Jesus e as Religiões

Perguntas simples, podem trazer verdades reveladoras que nos ajudam a entender aquilo que cremos e o que pensamos acreditar. Vi uma dessas perguntas no twitter há um tempo. A questão era “Fora do cristianismo, qual é a religião que você considera mais ‘interessante’? E por quê?”, a princípio, por não levar a coisa a sério, respondi Ufologia. Mas um comentário na publicação me chamou a atenção. O teólogo Ângelo Bazzo, comentou que qualquer cristão deveria responder judaísmo. A partir de então, me pus a refletir sobre a forma como vemos nossa própria religião. Abaixo explico como não escolher o judaísmo reflete num desconhecimento tanto de nossa fé, como de um dos seus pilares: a Trindade.

O Problema da Religião

A partir de 2012, iniciou-se no meio evangélico um movimento de negação da religião. Frases como: “viva o evangelho e não a religião”, “Cristo salva e a religião mata”, “Não seja religioso” eram comuns em shows, pregações e eventos gospel. Então, toda uma geração de crentes, principalmente, novos convertidos foi convencida de que sua relação com Jesus deveria ser pautada em um comportamento que não poderia, e nem deveria, ser marcado pela obediência a regras. A ideia de rebelar-se contra o sistema religioso e revolucionar o cristianismo com uma geração de jovens que sabiam realmente o que era melhor para a igreja e como resolver seus problemas na base do amor, foi uma tentação e tanto. Confesso que eu mesmo caí nesse engano.

Moderação nas roupas e linguajar, eram cobranças que os jovens não aceitavam de suas lideranças. E o argumento que ainda é utilizado nos dias de hoje é que Jesus não definiu normas de conduta, e que por isso, esse apego às tradições não é o verdadeiro evangelho. Acontece que esse argumento é baseado numa confusão de termos.

Religião, Dogmas e Costumes

Vamos abordar os termos e suas aplicações para entendermos o real panorama de toda essa situação, e como ela é muito mais ampla e não recebe a atenção devida. É muito comum confundirmos religião com dogmas, mas são coisas diferentes. A situação fica ainda mais complexa, quando há a confusão de que costumes e dogmas são a mesma coisa. Alguns núcleos críticos à fé cristã usam da variedade de igrejas para atacar a credibilidade do cristianismo. Afinal, se ela é a verdadeira, por que então, existem tantas denominações?
A definição de religião vem do latim religare, que significa, religar. Ou seja, religião é o conjuntos de crenças que tem por objetivo nos conectar ao divino, com a finalidade de satisfazer a necessidade existencial que temos de voltar a Deus, status perdido após a queda de Adão. É possível compreender então, que qualquer postura ou ação que tenha por objetivo nos conectar a uma entidade considerada superior que nos provê uma condição moral capaz de nos tornar completos em nossa condição de criatura, é uma atitude religiosa.

Uma vez que assumimos uma postura religiosa, e existe a crença em um ser superior, assumimos também que existem ações que agradam e desagradam a esse ser. Sendo necessário então, a sistematização das regras para que se possa agradar a vontade deste. Estamos falando dos dogmas. Dogmas são pontos considerados indiscutíveis de uma crença. No cristianismo, temos as confissões de fé que nos ajudam a visualizar a crença como um todo e que tem efeitos práticos em nossas leituras e estudos a respeito de Deus e de Jesus. Por exemplo, uma instituição não pode se declarar cristã, se ela não enxerga como Jesus Cristo como o ponto principal de todas as coisas.

Os chamados usos e costumes, são uma forma de cada denominação expressarem sua identidade. E aqui, é onde vemos a diversidade tão criticada. Recentemente, um amigo me marcou em um post no facebook, onde uma página criticava um presidente por usar uma bermuda, enquanto o estatuto da referida igreja ordena o não uso dessa peça de roupa. Em outras denominações não há esse tipo de exigência. O que muitos classificam como religiosidade e alvo de críticas é na verdade apenas uma característica de cada denominação. Independente de acreditar que tatuagem é pecado ou não, enquanto crer que Jesus é o Filho do Deus Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra, que morreu e ressuscitou ao terceiro dia, está a direita de Deus e voltará para julgar os vivos e os mortos, aponta para a profissão da fé cristã, que é uma religião.

Nesse momento, você pode pensar: ok, mas o que tudo isso tem a ver com não escolher judaísmo em uma pergunta que exclui o cristianismo, tem a ver com a Trindade? É o que respondo agora.

Sim, Jesus criou um religião

Agora que entendemos os termos e suas diferenças, podemos entender melhor a religião que Jesus criou. Obviamente, Jesus não marcou uma data no calendário como sendo o ponto de partida de sua religião. É possível identificar uma religião formal com base em alguns preceitos, veja abaixo:

  • Mandamentos (Mt 22:34-40; Mc 12:28-34) – Os mandamentos enfatizados por Jesus resumem os 10 mandamentos da Lei Mosaica e não os substituem como pensam alguns. Amando a Deus de todo o nosso coração, alma e entendimento, não prestaremos culto a outros deuses, não construiremos ídolos e imagens, não tomaremos o nome do Senhor em vão e também dedicaremos um dia da semana para honrá-Lo e adorá-Lo. Da mesma forma que amando o nosso próximo, honraremos nossos pais, falando em um contexto familiar, não intentaremos contra a vida, não cometeremos adultério, diremos mentiras a respeito deste, cobiçaremos ou tomaremos algum dos seus bens. Ao resumir a Lei, Jesus aponta para o objetivo desta, deixando esse esclarecimento como ordenança.
  • Estabelecimento de uma aliança (Mt 26:27-28) – O sangue de Cristo é o selo que cobre os cristãos de todas as eras, assim como o sangue do cordeiro pascal cobriu as portas dos hebreus impedindo que a morte entrasse nas casas do povo de Deus, esse sangue nos livra do salário do pecado, uma vez que o preço já foi pago. Assim, vivemos em graça por conta do sangue derramado.
  • Ensino de uma doutrina (Jo 15:8-14) – Ao contrário do que os adeptos da hipergraça ensinam, a identidade do cristão não está numa liberdade descompromissada, mas sim, pautada pela obediência. Cristo como autor da Lei, conhece a motivação desta, assim, quando se contrapunha aos judeus, ele não o fazia para anular a Lei, mas para apontar o erro de interpretação cometido por seus opositores. No versículo da referência desse tópico, Jesus diz claramente que permanece no amor do Pai por sua obediência ao que lhe fora ordenado. Adão caiu pela desobediência, enquanto Cristo foi exaltado por sua obediência. Logo, a obediência, e não a revolução, é o que nos mantém em Jesus.
  • Realização de sacrifício para religar o homem a Deus (Jo 12:23) – O sacrifício apresentado pelo Messias não foi um animal perfeito, mas o sacrifício perfeito. Somente Jesus tinha condições de se apresentar diante do Pai como conciliador entre Deus e o homem. A oferta perfeita, aquele que em tudo foi tentado, o único sabia o ponto de vista de Deus e passou a seus discípulos. Jesus Cristo é o elo perfeito entre uma humanidade imensamente pecadora e um Deus infinitamente santo.

Antes que Abrãao existisse, Ele era

Pai, Filho e o Espírito Santo são um só, entretanto, possuem personalidades distintas. Sempre juntos, mas independentes. Como isso ocorre é um dos mais belos mistérios com relação ao Ser Supremo que é o Deus que servimos. O fato de a história ter sido dividida em Antes e Depois de Cristo e da Bíblia ser dividida ser dividida em Antigo e Novo Testamento, pode gerar em nosso imaginário a ideia de que as coisas anteriores a Jesus não tenham tido sua participação direta. É como se concordássemos com aqueles que afirma que Jesus não era Deus, mas uma criatura como nós. Em João 8:58, Jesus diz que antes que Abraão existisse, ele era. Essa afirmação vem logo após os judeus questionarem sua identidade por conta de suas palavras sobre a morte e a vida de quem crê nele. Para um judeu nos tempos de Jesus, essa afirmativa era uma blasfêmia, pois em Abraão estava a origem terrena de toda a nação. Ao chamar para si o atributo da eternidade, Jesus apresentou a quem o ouviu, uma autoridade maior que a de Abraão e dos profetas.

No primeiro capítulo do evangelho de João, temos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o verbo era Deus”. O Verbo (origem de todas as coisas) a quem o apóstolo se referia, era o próprio Cristo. Então, devemos entender que Jesus estava presente em todos os momentos da história. Da criação, passando pela confusão das línguas na Torre de Babel, o chamado de Abraão, a revelação até a entrega da Lei para Moisés. Quando é dado a Moisés as instruções para os ritos, Jesus como integrante da Trindade, deu essa ordem. Dos sacrifícios aos rituais de purificação, tudo instituído por Jesus.

Ao encarnar como homem Jesus não obedece a Lei por estar sujeito à ela humanamente falando, mas por ser o autor! Seria completamente incoerente que ele, sendo perfeito e a encarnação do Ser Supremo, fosse capaz de negligenciar, desobedecendo algo que o próprio apresentou como sendo um fundamento para a identidade de seu povo. Ao dar a Lei a Moisés, Jesus também antecipou a revelação de si mesmo, pois somente ele, na condição de Legislador poderia compreender não somente o significado, mas o propósito de suas leis.

Cristo x Deus

É uma tentação acreditar que, de alguma forma, há uma diferença entre o modo como a Trindade se revela no Antigo Testamento e o modo como a enxergamos no Novo. Não há. Acontece que, ao estabelecer o pacto da Graça, a cortina foi rasgada e agora, podemos vislumbrar o panorama da obra de Deus. É um erro grotesco acreditar que Jesus anula o Antigo Testamento. Quando diante da pergunta que mencionei, não escolhemos o judaísmo de imediato, apenas apontamos para uma verdade bem inconveniente: a de que para nós, a revelação de Deus no Antigo Testamento não é suficiente. Como se Jesus fosse um substituto de Deus. O que é um pensamento absurdo vindo de um cristão.

Assim como Deus, Cristo está revelado na Lei e nos Profetas. Não podemos acreditar que o Pai foi substituído pelo Filho, uma atualização dos aplicativos de nosso celular. Quando pensamos assim, em algum momento podemos acreditar que o Espírito Santo substituirá Jesus de alguma forma, no presente ou no futuro.

Não sou judaizante, longe disso. Entretanto, tanto o cristianismo quanto o judaísmo têm a mesma origem. Somos co-herdeiros da promessa feita aos judeus, por causa da fonte! Assim, precisamos resistir à tentação de que acreditar que a revelação de Deus no AT é diferente da que vislumbramos em Cristo. Se temos necessidade de um advogado, é porque há um juiz. Que o amor que dizemos ter por Deus, seja aprofundado pelo conhecimento de como Ele se revelou, e como Ele quer ser adorado.

Jesus criou tanto o judaísmo, quanto o cristianismo. Ambos apontam para ele, a diferença é que nós vislumbramos o Pai através do sangue do Filho com os olhos dados pelo Espírito. Amar e conhecer a Deus consiste em conhecer a Ele todo e não somente a visão que projetamos. Ele é quem se revela. Quer conhecer o Pai, o Filho e o Espírito Santo como eles são e não mais com base em falácias e discursos tolos de internet? Abra sua bíblia.

Celso Amaral

O Senhor dos Anéis e o Cristianismo

Você sabia que a obra O Senhor dos anéis tem Deus como personagem principal, mesmo sem o nome dEle ser mencionado uma única vez? Esse texto é sobre a aplicabilidade do cristianismo nesta obra tão fantástica de J. R. R. Tolkien. Também farei uma curta menção a acontecimentos da obra O Silmarillion, que é conhecido como “o velho testamento” do universo que Tolkien criou, e ao O Hobbit, para melhor contextualizar o leitor. Continuar lendo “O Senhor dos Anéis e o Cristianismo”

INFOGRÁFICO: O Cristianismo através da história

Com o intuito de auxiliar os irmãos no entendimento da história da igreja até aqui, o Cristão Racional, em parceria com a designer Jessica Sarahland de Belo Horizonte, montou esse infográfico com a linha do tempo de nossa história, confira abaixo: Continuar lendo “INFOGRÁFICO: O Cristianismo através da história”