido em que podemos resistir a ela, e o fazemos. Ela é irresistível no sentido em que alcança seu propósito. E ela produz o efeito desejado por Deus. Assim, eu prefiro o termo eficaz.”[1]

É de se notar, que todos os cinco pontos definidos no acróstico TULIP estão entrelaçados, e neste ponto não seria diferente. A depravação radical do homem impede que este se volte para Deus, pois está morto. Portanto, carecemos de um meio eficaz, irresistível. Se o homem pecador pudesse resistir, a eleição por parte de Deus e o sacrifício de Cristo seriam anulados.

Joel Beeke mais uma vez traz uma definição bem clara disto:

“A graça ensina que a salvação de pecadores indignos, merecedores do inferno (depravação total) é uma obra realizada apenas pelo Deus trino. Cada uma das pessoas da Trindade participa e contribui nessa obra. Antes da fundação do mundo, o Pai separou aqueles que seriam salvos. Depois, ele os deu ao Filho para que fosse seu povo (eleição incondicional). Contudo, os dois grandes atos de eleição e de redenção não completaram a obra de salvação. Incluída no plano de Deus quanto à salvação de pecadores, está a obra renovadora do Espírito Santo, pela qual a redenção é aplicada aos eleitos. Esse é o aspecto da salvação que pode ser chamado de irresistível ou eficaz.”[2]

Também a Confissão de Fé Batista de 1689, afirma que:

“Isso Deus faz iluminando-lhes a mente de maneira espiritual e salvadora, para que compreendam as coisas de Deus; tirando-lhes o coração de pedra e dando-lhes um coração de carne; renovando-lhes a vontade e, pela sua onipotência, predispondo-os para o bem e trazendo-os irresistivelmente para Jesus Cristo. No entanto, eles vêm a Cristo espontânea e livremente, porque a graça de Deus lhes dispõe o coração para isso. […] A chamada eficaz é resultante da graça especial e gratuita, de Deus, e não de algo que de antemão seja visto no homem; e nem de poder algum ou ação da criatura cooperando com a graça especial de Deus.”[3]

Deus, através do Espírito Santo, chamou pessoas de todas as classes (1Coríntios 1.24), introduzindo-os numa relação pessoal e eterna com Cristo (1Coríntios 1.9). Portanto, quando alguém confessa a Cristo como salvador, não o deve fazer por um momento de emoção num apelo, mas, o declarar pela habilitação do Espírito Santo, confessando assim o senhorio de Cristo (1Coríntios 12.3; 1Tessalonicensses 1.4-5).

Entendendo isso, percebemos que somente o Senhor tem a capacidade de fazer a igreja crescer. Para que alguém se arrependa, é necessário que o Senhor lhe conceda o dom do arrependimento. A fé é a porta aberta por Deus para que o homem entre no Reino de Deus. A porta está fechada pelo pecado, e somente Deus tem a chave. Como o homem está morto no pecado, seu coração está trancado por dois ferrolhos: o pecado e Satanás. A chave para abrir esta porta é apresentada na Palavra de Deus. Nós devemos estar confiantes nela, pois Deus tem um povo que Ele salva quando ela é proclamada. Grandes missionários creram nisso, como George Whitefield, David Brainerd, William Carey e o príncipe dos pregadores, C.H. Spurgeon.

A idéia transmitida aqui é a regeneração, não recomeço, mas começar outra vez, esta é a idéia do prefixo “re”. O homem não está meramente se afogando, ele já submergiu até o mais profundo do oceano. Esta obra é feita por apenas uma das partes, Deus. Por isso dizemos que a regeneração é monergística. Não podemos ajudá-lo nessa tarefa.

Os eleitos não se gloriam nisso, não se ensoberbecem, mas, pelo contrário, o verdadeiro eleito ora e pede a Deus que Sua Palavra seja aplicada em seu coração, a fim de que seja criado um senso de necessidade. Você deve entender que sua situação é desesperadora, e que não há nenhum meio de sair da condenação do pecado a menos que Deus o livre soberanamente. Somente Ele tem a capacidade de responder sua oração e fazer você crer (Atos 16.31), fazendo você reconhecer que creu porque ele operou em sua alma tanto o querer como o realizar (Filipenses 2.13). A salvação está somente no Senhor (Jonas 2.9).

[1] SPROUL, R.C. Eleitos de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

[2] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[3] Fé para hoje – Confissão de Fé Batista de 1689. São José dos Campos: Editora Fiel, 1991.

 

Vinícius Mello

As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Expiação Limitada

“Aqui somos movidos a lembrar-nos de que ele morreu pela igreja. Não devemos perder de vista esta verdade. Ele morreu pela igreja; ele não morreu por ninguém mais.”
Martyn Lloyd-Jones

Estamos então no ápice das Doutrinas da Graça, pois, neste ponto vamos tratar do tão sublime sacrifício de Cristo. Nós, cristãos, devemos sempre nos alegrar neste assunto, pois através do sacrifício gracioso de nosso Senhor, encontramos a libertação da escravidão do pecado, nossa salvação. Mas, então se inicia a discussão: Por quem Cristo morreu?

Acho muito interessante alguns cristãos se auto-denominarem “meio calvinistas”, ou “calvinistas de quatro pontos”, pois aceitam todas as outras doutrinas da TULIP, porém, ao se depararem com a expiação limitada, recuam. Novamente, assim como na eleição, crêem que Deus seria cruel se enviasse seu filho para morrer apenas pelos eleitos.

Podemos definir “expiação limitada”, ou como outros a chamam, “expiação definida”, como a doutrina que ensina que Cristo morreu exclusivamente por aqueles que foram escolhidos pelo Pai, e, sendo assim, assegurou a salvação de todos pelos quais ele morreu[1].

Existem quatro pontos de vista sobre a extensão da expiação[2]:

  1. Redenção ilimitada e universal– Este conceito presume ouniversalismocompleto, porque crê que a intenção de Deus era que Cristo morresse por todos, a fim de que todos fossem salvos. Na história do cristianismo, alguns teólogos mantiveram esta opinião, como Clemente de Alexandria (160 – 215 d.C.) e Orígenes (185 -251 d.C.), sendo que este último afirmou que o próprio Diabo seria salvo. Porém este universalismo se opõe ao que diz a Bíblia. O próprio Jesus afirmou claramente a existência do inferno[3]. O amor de Deus não exclui o castigo eterno, pois o amor de Deus é justo.
  2. Redenção limitada universal– A expiação é universal em seu desígnio e limitada em sua realização. A idéia aqui é que a Trindade propôs a salvação de todos por meio da morte expiatória de Cristo, porém nem todos serão salvos. Em outras palavras, a expiação de Cristo tornou os homens “salváveis”. Este ponto de vista foi defendido por Jacob Arminius (1560-1609). Para ele a salvação dependia da aceitação do homem, dividindo assim a ação da salvação como um oferecimento de Deus, porém que depende que o homem estenda sua mão numa ação de fé e a receba.
  3. Universalismo hipotético– Esta posição, primeiramente defendida por Moïse Amyraut (1596 – 1664), ensina que Cristo morreu hipoteticamente por todos, sem exceção, mas a graça de Deus e a eleição garantem que somente os eleitos crerão. Esta posição demonstra um conflito, pois afirma que Deus dispôs um decreto geral, no qual deseja a salvação de todos, e um decreto especial, segundo o qual Deus quer a salvação dos eleitos.
  4. Expiação limitada ou definida– Este é o ponto calvinista o qual defendemos. Joel Beeke traz uma definição mais clara acerca deste ponto:

“O Pai enviou seu filho à cruz para pagar a penalidade dos pecados dos eleitos, de modo que Cristo morreu, de modo pessoal, visando à salvação, em favor de todo o povo eleito de Deus. A sua morte foi um ato voluntário (Sl. 40.7-8), resgatador (Mt. 20.28), obediente (Rm. 5.19), vicário (Rm. 6.23), expiatório (Hb. 10.10, 14), propiciatório (Rm. 3.25), reconciliador (Rm. 5.10), redentor (1Pe. 1.18-19) e vitorioso (Rm. 8.31-39) que garantiu a salvação de todos os que o Pai lhe dera.”

Jesus sempre afirmou que entregaria sua vida pelas ovelhas, sendo estas, as pessoas que o Pai lhe deu (João 10.14-15). Deus escolheu aqueles que haveria de salvar numa ação amorosa e graciosa, e os deu a Jesus para que este assegurasse a salvação deles (João 10.11). Não foi para a salvação do mundo inteiro que Cristo morreu. Ele morreu para que pessoas de todas as classes de gente fossem salvos (João 12.32). Como nas palavras de Steven Lawson, “Ele não morreu por todos os homens, mas por indivíduos pertencentes a toda e qualquer classificação de homens”[4].

Como tenho afirmado nestes últimos estudos, este não é um motivo para ver Deus como um ser cruel, porém amoroso, pois Ele cumpre o que se propõe a realizar. Não nos deixa numa condição salvável, mas Ele realmente nos salva. Nenhuma gota do sangue eficaz de Cristo foi derramado em vão. Os planos de Deus não foram frustrados com a perda de homens de rejeitaram a salvação. A salvação é triunfal, pois tem um objetivo claro: dar vida aos que Deus escolheu.

Apontando para esta idéia, temos Atos 20.28, onde Paulo claramente declara que Deus, em Cristo, comprou a igreja com seu próprio sangue. Ele não diz que tornou a igreja redimível, mas que a redimiu. Também no texto de Efésios 1.4, 7-12 Paulo volta a mostrar que a obra de Cristo foi muito específica em sua intenção.

Não nego que o sangue de Cristo seria eficiente para salvar todo o mundo. Porém esta não foi sua intenção. A eficácia do sangue de Cristo foi planejada somente para os eleitos. Para encerrar, faço uso das palavras de Steven Lawson:

“Se Cristo tivesse morrido por todos e tivesse cancelado a escrita da dívida total e completamente, todos seriam perdoados. Mas não é o que acontece. Somente aqueles por quem Cristo morreu são perdoados; ninguém mais.”

Qual é sua reação diante disso? Oro para que você leia estas palavras e sinta um ardente fervor, não de raiva contra mim, mas para que Deus perdoe seus pecados e agradeça esta maravilhosa graça que Ele nos concedeu. Nos próximos estudos vamos trabalhar um pouco mais sobre as marcas dos eleitos. Lembrando, não sabemos quantos são e nem que são, mas nosso dever é proclamar Sua graça salvadora.

[1] LAWSON. Steven J. O Foco Evangélico de Charles Spurgeon. São José dos Campos: Editora Fiel: 2012.

[2] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[3] Referências acerca do inferno nas palavras de Jesus: Mateus 12.32; 13.40-42, 49-50; 25.41, 46; Marcos 9.44-48; Lucas 12.4-5.

[4] LAWSON, Steven J. Fundamentos da Graça. São José dos Campos: Editora Fiel, 2012.

 

Vinícius Mello

As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Eleição Incondicional

“Não importa o que as pessoas falem sobre esse assunto, a eleição ocorre de fato e não há como negá-la. Nenhum cristão pode negar o fato de que nem todos os cristãos professos serão salvos e que os que o são, devem sua salvação inteiramente à graça de Deus e ao chamado do Espírito Santo, e tampouco podem explicar o porquê de alguns serem chamados à salvação, enquanto outros, não.”

J.C. Ryle

Este é o segundo ponto das doutrinas da Graça. Aqui encontramos a esperança para o homem totalmente caído e morto em seu pecado: a eleição incondicional. Vou dedicar esta primeira parte para responder as seguintes questões: “O que é a doutrina da eleição incondicional?” e, “Quais são as razões bíblicas para crermos na doutrina da eleição?”.

A doutrina da eleição tem sido o ponto mais controverso na história do cristianismo devido à sua má compreensão e má aplicação. Alguns crêem que esta doutrina é uma artimanha de Satanás para impedir a evangelização na igreja. Outros calvinistas extremados crêem que sem esta doutrina, Deus deixa de ser Deus, pois estaria privado de sua devida glória na salvação do homem caído. Alguns crêem que esta é a causa de muitos estarem no inferno, porém, nós que aceitamos o ensinamento bíblico da depravação total, sabemos que a eleição é o motivo pelo qual somos salvos.

Mais uma vez afirmo: esta não foi uma doutrina descoberta por Calvino e, nem foi o único sermão pregado por Spurgeon. E, num sentido geral, esta doutrina se aplica a tudo o que Deus faz, pois tudo foi predeterminado por Ele.

Baseio-me então na definição de Joel R. Beeke para eleição:

“[…] Deus elege aqueles que são totalmente depravados e incapazes de exercer sua vontade caída para crer em Cristo. Deus os elege com base em seu beneplácito soberano, conquistando a vontade deles para torná-los dispostos a exercer fé em Cristo para a salvação.”[1]

Ou seja, Deus soberanamente escolheu aqueles que haveriam de ser salvos antes da fundação do mundo, em um tempo conhecido como “eternidade passada”. Aí então começam os problemas, pois na maioria das discussões sobre este tema há uma grande preocupação em proteger a dignidade e a liberdade do homem, travando uma aparente batalha entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana, ou, livre arbítrio.

Porém, biblicamente não podemos negar de forma alguma a existência da eleição, ou predestinação. Veja alguns textos:

“Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los?” – Lucas 18.7

“Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vósoutros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda.”
João 15.16

“Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna.”
Atos 13.48

“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.”
Romanos 8.29

Todos estes textos referem-se a um grupo de pessoas que foram escolhidos soberanamente por Deus.[2] E talvez agora você esteja dizendo: “Mas este não é Deus, pois ele estaria sendo injusto!”. Quero te dizer que esta afirmação já foi feita, e Deus mesmo respondeu:

“Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.”
Romanos 9.14-16

Na eternidade passada Deus soberanamente amou e escolheu um povo peculiar, escolheu especialmente cada pessoa, não somente o grupo como um todo,  elegendo-os para a Sua salvação. E não foi porque Ele previu que as pessoas haveriam de crer, pois a própria fé é fruto da Sua vontade. Ele escolheu porque é gracioso, amoroso e soberano, pois, se dependesse de nossa vontade, não o escolheríamos. Lembra-se? Estamos mortos em nossos pecados.

A maior dificuldade dos homens, em todos os tempos, é deixar Deus ser Deus. A doutrina da eleição aponta para o majestoso fato de que dentre tantos atributos, Deus é soberano, e ordena TODAS as coisas. Sem este atributo Ele não seria Deus.

Como então unir a eleição soberana e os homens mortos em seus pecados? Somente pela graça. A salvação não vem por méritos, mas pela graça soberana de Deus, que se expressou na cruz de nosso Senhor Jesus. Ele nos elegeu para sermos santos, pois de fato não éramos (Efésios 1.4; 2Tessalonicenses 2.13). Ele nos elegeu para nos dar vida.

Isto é insondável para nossas mentes. Paulo exalta a Deus afirmando que isto é profundo, que esta sabedoria é insondável. Por isso a Ele toda a glória!

“Ninguém jamais veio a Cristo porque sabia que era um dos eleitos; antes, veio porque precisava de Cristo.”
Ernest Kevan

Como esta doutrina contribui para a formação do caráter cristão e ainda, como ela pode estimular a evangelização?

Fico preocupado quando pregadores afirmam crer nesta doutrina, porém, dizem que não é algo que possa ser tratado no púlpito, ou ainda, algo que os membros da igreja não precisam saber. Mas, se você parou para ler os textos que indiquei no post anterior, focando agora nos textos paulinos, você pode perceber que ele não levantava qualquer discussão acerca da eleição, pelo contrário, aceitava e expunha como parte integral do evangelho que ele propôs no coração de pregar integralmente (Atos 20.20,27).

O ensino corretamente bíblico da eleição, segundo J.I. Packer, visa tornar os crentes humildes, confiantes, alegres e ativos, mas, também, se de maneira errada for exposto, pode fazer com que crentes se tornem orgulhosos, presunçosos, complacentes e preguiçosos. Creio então que se abster de tornar esta doutrina pública também pode gerar cristãos omissos ou abertos à heresia arminiana.

Como então podemos saber se somos eleitos de Deus? Tendo Cristo como espelho. Tendo-o como única esperança de salvação. Vendo a beleza de Cristo, e achando-o totalmente desejável. Amando-O, não por causa dos seus benefícios, mas amando por ele ser quem Ele é. Os eleitos são conhecidos por seus frutos (Mateus 7.10), e o principal fruto é conhecer a Jesus Cristo, e isto é a vida eterna (João 17.3). O maior sinal de que somos eleitos é nossa total dependência de Cristo.

A eleição, ao contrário de que muitos pensam, então é um estimulo de coragem ao trabalho missionário. A confiança de que Deus reunirá seus eleitos, levando-os ao conhecimento do evangelho deu coragem a grandes missionários calvinistas, dentre eles: David Brainerd, William Carey, Adoniram Judson, John Paton e muitos outros que dedicaram sua vida, muitas vezes entregando-a, em favor do ajuntamento dos eleitos. Como afirmou John Blanchard, “na Bíblia a eleição e a evangelização andam de mãos dadas, e não de punhos fechados”.

Packer então alista três motivos pelos quais, nós que afirmamos ser “calvinistas”, devemos evangelizar[1]:

Primeiro, os textos que temos estudado dizem-nos que Deus escolheu não só a quem Ele salvará, mas também o método pelo qual haverá de salvá-los: a pregação do verdadeiro evangelho de Cristo.

Segundo, a base sobre a qual a Bíblia nos ensina a oferecer Cristo ao mundo nada tem a ver com a eleição. Assim como Spurgeon acreditava na livre oferta do evangelho, nós como cristãos, devemos convidar todos os que se encontram fora do reino do céu para que entrem nele. O evangelho é uma porta que está sempre aberta, jamais fechada. Quer os incrédulos acreditem ou não, devem ser insistentemente convidados a entrar no Reino.

Terceiro, longe de solapar o evangelismo, a eleição o reforça, pois provê a única esperança do evangelismo ser bem sucedido em seu alvo. O homem por si só não veria e viria a Cristo se não houvesse um chamado sobrenatural (Romanos 8.30; 1Coríntios 2.14). Se não houvesse eleição, não haveria chamado, não haveria conversões, e toda atividade evangelística fracassaria.

Como bem ressalta Joel Beeke[2], não sabemos quantas pessoas Deus escolheu em nossas cidades. Cremos que foram muitas, mas, sendo muitas ou poucas, elas são do Senhor; Ele nos deu o meio de achá-las. Portanto, temos de falar, orar e visitar pessoas, abundando sempre na obra do Senhor e sempre prontos a dar a todos os que nos pedirem a razão da esperança que há em nós (1Pedro 3.15).

[1] PACKER, J.I. Vocábulos de Deus. São José dos Campos: Editora Fiel, 2002.

[2] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[1] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[2] Outros textos que também afirmam isto: João 6.39, 17.8-9; Romanos 8.33; 9.11-13; 1Coríntios 1.26-29; Gálatas 1.15; Efésios 1.4; Colossenses 3.12; 1Tessalonicenses 5.9; 2Tessalonicensses 2.13-14; 2Timóteo 1.9; Tito 1.1; 1Pedro 1.1-2; 2João 1.

 

Vinícius Mello

Os Cinco Solas da Reforma Protestante: Solus Christus

Chegamos ao texto que conclui os Cinco Solas. Falar de Jesus é algo que por vezes é muito fácil, outras é difícil, mas nunca um fardo! Como deve ser, é o assunto mais inspirador da Palavra, afinal, é dEle que ela se trata, é para a glória d’Ele, e é por meio d’Ele que ela existe! Espero que ao final desse texto, sintam-se inspirados, a vê-Lo como o centro de suas vidas, e como a causa da criação, e a perfeição de tudo que é bom!

Continuar lendo “Os Cinco Solas da Reforma Protestante: Solus Christus”

Os Cinco Solas da Reforma Protestante: Sola Fide

Em 1647, um grupo de pastores e teólogos reformados reunidos na Abadia de Westminster, em Londres, elaborou um conjunto de documentos que hoje conhecemos como o Catecismo (Padrões) de Westminster, que incluem a Confissão de Fé, o Catecismo Maior e o Breve Catecismo. Tais teólogos procuraram sistematizar o ensino reformado a fim de criar uma igreja Reformada unificada na Inglatera. Na pergunta e resposta 33 do Continuar lendo “Os Cinco Solas da Reforma Protestante: Sola Fide”