As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Eleição Incondicional

“Não importa o que as pessoas falem sobre esse assunto, a eleição ocorre de fato e não há como negá-la. Nenhum cristão pode negar o fato de que nem todos os cristãos professos serão salvos e que os que o são, devem sua salvação inteiramente à graça de Deus e ao chamado do Espírito Santo, e tampouco podem explicar o porquê de alguns serem chamados à salvação, enquanto outros, não.”

J.C. Ryle

Este é o segundo ponto das doutrinas da Graça. Aqui encontramos a esperança para o homem totalmente caído e morto em seu pecado: a eleição incondicional. Vou dedicar esta primeira parte para responder as seguintes questões: “O que é a doutrina da eleição incondicional?” e, “Quais são as razões bíblicas para crermos na doutrina da eleição?”.

A doutrina da eleição tem sido o ponto mais controverso na história do cristianismo devido à sua má compreensão e má aplicação. Alguns crêem que esta doutrina é uma artimanha de Satanás para impedir a evangelização na igreja. Outros calvinistas extremados crêem que sem esta doutrina, Deus deixa de ser Deus, pois estaria privado de sua devida glória na salvação do homem caído. Alguns crêem que esta é a causa de muitos estarem no inferno, porém, nós que aceitamos o ensinamento bíblico da depravação total, sabemos que a eleição é o motivo pelo qual somos salvos.

Mais uma vez afirmo: esta não foi uma doutrina descoberta por Calvino e, nem foi o único sermão pregado por Spurgeon. E, num sentido geral, esta doutrina se aplica a tudo o que Deus faz, pois tudo foi predeterminado por Ele.

Baseio-me então na definição de Joel R. Beeke para eleição:

“[…] Deus elege aqueles que são totalmente depravados e incapazes de exercer sua vontade caída para crer em Cristo. Deus os elege com base em seu beneplácito soberano, conquistando a vontade deles para torná-los dispostos a exercer fé em Cristo para a salvação.”[1]

Ou seja, Deus soberanamente escolheu aqueles que haveriam de ser salvos antes da fundação do mundo, em um tempo conhecido como “eternidade passada”. Aí então começam os problemas, pois na maioria das discussões sobre este tema há uma grande preocupação em proteger a dignidade e a liberdade do homem, travando uma aparente batalha entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana, ou, livre arbítrio.

Porém, biblicamente não podemos negar de forma alguma a existência da eleição, ou predestinação. Veja alguns textos:

“Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los?” – Lucas 18.7

“Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vósoutros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda.”
João 15.16

“Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna.”
Atos 13.48

“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.”
Romanos 8.29

Todos estes textos referem-se a um grupo de pessoas que foram escolhidos soberanamente por Deus.[2] E talvez agora você esteja dizendo: “Mas este não é Deus, pois ele estaria sendo injusto!”. Quero te dizer que esta afirmação já foi feita, e Deus mesmo respondeu:

“Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.”
Romanos 9.14-16

Na eternidade passada Deus soberanamente amou e escolheu um povo peculiar, escolheu especialmente cada pessoa, não somente o grupo como um todo,  elegendo-os para a Sua salvação. E não foi porque Ele previu que as pessoas haveriam de crer, pois a própria fé é fruto da Sua vontade. Ele escolheu porque é gracioso, amoroso e soberano, pois, se dependesse de nossa vontade, não o escolheríamos. Lembra-se? Estamos mortos em nossos pecados.

A maior dificuldade dos homens, em todos os tempos, é deixar Deus ser Deus. A doutrina da eleição aponta para o majestoso fato de que dentre tantos atributos, Deus é soberano, e ordena TODAS as coisas. Sem este atributo Ele não seria Deus.

Como então unir a eleição soberana e os homens mortos em seus pecados? Somente pela graça. A salvação não vem por méritos, mas pela graça soberana de Deus, que se expressou na cruz de nosso Senhor Jesus. Ele nos elegeu para sermos santos, pois de fato não éramos (Efésios 1.4; 2Tessalonicenses 2.13). Ele nos elegeu para nos dar vida.

Isto é insondável para nossas mentes. Paulo exalta a Deus afirmando que isto é profundo, que esta sabedoria é insondável. Por isso a Ele toda a glória!

“Ninguém jamais veio a Cristo porque sabia que era um dos eleitos; antes, veio porque precisava de Cristo.”
Ernest Kevan

Como esta doutrina contribui para a formação do caráter cristão e ainda, como ela pode estimular a evangelização?

Fico preocupado quando pregadores afirmam crer nesta doutrina, porém, dizem que não é algo que possa ser tratado no púlpito, ou ainda, algo que os membros da igreja não precisam saber. Mas, se você parou para ler os textos que indiquei no post anterior, focando agora nos textos paulinos, você pode perceber que ele não levantava qualquer discussão acerca da eleição, pelo contrário, aceitava e expunha como parte integral do evangelho que ele propôs no coração de pregar integralmente (Atos 20.20,27).

O ensino corretamente bíblico da eleição, segundo J.I. Packer, visa tornar os crentes humildes, confiantes, alegres e ativos, mas, também, se de maneira errada for exposto, pode fazer com que crentes se tornem orgulhosos, presunçosos, complacentes e preguiçosos. Creio então que se abster de tornar esta doutrina pública também pode gerar cristãos omissos ou abertos à heresia arminiana.

Como então podemos saber se somos eleitos de Deus? Tendo Cristo como espelho. Tendo-o como única esperança de salvação. Vendo a beleza de Cristo, e achando-o totalmente desejável. Amando-O, não por causa dos seus benefícios, mas amando por ele ser quem Ele é. Os eleitos são conhecidos por seus frutos (Mateus 7.10), e o principal fruto é conhecer a Jesus Cristo, e isto é a vida eterna (João 17.3). O maior sinal de que somos eleitos é nossa total dependência de Cristo.

A eleição, ao contrário de que muitos pensam, então é um estimulo de coragem ao trabalho missionário. A confiança de que Deus reunirá seus eleitos, levando-os ao conhecimento do evangelho deu coragem a grandes missionários calvinistas, dentre eles: David Brainerd, William Carey, Adoniram Judson, John Paton e muitos outros que dedicaram sua vida, muitas vezes entregando-a, em favor do ajuntamento dos eleitos. Como afirmou John Blanchard, “na Bíblia a eleição e a evangelização andam de mãos dadas, e não de punhos fechados”.

Packer então alista três motivos pelos quais, nós que afirmamos ser “calvinistas”, devemos evangelizar[1]:

Primeiro, os textos que temos estudado dizem-nos que Deus escolheu não só a quem Ele salvará, mas também o método pelo qual haverá de salvá-los: a pregação do verdadeiro evangelho de Cristo.

Segundo, a base sobre a qual a Bíblia nos ensina a oferecer Cristo ao mundo nada tem a ver com a eleição. Assim como Spurgeon acreditava na livre oferta do evangelho, nós como cristãos, devemos convidar todos os que se encontram fora do reino do céu para que entrem nele. O evangelho é uma porta que está sempre aberta, jamais fechada. Quer os incrédulos acreditem ou não, devem ser insistentemente convidados a entrar no Reino.

Terceiro, longe de solapar o evangelismo, a eleição o reforça, pois provê a única esperança do evangelismo ser bem sucedido em seu alvo. O homem por si só não veria e viria a Cristo se não houvesse um chamado sobrenatural (Romanos 8.30; 1Coríntios 2.14). Se não houvesse eleição, não haveria chamado, não haveria conversões, e toda atividade evangelística fracassaria.

Como bem ressalta Joel Beeke[2], não sabemos quantas pessoas Deus escolheu em nossas cidades. Cremos que foram muitas, mas, sendo muitas ou poucas, elas são do Senhor; Ele nos deu o meio de achá-las. Portanto, temos de falar, orar e visitar pessoas, abundando sempre na obra do Senhor e sempre prontos a dar a todos os que nos pedirem a razão da esperança que há em nós (1Pedro 3.15).

[1] PACKER, J.I. Vocábulos de Deus. São José dos Campos: Editora Fiel, 2002.

[2] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[1] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[2] Outros textos que também afirmam isto: João 6.39, 17.8-9; Romanos 8.33; 9.11-13; 1Coríntios 1.26-29; Gálatas 1.15; Efésios 1.4; Colossenses 3.12; 1Tessalonicenses 5.9; 2Tessalonicensses 2.13-14; 2Timóteo 1.9; Tito 1.1; 1Pedro 1.1-2; 2João 1.

 

Vinícius Mello