As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Perseverança dos Santos

“Esta doutrina é meu sustento diário: eu me afundaria totalmente sob pavor de sofrimentos iminentes, não estivesse eu firmemente persuadido de que Deus me escolheu em Cristo desde antes da fundação do mundo, e que agora, tendo sido efetivamente chamado, ele não permitirá que ninguém me arrebate de sua mão poderosa.”
George Whitefield

Chegamos ao fim de nossa jornada nas doutrinas da graça. Mas ainda falta um ponto chave: a segurança dos salvos. A ausência das doutrinas da graça nos púlpitos explica a incerteza quanto à salvação dos crentes, pois divide a salvação entre ação de Deus e ação do homem, ou melhor, sela a salvação somente pela ação humana. Vivemos em um período do cristianismo onde a certeza da salvação é pregada baseando-se nos sentimentos: emocionalismo, “frio na espinha”, batismo no Espírito, experiências sobrenaturais, etc. A emoção e o entusiasmo baseiam a certeza da fé para este movimento.

Joel Beeke define a doutrina da perseverança dos santos da seguinte forma:

A doutrina da perseverança dos santos ensina que todos que participam da graça e do poder salvífico da união com Cristo, pela fé, continuam nessa união com seus frutos e benefícios.[1]

Vale a pena também destacar a definição de Wayne Grudem:

Pela perseverança dos santos, todos aqueles que verdadeiramente nasceram de novo serão guardados pelo poder de Deus e perseverarão como cristãos até o final da vida, e só aqueles que perseverarem até o fim realmente nasceram de novo[2]

A idéia primordial para este ponto, é que como a salvação depende totalmente de Deus, a garantia está firmada completamente Nele (Filipenses 1.6). Mas, reitero que, isto não significa que o eleito está imune ao pecado, de modo que ele não possa falhar. E por não entender desta forma, muitos cristãos vivem com grande incerteza de sua salvação, por isso, tem um grande empecilho para o crescimento espiritual.

Esta segurança não está baseada em nossa própria capacidade de persevevar. R.C. Sproul, então, modifica ligeiramente perseverança para preservação, e explica da seguinte forma:

A razão pela qual verdadeiros cristãos não caem da graça é que Deus, graciosamente, não os deixa cair. A perseverança é o que fazemos. A preservação é o que Deus faz. Nós perseveramos porque Deus preserva.[3]

A Confissão de Fé Batista de 1689 diz:

Ainda que muitas tormentas e dilúvios se levantem e se dêem contra eles, jamais poderão desarraigá-los da pedra fundamental em que estão firmados, pela fé. Não obstante, a visão perceptível da luz e do amor de Deus pode, para eles, cobrir-se de nuvens e ficar obscurecida, por algum tempo, por causa da incredulidade e das tentações de Satanás. Mesmo assim, Deus continua sendo o mesmo, e eles serão guardados pelo poder de Deus, com toda certeza, até a salvação final, quando entrarão no gozo da possessão que lhes foi comprada; pois eles estão gravados nas palmas das mãos de seu Senhor, e os seus nomes estão escritos no Livro da Vida, desde toda eternidade.[4]

O arminiano sustenta que a salvação está condicionada à cooperação voluntária do homem, porém as Escrituras afirmam justamente o contrário quando olhamos para as seguintes passagens:

As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar. – João 10.27-29

Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. – Romanos 8.33-39

Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados. – Hebreus 10.14

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível sem mácula imarcescível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo. – 1Pedro 1.3-5

Vemos então, à luz destas passagens que Deus é a base para a nossa confiança. A herança de nossa salvação é uma herança espiritual, e o próprio Jesus afirmou que coisas terrenas não podem corromper nossa herança eterna (Mateus 6.19-20).

Mas então, como lidar com a apostasia? Como entender aqueles que “caem na fé”? Olhemos para o texto de 1João 2.19:

Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos.

Neste texto, João está alertando acerca de falsos mestres que estiveram na igreja, estiveram no meio de cristãos, mas saíram e começaram a ensinar suas heresias. E assim, evidenciando falsas opiniões acerca de Cristo. E então, João chega à conclusão que estes apóstatas nunca foram crentes verdadeiros, e como diz Jay Adams, “enquanto faziam parte da igreja visível, não pertenciam à igreja invisível[5]. Este ainda ressalta um segundo ponto:

Os verdadeiros crentes permanecem na fé e na igreja. Eles perseveram até o fim. Certamente é possível um crente desanimar por um tempo, mas, como Pedro ou João Marcos – que tiveram lapsos temporários –, eles se arrependem e, por fim, voltam.[6]

Concluindo, o que pode dar ao crente a plena segurança? Faça para si mesmo, estas três perguntas que Grudem propõe:
1. Será que confio hoje na salvação de Cristo?
2. Há porventura no meu coração provas da obra regeneradora do Espírito Santo?
3. Será que percebo uma tendência constante de crescimento na minha vida cristã?

Espero que estes estudos básicos das Doutrinas da Graça realmente possam ajudar o caro leitor, e que, acima de tudo, o Espírito Santo aplique a cada dia em nossos corações estas preciosas pérolas.

 

[1] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[2] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática – Atual e Exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 1999.

[3] SPROUL, R.C. Eleitos de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

[4] Fé Para Hoje – Confissão de Fé Batista de 1689. São José dos Campos: Editora Fiel, 1991.

[5] PARSONS, Burk (Ed.). João Calvino – Amor à devoção, doutrina e glória de Deus. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[6] ibid.

 

Vinícius Mello

As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Graça Irresistível

“Em suma, nenhum coração humano é tão obstinado a ponto de ser impossível ao Espírito conquistar e convertê-lo.”
Steven J. Lawson

Também conhecido como “chamado eficaz”, podemos definir este ponto como a ação do Espírito Santo, que convence do pecado, chama, atrai e regenera os pecadores eleitos. Nenhum dos eleitos, daqueles pelos quais, Cristo entregou a vida em sacrifício, deixa de crer. Esta ação do Espírito leva o homem a arrepender-se de seus pecados e a crer, garantindo a conversão do eleito. Continuar lendo “As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Graça Irresistível”

As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Expiação Limitada

“Aqui somos movidos a lembrar-nos de que ele morreu pela igreja. Não devemos perder de vista esta verdade. Ele morreu pela igreja; ele não morreu por ninguém mais.”
Martyn Lloyd-Jones

Estamos então no ápice das Doutrinas da Graça, pois, neste ponto vamos tratar do tão sublime sacrifício de Cristo. Nós, cristãos, devemos sempre nos alegrar neste assunto, pois através do sacrifício gracioso de nosso Senhor, encontramos a libertação da escravidão do pecado, nossa salvação. Mas, então se inicia a discussão: Por quem Cristo morreu? Continuar lendo “As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Expiação Limitada”

As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Eleição Incondicional

“Não importa o que as pessoas falem sobre esse assunto, a eleição ocorre de fato e não há como negá-la. Nenhum cristão pode negar o fato de que nem todos os cristãos professos serão salvos e que os que o são, devem sua salvação inteiramente à graça de Deus e ao chamado do Espírito Santo, e tampouco podem explicar o porquê de alguns serem chamados à salvação, enquanto outros, não.”

J.C. Ryle

Este é o segundo ponto das doutrinas da Graça. Aqui encontramos a esperança para o homem totalmente caído e morto em seu pecado: a eleição incondicional. Vou dedicar esta primeira parte para responder as seguintes questões: “O que é a doutrina da eleição incondicional?” e, “Quais são as razões bíblicas para crermos na doutrina da eleição?”. Continuar lendo “As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Eleição Incondicional”

As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Depravação total do homem

“Não teremos uma idéia adequada do domínio do pecado, a menos que nos convençamos dele como algo que se estende a cada parte da alma, e reconheçamos que tanto a mente quanto o coração humano se têm tornado completamente corrompidos.”
João Calvino Continuar lendo “As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Depravação total do homem”

As Maravilhosas Doutrinas da Graça (Parte 1) – Introdução

“Não é uma novidade, então, que eu estou pregando; não é nenhuma nova doutrina. Gosto de proclamar essas velhas e fortes doutrinas que levam o apelido de CALVINISMO, mas que são, certa e verdadeiramente, a verdade revelada de Deus como se vê em Cristo Jesus.”
Charles H. Spurgeon Continuar lendo “As Maravilhosas Doutrinas da Graça (Parte 1) – Introdução”

Textos que você precisa ler para se preparar para 2019

O Cristão Racional é um blog que trata de assuntos atuais sob a perspectiva cristã, assim como aborda conteúdo teológico de forma de simples e usando uma linguagem bastante comum ao leitor. E nesses dois anos de existência, já abordamos os mais variados assuntos e como nosso número de leitores cresceu bastante desde o início – GLÓRIA A DEUS – uma de nossas leitoras sugeriu que fizéssemos uma lista com os textos que tratam de assuntos que os cristãos devem conhecer, ou, no mínimo, uma prévia para se aprofundarem posteriormente. Atendendo a esse pedido, selecionei entre os mais de 70 textos que escrevemos, e organizei em uma ordem lógica para entendimento. Por não ser em ordem de escrita, alguns textos serão uma verdadeira viagem no tempo. Chega de enrolação, e vamos para a lista! Continuar lendo “Textos que você precisa ler para se preparar para 2019”

Os dons são uma evidência de recebimento do Espírito Santo?

Cresci em igrejas neo-pentecostais e pentecostais, praticamente a minha vida cristã inteira. Quando minha mãe se converteu, eu tinha aproximadamente 7 anos de idade, no mês que vem, farei 27. Então, posso dizer que tive bastante vivência com a pergunta que dá título a esse texto, mas vejo a necessidade de escrevê-lo por diversos motivos, mas o principal deles, é justamente pelo modo como essa crença tem atrapalhado o crescimento espiritual de pessoas que acreditam não possuir o Espírito Santo, simplesmente porque não fala uma língua esquisita durante um culto ou reunião religiosa. Portanto, vou usar definições bíblicas a respeito do assunto, não me prendendo aos chamados “avivamentos” e manifestações carismáticas que ocorreram e ocorrem atualmente.

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Os dons do Espírito Santo: Parte 2

O capítulo 13 da primeira carta de Paulo aos Coríntios tem sido desde tema de música à leitura quase obrigatória nos casamentos. Aqui, ele fala de forma magnífica sobre a superioridade do amor sobre os dons. Mas, o que é o amor? Talvez a maior parte das pessoas o defina como um sentimento, algo intrinsecamente ligado às emoções. Aquele momento em que o coração bate mais forte, as pernas tremem e as palavras fogem. Não há nada mais longe da definição de amor do que esta. Continuar lendo “Os dons do Espírito Santo: Parte 2”

Relevantes como o sal, resplandecentes como a luz

Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte;
Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa.
Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.
Mateus 5:13-16 Continuar lendo “Relevantes como o sal, resplandecentes como a luz”