Os dons do Espírito Santo: Parte 1

Talvez um dos temas que mais cause debates, e até mesmo, divisões no meio evangélico, seja a questão dos dons espirituais. Alguns tratam como uma questão meramente secundária. Outros defendem fortemente suas posições, decretando uma verdadeira “caça as bruxas” contra aqueles que não concordam com seus pontos de vista. Existe ainda o problema de que muita bagunça tem sido feita em nome do Espírito Santo. Mas afinal, pode algo que gera tanta discórdia ser realmente importante para a igreja? Sim. E o apóstolo Paulo vai confirmar isso em 1Coríntios 12, texto que propomos expor aqui.

Antes de iniciar, quero deixar a menção de que neste texto, sou profundamente grato ao Rev. Leandro Lima, que em seu livro, “Razão da Esperança” (Editora Cultura Cristã), aborda de forma muito bíblica este assunto e influenciou em grande parte as propostas e exposições que faço. Nesta primeira parte, estudaremos a definição bíblica para o propósito e uso dos dons espirituais.

Neste capítulo em questão (1Co. 12), Paulo demonstra seu interesse em que os crentes de Corinto tenham conhecimento verdadeiro sobre os dons (v. 1), e este trecho trata-se de uma advertência séria contra a ignorância. Ignorância literalmente significa falta de entendimento, e, no que diz respeito aos dons, isso pode complicar seriamente o ministério e a vida cristã, como já estava acontecendo em Corinto, representado pela quantidade de divisões e discórdias relatadas. O que o apóstolo quer que tenhamos em mente é o fato de que ao dispormos da Palavra de Deus como meio para conhecer mais sobre este assunto temos o dever como cristãos de estudá-lo.

Wayne Grudem, em sua obra “Teologia Sistemática”, define dons espirituais da seguinte maneira:

Um dom espiritual é qualquer habilidade que é concedida pelo Espírito Santo e usada em qualquer ministério da igreja.

Posto isso, devemos compreender que o propósito para os dons, à luz do Novo Testamento, é que eles são dados para a edificação da igreja, a fim de que ela desenvolva seu ministério até que Cristo retorne (1Co. 1.7). Ou seja, os dons são dados para a igreja, no período entre a ascensão de Cristo e o seu retorno, para ajudá-la na tarefa proclamar a mensagem do evangelho e edificar os membros do Corpo.

            Assim, podemos entender que o derramamento do Espírito Santo com “poder” no Pentecoste (At. 1.8) era para equipar a igreja para pregar o evangelho. Ainda seguindo esta proposição, Paulo lembra aos crentes que eles devem procurar desenvolver aqueles que trazem edificação para a igreja (1Co. 14.12).

            Vale ressaltar que os dons, entretanto, não somente preparam a igreja para a volta de Cristo, mas, como o próprio Espírito também, são um selo, uma garantia, de que este é o começo de uma obra dentro de nós, que será plenamente realizada no futuro.

            Seguindo o capítulo, chegamos ao verso 4: “Há diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo”, onde compreendemos a unidade e a diversidade da igreja: ela é uma comunidade interligada porque o Espírito Santo habita em todos os crentes, e sua ação se demonstra multiforme porque o mesmo Espírito distribui diferentes dons aos crentes. Todos os crentes são batizados no Espírito, e isso faz deles um corpo (v.13), ou seja, uma igreja única e unida.

O dom espiritual não é algo que conquistamos, mas algo que é dado a nós tendo em vista um objetivo: “A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum” (v. 7). Não é uma questão de escolha pessoal, pois o Espírito distribui a cada um, de acordo com seu desejo – “Todas essas coisas, porém, são realizadas pelo mesmo e único Espírito, e ele as distribui individualmente, a cada um, conforme quer.” (v. 11). Se os dons são distribuídos com a finalidade de edificar a igreja, então o Espírito Santo concede soberanamente os dons mais úteis a um determinado lugar e por um determinado tempo.

            Na analogia que o apóstolo faz de um corpo composto por apenas um membro (v.17), sua intenção é demonstrar o quão monstruoso isso seria! Como não lembrar o personagem da Família Adams que era apenas uma “mãozinha”, que corria pela casa assombrada? É de causar espanto mesmo. Então, ele faz questão de listar alguns dons, distinguindo entre pessoa e pessoa (vv.8-10). Hoje, certos grupos afirmam que, a não ser que possuamos um dom particular, como na maioria dos casos, referindo-se ao dom de línguas, não fomos batizados com o Espírito Santo. E isto não é verdade.

            Precisamos deixar claro que há diferença entre dons (v.28), e alguns são mais preciosos para a edificação do Corpo. Deixando bem claro que a diferença está entre os dons, e não entre pessoas. Notemos nesta lista que o apóstolo apresenta, que o dom que é mais valorizado e buscado por tantas pessoas, aparece em último lugar na lista. Aliás, o problema apresentado pelos crentes de Corinto, era justamente este: estavam dando um valor excessivo ao dom de línguas. No capítulo 14, por exemplo, ele diz claramente que o dom de profecia é superior ao dom de línguas (14.5), demonstrando que os dons sempre funcionam para o bem dos outros, não somente para edificação própria. Qualquer que seja o dom, todos tem valor dentro do corpo de Cristo (vv. 21-25).

            Concluindo esta primeira parte, onde compreendemos o que são e qual o propósito para os dons, na segunda parte deste texto, demonstraremos como o amor deve ser o regulador para o uso dos dons e em um terceiro momento, propor a definição de alguns dons e seu uso para a igreja hoje.

Por: Prof. Vinícius Mello
Igreja Cristã Evangélica Ebenézer
São José dos Campos – SP