Relevantes como o sal, resplandecentes como a luz

Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte;
Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa.
Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.
Mateus 5:13-16

Sal da terra e luz do mundo são dois conceitos bem conhecidos dos cristãos. Mas, infelizmente, é concebido de forma errada pela maioria deles, entendendo esse conceito como algo interno, buscando serem boas pessoas, mas sem influenciar outras a seguirem pelo mesmo caminho.
Vivemos num contexto no qual a identidade se tornou uma forma de autoafirmação (para não dizer imposição), e de reivindicação de direitos e afins. Ouvimos falar sobre os movimentos feminista, LGBT, negro, indígena, das associações de classe que buscam formas de se sobressaírem uns aos outros, dizendo buscar igualdade. Dentro desse ambiente tão misto e tão isolador de características, qual o papel da Igreja?
Jesus diz aos discípulos que estes são sal da terra e luz, logo após proferir as famosas Bem-Aventuranças e antes de iniciar uma explicação sobre os pontos da lei que eram causa de constantes conflitos. Uma vez que as Bem-Aventuranças revelam a graça que acompanha aqueles que se arrependem de seus pecados e confiam somente a Cristo os aspectos futuros de suas vidas, a explanação sobre os pontos conflituosos da lei revela o ponto de vista de Deus, ao instituir tal legislação.
Fazendo uma ponte entre as duas abordagens de nosso Salvador, podemos entender então que, ao sermos alcançados pela graça recebemos a responsabilidade de levar a mensagem segundo o ponto de vista de nosso Criador às pessoas, entendendo a harmonia e autoridade de sua Palavra, para que o Deus que ela revela seja glorificado.

  1. A metáfora sal e luz

Jesus usa dois exemplos bastante presentes e importantes na cultura da época. O sal era, praticamente o único conservante em seu tempo, e exercia também a importante missão de tornar os alimentos consumíveis com mais facilidade. Para nós, pode ser difícil imaginar um tempo no qual não havia energia elétrica e, talvez por isso não levemos tão a sério a importância de uma fonte de iluminação tão simples quanto uma vela ou candeeiro. Imagine um ambiente hostil, de subjugação a um império mais poderoso e ainda não possuir uma fonte de luz que traga o mínimo de conforto de segurança?

  • Funções do sal – culinária e biológica

O sal tem uma função muito interessante na culinária, ao contrário do que muito gente pensa, não serve apenas para dar sabor, mas também para equilibrar sabores. Mingau e aveia são bastante desagradáveis sem o sal. Até mesmo o chocolate, precisa do sal para que não sejam extremamente enjoativo. O sal está presente em praticamente todos os alimentos, desde proporções mínimas até as óbvias.
Biologicamente, o sal atua removendo a umidade do local onde foi aplicado. Em alimentos, isso funciona como um conservante, dado que, a remoção da umidade impede a proliferação de bactérias e fungos “limpando” por assim dizer, qualquer excesso presente nas células dos alimentos, principalmente os de origem animal.

  • A necessidade da evidência

Na antiguidade, as cidades eram preferivelmente construídas em terrenos elevados por dois motivos:

  1. Referencial geográfico: Como não havia GPS, quanto mais em evidência uma cidade ficava, mas fácil se tornava localizá-la e usá-la como referencial tanto para si quanto para outros.
  2. Posicionamento bélico: terrenos elevados forneciam vantagens com relação a quem estava abaixo.

Uma cidade edificada sobre um monte não pode simplesmente ser ignorada, ela deve ser notada e principalmente, buscada.
No primeiro século, a iluminação era feita por meio de candeia, que era uma vela colocada em um castiçal no ponto mais alto da casa, para que a luz fosse distribuída de forma igual por todo o ambiente. Posição semelhante à das lâmpadas que utilizamos atualmente. Não colocamos as lâmpadas embaixo da mesa se queremos iluminar a todos na casa. O ponto mais alto, representa uma distribuição por igual de toda a luz.

1.3. Objetivo da metáfora: diferença cultural

Cultura pode ser definida como o conjunto de ações, valores morais, éticos e religiosos que caracterizam e identificam um determinado grupo ou nação. Por ser guiado pelo pecado as ações do homem e consequentemente, a cultura, vão na direção oposta aos desígnios de Deus.

  1. A influência cultural no Antigo Testamento

Apesar de serem termos novos, a ideia por trás do sal e luz, não o é. Durante todo o Antigo Testamento, vemos Deus chamando o seu povo para serem diferentes das outras nações, e terem uma conduta que seja capaz de revelar a sua glória aos que ainda não o conhecem. Não se trata apenas de um manual de conduta, mas de identidade. A relação dos povos com as divindades que costumavam adorar na antiguidade, eram tão ou mais profundas que as vistas hoje. Adotar um deus era mais que possuir uma religião ou culto, se tratava da identidade de determinada nação, assim sendo, quando Deus chama um povo para si, Ele não buscava simplesmente louvores e adoração por meio de uma parcela da humanidade, mas também ter sua identidade revelada por meio daqueles a quem chamou.

  • Adão e Eva: os zeladores da criação

É bem comum que as pessoas tenham uma visão deturpada a respeito do trabalho, muitas vezes atribuindo-o como uma punição pelo pecado. Porém, em Gênesis 2:5 podemos ver que não é bem assim, o que veio junto com o pecado foi a necessidade de sobrevivência, mas o trabalho, foi dado por Deus (Gn 3:17-19). O homem foi criado já com a finalidade de zelar pela criação e pelo ambiente no qual foi inserido (Gn 1:26-28). Podemos definir o papel de Adão como o de um curador de museu, que deve zelar pela conservação das obras ali expostas, para que os autores tenham sua genialidade reconhecidas ainda que os anos passem. O autor e Deus, e a obra a ser conservada pelo homem, é cada aspecto da criação, com o objetivo de reconhecer o autor em toda a sua glória e majestade (Jr 10:12).

  • A aliança patriarcal

Ao pecar, o homem foge de seu propósito original e ao se deixar levar pela natureza corrompida, se volta contra Deus buscando a glória para si mesmo (Gn 6:5,6; Gn 11:4). Deus então, chama para si um povo que revelaria ao mundo toda o seu poder e majestade novamente à humanidade (Gn 12:1-3). Abrão é o primeiro elo dessa importante corrente, recebendo de Deus o chamado para andar em Sua presença e ser perfeito (Gn 17:1); anos mais tarde, essa aliança é renovada com Isaque (Gn 25:11) e Jacó (Gn 28:13,14). Por meio deles, apesar dos percalços e erros, os estatutos divinos e a mensagem de que um único Deus que é Santo, Poderoso e Fiel passa a ser conhecida por seus conterrâneos e contemporâneos.

  • Moisés e a excelência moral da lei

Após a escravidão no Egito, Deus chama Moisés para ser o libertador de seu povo (Ex 3 e 4). No trajeto para a terra prometida, Deus estabelece então as suas leis com o objetivo de identificar aquele povo como seu (Ex 24:4; 34:27; Dt 31:9), para que ao chegarem à Canãa não fossem contaminados pela cultura dos povos vizinhos. Historicamente, as nações que conseguiram resistir ao teste do tempo foram aquelas que possuíam os valores mais elevados. Podemos tomar como exemplo, os inimigos dos israelitas como filisteus que não existem mais, enquanto os judeus não só resistiram ao teste do tempo, mas também ao holocausto pelo nazismo entre 1933 e 1945 e os constantes ataques por parte de nações muçulmanas desde o estabelecimento de Israel como estado-nação, para citar exemplos de nossa era. A função da lei era justamente preservar o povo de Deus como o referencial mais elevados dentre os povos situados onde hoje, é o Oriente Médio (Lv 11:44; 19:2; 20:7).

  • O chamado à obediência pelos profetas

Após se estabelecerem na terra prometida, constantemente os israelitas desobedeciam aos princípios que o Senhor havia deixado como norte para o povo, especialmente no que dizia respeito ao culto e à adoração, surgem os profetas.
Homens, novamente, chamados por Deus para trazerem o povo de volta à obediência dos mandamentos. A propósito, se você é do tipo que pede para deus levantar profetas no meio da sua congregação, gostaria de avisar de antemão, que por tabela, está pedindo para que o culto seja corrompido e que a adoração seja comprometida – VIGIA IRMÃO!

Por diversas vezes, os profetas alertam que a causa do sofrimento e do cativeiro se devem justamente por haverem trocado os princípios mais elevados de um Deus Santo, pelos fundamentos pecaminosos de outras nações (Is 1:4-12; 5:8-30; Jr 5:3; Mq 3:4). Não à toa o termo adultério aparece com tanta frequência nos livros dos profetas, chegando até mesmo, a ordenar que Oseias se casasse com uma prostituta para ilustrar a traição do seu povo (Os 1:2).

  1. A importância da igreja na história humana

Não temos como negar que as investidas cada vez mais ferozes contra a igreja e seus princípios, são formas de deslegitimar a mensagem do evangelho e torná-lo menos relevante para a sociedade. Porém, do mesmo modo que Adão e Eva, os patriarcas, Moisés e os profetas no Antigo Testamento, a igreja tem influenciado os mais diversos contextos e ambientes nos quais ela tem chegado

  • Preservando e zelando pela criação

O fato de vivermos na era pós-moderna implica numa cultura de subjetividade, onde tudo é relativo e depende da interpretação de quem recebe a informação ao invés de se considerar o objetivo do registro. Como a igreja é portadora da verdade absoluta que é Cristo, então, para diminuir sua credibilidade diante da sociedade aqueles que a atacam usam de sua fidelidade para acusá-la de fundamentalismo e opressão.
Infelizmente, muitos cristãos estão caindo nesse tipo de conversa justamente, por estarem sendo influenciados pela cultura. Historicamente, a igreja contribuiu de forma extremamente relevante para a sociedade no decorrer de sua trajetória. Exercendo a função de sal, ela tem zelado e conservado a criação e tornado na medida do possível, a humanidade ainda tolerável para ela mesma, a igreja é o meio pelo qual o Espírito Santo ainda opera na criação. Na Roma Antiga, lutaram contra o descarte de crianças e o uso de órfãos como objetos sexuais, por exemplo. O principal motivo para Constantino tornar o cristianismo a religião oficial de Roma após anos de perseguição e inúmeras mortes, foi o fato de que os cristão se estabeleceram como comunidades pacíficas e servis, e por meio da pregação do evangelho, ambientes antes hostis eram transformados em uma congregação agora pacífica.
No Brasil, experimentamos essa influência positiva da ação da igreja, quando aldeias indígenas com histórico de assassinatos de crianças por meio de soterramento, seja por terem nascidos gêmeos ou por possuírem alguma deficiência, não são mais praticados após ouvirem a mensagem redentora do evangelho. Para cada homem que por quaisquer motivos, use do evangelho para cometer atrocidades, existem centenas que por meio do evangelho transformaram e contribuíram para que sociedades inteiras crescessem após se preservarem através dos princípios e características redentoras da mensagem de nosso Senhor Jesus.

  • Iluminando em meios às trevas

A ignorância é a mais densa das trevas. Ninguém no decorrer da história humana tem lutado tanto contra esse adversário quanto a igreja de Cristo. Para se ter uma ideia, doze das mais importantes e influentes universidades do mundo, tem raízes cristãs. Tendo sido fundadas com o intuito de trazer luz e conhecimento a respeito do mundo que nos cerca, para que o nome de Deus seja glorificado. Curiosamente, atualmente vende-se a imagem de que a religião cristã promove a ignorância e estimula a cegueira tanto espiritual quanto científica, se esquecendo de homens como Galileu Galilei (que é erroneamente dito que foi preso por sistematizar o heliocentrismo, quando na verdade o foi por ter dado alguns detalhes da vida pessoal do Papa), Isaac Newton, Johannes Kepler, Nicolau Copérnico, Gregor Mendel, Plank, Shrödinger… Todos esses nomes contribuíram de forma praticamente imensurável para a ciência, de forma a nos ajudar a entender o todo mundo que nos rodeia, nos trazendo luz para dissipar as trevas da ignorância. Durante a Reforma Protestante, tanto Lutero quanto Calvino investiram na construção de escolas e centros acadêmicos de forma bem incisiva.

“Quando a escola progride, tudo progride.”
Martinho Lutero

Calvino tinha a seguinte filosofia a respeito da educação “formar o cidadão útil para a sociedade com base nos ensinos das Escrituras Sagradas, no domínio das línguas clássicas e nas humanidades (artes e ciências)”. Ignorar a história e contribuição da igreja, é o caminho mais fácil para influenciar a opinião dos incautos contra a igreja.

3.3. Conservação e iluminação em tempos pós-modernos

Desconstrução é uma das palavras mais utilizadas em nossos dias. Não é difícil encontrar disciplinas e movimentos que se dispõe justamente a remover qualquer traço da influência da moral judaico-cristã da sociedade. Em Cristo, vemos o contrário, Ele não nos chama para desconstruirmos o pecado, mas sim para construirmos nosso abrigo sobre a Rocha, para que possamos resistir às tempestades e intempéries da vida (Mt 7: 24-29).
Esse processo de remoção de conceitos que são considerados antigos e retrógrados, tem causado muita confusão e produzido uma sociedade doente e obcecada com um bem-estar no curto-prazo, Zygmunt Bauman, chama de “mundo líquido”, no qual o ambiente define a cultura, assim como o recipiente dá a forma para o líquido que comporta. Esse comportamento se intensifica ainda mais quando vemos a crise identitária de nossos dias.
Segundo o dicionário, identidade é “o conjunto de caracteres que identificam uma pessoa como nome, data de nascimento, sexo, filiação, impressão digital, religião, valores, classe social, nacionalidade, etnia etc.”, ou seja, somos um conjunto de diversos fatores. O que temos visto, é um isolamento de cada um desses fatores. As pessoas estão isolando em algum aspecto desses para se auto afirmarem, o problema com isso é que, esse reducionismo provoca o isolamento e as chamadas bolhas sociais.A promoção desse tipo de isolamento identitário se dá em nome da democracia, com a justificativa de fortalecimento da representatividade. Todas essas tentativas humanas, estão fadadas ao fracasso, pois a única instituição verdadeiramente democrática e plural, é a igreja, pois em Cristo, esses traços não são levados em consideração para definir quem será salvo ou não (Rm 3:29; 1Co 12:13; Gl 3:14; Cl 3:11). A verdadeira representatividade ocorre quando Jesus Cristo se apresenta diante do Pai como intercessor daqueles por quem morreu, qualquer coisa além disso, não passa de mera tentativa de deslegitimar a sua obra e poder redentor.

É necessário que ajamos de forma ativa, mostrando ao mundo que é somente no evangelho, temos a cura para os males da humanidade. O pecado não é vencido com argumentos, movimentos identitários ou ideologias humanas, a única solução para o pecado, é o sangue de Cristo (Hb 9:14; Ef 2:13; 1 Pe 1:19). Somos o referencial de uma geração perdida em si mesma e nos próprios desejos, e uma vez que estamos edificados na mais alta das rochas, não podemos nos esconder. A luz da Palavra de Deus que dissipa as trevas, deve ser posta na posição mais alta para que chegue ao máximo possível de pessoas.

Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.
Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá pela fé.
Romanos 1:16,17

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A relação entre a Lei e a Graça

No rol das coisas que causam uma certa confusão na cabeça de muitos cristãos, está a relação entre a Lei e a Graça. Basicamente, encontramos dois grupos opostos: Os que buscam praticar a lei com total dedicação e aqueles que a ignoram totalmente acreditando que a Graça elimina qualquer traço de importância ou ensino que podemos ter com a primeira. Então, qual das duas é a correta?
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ÍDOLOS MODERNOS

Esse é o primeiro texto de uma série que tem como objetivo trabalhar a idéia de como ídolos são criados em nossos corações com relativa freqüência para nos afastar de Deus. Calvino disse: “O coração humano é uma fábrica de ídolos.” Ele estava certo. Algo que precisamos entender para que então possamos combater isso, é que: o nosso coração (carne) naturalmente rejeita a Deus e abraça o pecado. Continuar lendo “ÍDOLOS MODERNOS”

Cosmovisão Cristã

Como alguns leitores sabem, o blog conta com a colaboração de três escritores e temos alguns planos e projetos de textos a serem publicados futuramente, que abrangem uma série de assuntos contemporâneos, com o mesmo intuito de sempre: apresentar um ponto de vista bíblico que seja, relevante e coerente. E para podermos abranger tais assuntos com liberdade, é necessário sabermos a fonte de tal ponto de vista e é isso que será abordado nesse texto. Continuar lendo “Cosmovisão Cristã”

As maravilhas da Ressurreição

No texto anterior falamos sobre o significado da páscoa e também sobre o sofrimento vicário de Cristo. Hoje, é o domingo de Páscoa. Mas, desde que Cristo ressuscitou, os domingos nunca mais foram os mesmos. Vamos discorrer sobre alguns acontecimentos e porque, a sua volta dos mortos em glória representa tanto para a fé cristã e consolida o evangelho como a verdade absoluta em meio ao caos do pecado.

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Páscoa: a festa e a crucificação

Como diz o Pr. Renato Vargens, no domingo, várias igrejas e fiéis serão assaltadas, mas não no sentido criminal da coisa. O que será roubado é o significado da Páscoa. A festa que tinha como objetivo celebrar a libertação do povo judeu do Egito e a também libertação da humanidade da escravidão pelo pecado mediante a morte de Cristo, tem se tornado cada vez mais uma data comercial, onde os fabricantes de chocolate aproveitam para maximizar as vendas. Nesse texto, vamos falar um pouco sobre o que é a páscoa, seu surgimento e sua consagração na crucificação de Jesus.

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O Sermão do Monte: Parte 5 – Conclusão

Ainda falando sobre a prática da justiça, Jesus usa alguns exemplos bem particulares aos judeus para que eles pudessem absorver totalmente a mensagem. É bem provável que ao se deparar com alguma dessas situações no cotidiano, os ouvintes e em especial os discípulos, se lembrassem de imediato dos ensinamentos e da profundidade da situação. Continuar lendo “O Sermão do Monte: Parte 5 – Conclusão”

Os dons do Espírito Santo: Parte 1

Talvez um dos temas que mais cause debates, e até mesmo, divisões no meio evangélico, seja a questão dos dons espirituais. Alguns tratam como uma questão meramente secundária. Outros defendem fortemente suas posições, decretando uma verdadeira “caça as bruxas” contra aqueles que não concordam com seus pontos de vista. Existe ainda o problema de que muita bagunça tem sido feita em nome do Espírito Santo. Mas afinal, pode algo que gera tanta discórdia ser realmente importante para a igreja? Sim. E o apóstolo Paulo vai confirmar isso em 1Coríntios 12, texto que propomos expor aqui.

Antes de iniciar, quero deixar a menção de que neste texto, sou profundamente grato ao Rev. Leandro Lima, que em seu livro, “Razão da Esperança” (Editora Cultura Cristã), aborda de forma muito bíblica este assunto e influenciou em grande parte as propostas e exposições que faço. Nesta primeira parte, estudaremos a definição bíblica para o propósito e uso dos dons espirituais.

Neste capítulo em questão (1Co. 12), Paulo demonstra seu interesse em que os crentes de Corinto tenham conhecimento verdadeiro sobre os dons (v. 1), e este trecho trata-se de uma advertência séria contra a ignorância. Ignorância literalmente significa falta de entendimento, e, no que diz respeito aos dons, isso pode complicar seriamente o ministério e a vida cristã, como já estava acontecendo em Corinto, representado pela quantidade de divisões e discórdias relatadas. O que o apóstolo quer que tenhamos em mente é o fato de que ao dispormos da Palavra de Deus como meio para conhecer mais sobre este assunto temos o dever como cristãos de estudá-lo.

Wayne Grudem, em sua obra “Teologia Sistemática”, define dons espirituais da seguinte maneira:

Um dom espiritual é qualquer habilidade que é concedida pelo Espírito Santo e usada em qualquer ministério da igreja.

Posto isso, devemos compreender que o propósito para os dons, à luz do Novo Testamento, é que eles são dados para a edificação da igreja, a fim de que ela desenvolva seu ministério até que Cristo retorne (1Co. 1.7). Ou seja, os dons são dados para a igreja, no período entre a ascensão de Cristo e o seu retorno, para ajudá-la na tarefa proclamar a mensagem do evangelho e edificar os membros do Corpo.

            Assim, podemos entender que o derramamento do Espírito Santo com “poder” no Pentecoste (At. 1.8) era para equipar a igreja para pregar o evangelho. Ainda seguindo esta proposição, Paulo lembra aos crentes que eles devem procurar desenvolver aqueles que trazem edificação para a igreja (1Co. 14.12).

            Vale ressaltar que os dons, entretanto, não somente preparam a igreja para a volta de Cristo, mas, como o próprio Espírito também, são um selo, uma garantia, de que este é o começo de uma obra dentro de nós, que será plenamente realizada no futuro.

            Seguindo o capítulo, chegamos ao verso 4: “Há diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo”, onde compreendemos a unidade e a diversidade da igreja: ela é uma comunidade interligada porque o Espírito Santo habita em todos os crentes, e sua ação se demonstra multiforme porque o mesmo Espírito distribui diferentes dons aos crentes. Todos os crentes são batizados no Espírito, e isso faz deles um corpo (v.13), ou seja, uma igreja única e unida.

O dom espiritual não é algo que conquistamos, mas algo que é dado a nós tendo em vista um objetivo: “A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum” (v. 7). Não é uma questão de escolha pessoal, pois o Espírito distribui a cada um, de acordo com seu desejo – “Todas essas coisas, porém, são realizadas pelo mesmo e único Espírito, e ele as distribui individualmente, a cada um, conforme quer.” (v. 11). Se os dons são distribuídos com a finalidade de edificar a igreja, então o Espírito Santo concede soberanamente os dons mais úteis a um determinado lugar e por um determinado tempo.

            Na analogia que o apóstolo faz de um corpo composto por apenas um membro (v.17), sua intenção é demonstrar o quão monstruoso isso seria! Como não lembrar o personagem da Família Adams que era apenas uma “mãozinha”, que corria pela casa assombrada? É de causar espanto mesmo. Então, ele faz questão de listar alguns dons, distinguindo entre pessoa e pessoa (vv.8-10). Hoje, certos grupos afirmam que, a não ser que possuamos um dom particular, como na maioria dos casos, referindo-se ao dom de línguas, não fomos batizados com o Espírito Santo. E isto não é verdade.

            Precisamos deixar claro que há diferença entre dons (v.28), e alguns são mais preciosos para a edificação do Corpo. Deixando bem claro que a diferença está entre os dons, e não entre pessoas. Notemos nesta lista que o apóstolo apresenta, que o dom que é mais valorizado e buscado por tantas pessoas, aparece em último lugar na lista. Aliás, o problema apresentado pelos crentes de Corinto, era justamente este: estavam dando um valor excessivo ao dom de línguas. No capítulo 14, por exemplo, ele diz claramente que o dom de profecia é superior ao dom de línguas (14.5), demonstrando que os dons sempre funcionam para o bem dos outros, não somente para edificação própria. Qualquer que seja o dom, todos tem valor dentro do corpo de Cristo (vv. 21-25).

            Concluindo esta primeira parte, onde compreendemos o que são e qual o propósito para os dons, na segunda parte deste texto, demonstraremos como o amor deve ser o regulador para o uso dos dons e em um terceiro momento, propor a definição de alguns dons e seu uso para a igreja hoje.

Por: Prof. Vinícius Mello
Igreja Cristã Evangélica Ebenézer
São José dos Campos – SP

 

Sermão do monte: Parte 4 – A prática da justiça

O próximo trecho do sermão do monte que vamos estudar, é o que se refere à prática da justiça pelo cristão. Essa seção vai até o capítulo 7.12 e para facilitar a compreensão vamos dividi-la em três partes: o crente e a adoração (6.1-18), o crente e a riqueza (6.19-34), e a caminhada do crente (7.1-12). A primeira parte se tratará do relacionamento do cristão com Deus; a segunda, do cristão com o mundo; a terceira, com a espécie humana. Continuar lendo “Sermão do monte: Parte 4 – A prática da justiça”