As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Perseverança dos Santos

“Esta doutrina é meu sustento diário: eu me afundaria totalmente sob pavor de sofrimentos iminentes, não estivesse eu firmemente persuadido de que Deus me escolheu em Cristo desde antes da fundação do mundo, e que agora, tendo sido efetivamente chamado, ele não permitirá que ninguém me arrebate de sua mão poderosa.”
George Whitefield

Chegamos ao fim de nossa jornada nas doutrinas da graça. Mas ainda falta um ponto chave: a segurança dos salvos. A ausência das doutrinas da graça nos púlpitos explica a incerteza quanto à salvação dos crentes, pois divide a salvação entre ação de Deus e ação do homem, ou melhor, sela a salvação somente pela ação humana. Vivemos em um período do cristianismo onde a certeza da salvação é pregada baseando-se nos sentimentos: emocionalismo, “frio na espinha”, batismo no Espírito, experiências sobrenaturais, etc. A emoção e o entusiasmo baseiam a certeza da fé para este movimento.

Joel Beeke define a doutrina da perseverança dos santos da seguinte forma:

A doutrina da perseverança dos santos ensina que todos que participam da graça e do poder salvífico da união com Cristo, pela fé, continuam nessa união com seus frutos e benefícios.[1]

Vale a pena também destacar a definição de Wayne Grudem:

Pela perseverança dos santos, todos aqueles que verdadeiramente nasceram de novo serão guardados pelo poder de Deus e perseverarão como cristãos até o final da vida, e só aqueles que perseverarem até o fim realmente nasceram de novo[2]

A idéia primordial para este ponto, é que como a salvação depende totalmente de Deus, a garantia está firmada completamente Nele (Filipenses 1.6). Mas, reitero que, isto não significa que o eleito está imune ao pecado, de modo que ele não possa falhar. E por não entender desta forma, muitos cristãos vivem com grande incerteza de sua salvação, por isso, tem um grande empecilho para o crescimento espiritual.

Esta segurança não está baseada em nossa própria capacidade de persevevar. R.C. Sproul, então, modifica ligeiramente perseverança para preservação, e explica da seguinte forma:

A razão pela qual verdadeiros cristãos não caem da graça é que Deus, graciosamente, não os deixa cair. A perseverança é o que fazemos. A preservação é o que Deus faz. Nós perseveramos porque Deus preserva.[3]

A Confissão de Fé Batista de 1689 diz:

Ainda que muitas tormentas e dilúvios se levantem e se dêem contra eles, jamais poderão desarraigá-los da pedra fundamental em que estão firmados, pela fé. Não obstante, a visão perceptível da luz e do amor de Deus pode, para eles, cobrir-se de nuvens e ficar obscurecida, por algum tempo, por causa da incredulidade e das tentações de Satanás. Mesmo assim, Deus continua sendo o mesmo, e eles serão guardados pelo poder de Deus, com toda certeza, até a salvação final, quando entrarão no gozo da possessão que lhes foi comprada; pois eles estão gravados nas palmas das mãos de seu Senhor, e os seus nomes estão escritos no Livro da Vida, desde toda eternidade.[4]

O arminiano sustenta que a salvação está condicionada à cooperação voluntária do homem, porém as Escrituras afirmam justamente o contrário quando olhamos para as seguintes passagens:

As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar. – João 10.27-29

Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. – Romanos 8.33-39

Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados. – Hebreus 10.14

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível sem mácula imarcescível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo. – 1Pedro 1.3-5

Vemos então, à luz destas passagens que Deus é a base para a nossa confiança. A herança de nossa salvação é uma herança espiritual, e o próprio Jesus afirmou que coisas terrenas não podem corromper nossa herança eterna (Mateus 6.19-20).

Mas então, como lidar com a apostasia? Como entender aqueles que “caem na fé”? Olhemos para o texto de 1João 2.19:

Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos.

Neste texto, João está alertando acerca de falsos mestres que estiveram na igreja, estiveram no meio de cristãos, mas saíram e começaram a ensinar suas heresias. E assim, evidenciando falsas opiniões acerca de Cristo. E então, João chega à conclusão que estes apóstatas nunca foram crentes verdadeiros, e como diz Jay Adams, “enquanto faziam parte da igreja visível, não pertenciam à igreja invisível[5]. Este ainda ressalta um segundo ponto:

Os verdadeiros crentes permanecem na fé e na igreja. Eles perseveram até o fim. Certamente é possível um crente desanimar por um tempo, mas, como Pedro ou João Marcos – que tiveram lapsos temporários –, eles se arrependem e, por fim, voltam.[6]

Concluindo, o que pode dar ao crente a plena segurança? Faça para si mesmo, estas três perguntas que Grudem propõe:
1. Será que confio hoje na salvação de Cristo?
2. Há porventura no meu coração provas da obra regeneradora do Espírito Santo?
3. Será que percebo uma tendência constante de crescimento na minha vida cristã?

Espero que estes estudos básicos das Doutrinas da Graça realmente possam ajudar o caro leitor, e que, acima de tudo, o Espírito Santo aplique a cada dia em nossos corações estas preciosas pérolas.

 

[1] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[2] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática – Atual e Exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 1999.

[3] SPROUL, R.C. Eleitos de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

[4] Fé Para Hoje – Confissão de Fé Batista de 1689. São José dos Campos: Editora Fiel, 1991.

[5] PARSONS, Burk (Ed.). João Calvino – Amor à devoção, doutrina e glória de Deus. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[6] ibid.

 

Vinícius Mello

As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Graça Irresistível

“Em suma, nenhum coração humano é tão obstinado a ponto de ser impossível ao Espírito conquistar e convertê-lo.”
Steven J. Lawson

Também conhecido como “chamado eficaz”, podemos definir este ponto como a ação do Espírito Santo, que convence do pecado, chama, atrai e regenera os pecadores eleitos. Nenhum dos eleitos, daqueles pelos quais, Cristo entregou a vida em sacrifício, deixa de crer. Esta ação do Espírito leva o homem a arrepender-se de seus pecados e a crer, garantindo a conversão do eleito.

R.C. Sproul afirma:

“A graça de Deus é resistível no sentido em que podemos resistir a ela, e o fazemos. Ela é irresistível no sentido em que alcança seu propósito. E ela produz o efeito desejado por Deus. Assim, eu prefiro o termo eficaz.”[1]

É de se notar, que todos os cinco pontos definidos no acróstico TULIP estão entrelaçados, e neste ponto não seria diferente. A depravação radical do homem impede que este se volte para Deus, pois está morto. Portanto, carecemos de um meio eficaz, irresistível. Se o homem pecador pudesse resistir, a eleição por parte de Deus e o sacrifício de Cristo seriam anulados.

Joel Beeke mais uma vez traz uma definição bem clara disto:

“A graça ensina que a salvação de pecadores indignos, merecedores do inferno (depravação total) é uma obra realizada apenas pelo Deus trino. Cada uma das pessoas da Trindade participa e contribui nessa obra. Antes da fundação do mundo, o Pai separou aqueles que seriam salvos. Depois, ele os deu ao Filho para que fosse seu povo (eleição incondicional). Contudo, os dois grandes atos de eleição e de redenção não completaram a obra de salvação. Incluída no plano de Deus quanto à salvação de pecadores, está a obra renovadora do Espírito Santo, pela qual a redenção é aplicada aos eleitos. Esse é o aspecto da salvação que pode ser chamado de irresistível ou eficaz.”[2]

Também a Confissão de Fé Batista de 1689, afirma que:

“Isso Deus faz iluminando-lhes a mente de maneira espiritual e salvadora, para que compreendam as coisas de Deus; tirando-lhes o coração de pedra e dando-lhes um coração de carne; renovando-lhes a vontade e, pela sua onipotência, predispondo-os para o bem e trazendo-os irresistivelmente para Jesus Cristo. No entanto, eles vêm a Cristo espontânea e livremente, porque a graça de Deus lhes dispõe o coração para isso. […] A chamada eficaz é resultante da graça especial e gratuita, de Deus, e não de algo que de antemão seja visto no homem; e nem de poder algum ou ação da criatura cooperando com a graça especial de Deus.”[3]

Deus, através do Espírito Santo, chamou pessoas de todas as classes (1Coríntios 1.24), introduzindo-os numa relação pessoal e eterna com Cristo (1Coríntios 1.9). Portanto, quando alguém confessa a Cristo como salvador, não o deve fazer por um momento de emoção num apelo, mas, o declarar pela habilitação do Espírito Santo, confessando assim o senhorio de Cristo (1Coríntios 12.3; 1Tessalonicensses 1.4-5).

Entendendo isso, percebemos que somente o Senhor tem a capacidade de fazer a igreja crescer. Para que alguém se arrependa, é necessário que o Senhor lhe conceda o dom do arrependimento. A fé é a porta aberta por Deus para que o homem entre no Reino de Deus. A porta está fechada pelo pecado, e somente Deus tem a chave. Como o homem está morto no pecado, seu coração está trancado por dois ferrolhos: o pecado e Satanás. A chave para abrir esta porta é apresentada na Palavra de Deus. Nós devemos estar confiantes nela, pois Deus tem um povo que Ele salva quando ela é proclamada. Grandes missionários creram nisso, como George Whitefield, David Brainerd, William Carey e o príncipe dos pregadores, C.H. Spurgeon.

A idéia transmitida aqui é a regeneração, não recomeço, mas começar outra vez, esta é a idéia do prefixo “re”. O homem não está meramente se afogando, ele já submergiu até o mais profundo do oceano. Esta obra é feita por apenas uma das partes, Deus. Por isso dizemos que a regeneração é monergística. Não podemos ajudá-lo nessa tarefa.

Os eleitos não se gloriam nisso, não se ensoberbecem, mas, pelo contrário, o verdadeiro eleito ora e pede a Deus que Sua Palavra seja aplicada em seu coração, a fim de que seja criado um senso de necessidade. Você deve entender que sua situação é desesperadora, e que não há nenhum meio de sair da condenação do pecado a menos que Deus o livre soberanamente. Somente Ele tem a capacidade de responder sua oração e fazer você crer (Atos 16.31), fazendo você reconhecer que creu porque ele operou em sua alma tanto o querer como o realizar (Filipenses 2.13). A salvação está somente no Senhor (Jonas 2.9).

[1] SPROUL, R.C. Eleitos de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

[2] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[3] Fé para hoje – Confissão de Fé Batista de 1689. São José dos Campos: Editora Fiel, 1991.

 

Vinícius Mello

As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Expiação Limitada

“Aqui somos movidos a lembrar-nos de que ele morreu pela igreja. Não devemos perder de vista esta verdade. Ele morreu pela igreja; ele não morreu por ninguém mais.”
Martyn Lloyd-Jones

Estamos então no ápice das Doutrinas da Graça, pois, neste ponto vamos tratar do tão sublime sacrifício de Cristo. Nós, cristãos, devemos sempre nos alegrar neste assunto, pois através do sacrifício gracioso de nosso Senhor, encontramos a libertação da escravidão do pecado, nossa salvação. Mas, então se inicia a discussão: Por quem Cristo morreu?

Acho muito interessante alguns cristãos se auto-denominarem “meio calvinistas”, ou “calvinistas de quatro pontos”, pois aceitam todas as outras doutrinas da TULIP, porém, ao se depararem com a expiação limitada, recuam. Novamente, assim como na eleição, crêem que Deus seria cruel se enviasse seu filho para morrer apenas pelos eleitos.

Podemos definir “expiação limitada”, ou como outros a chamam, “expiação definida”, como a doutrina que ensina que Cristo morreu exclusivamente por aqueles que foram escolhidos pelo Pai, e, sendo assim, assegurou a salvação de todos pelos quais ele morreu[1].

Existem quatro pontos de vista sobre a extensão da expiação[2]:

  1. Redenção ilimitada e universal– Este conceito presume ouniversalismocompleto, porque crê que a intenção de Deus era que Cristo morresse por todos, a fim de que todos fossem salvos. Na história do cristianismo, alguns teólogos mantiveram esta opinião, como Clemente de Alexandria (160 – 215 d.C.) e Orígenes (185 -251 d.C.), sendo que este último afirmou que o próprio Diabo seria salvo. Porém este universalismo se opõe ao que diz a Bíblia. O próprio Jesus afirmou claramente a existência do inferno[3]. O amor de Deus não exclui o castigo eterno, pois o amor de Deus é justo.
  2. Redenção limitada universal– A expiação é universal em seu desígnio e limitada em sua realização. A idéia aqui é que a Trindade propôs a salvação de todos por meio da morte expiatória de Cristo, porém nem todos serão salvos. Em outras palavras, a expiação de Cristo tornou os homens “salváveis”. Este ponto de vista foi defendido por Jacob Arminius (1560-1609). Para ele a salvação dependia da aceitação do homem, dividindo assim a ação da salvação como um oferecimento de Deus, porém que depende que o homem estenda sua mão numa ação de fé e a receba.
  3. Universalismo hipotético– Esta posição, primeiramente defendida por Moïse Amyraut (1596 – 1664), ensina que Cristo morreu hipoteticamente por todos, sem exceção, mas a graça de Deus e a eleição garantem que somente os eleitos crerão. Esta posição demonstra um conflito, pois afirma que Deus dispôs um decreto geral, no qual deseja a salvação de todos, e um decreto especial, segundo o qual Deus quer a salvação dos eleitos.
  4. Expiação limitada ou definida– Este é o ponto calvinista o qual defendemos. Joel Beeke traz uma definição mais clara acerca deste ponto:

“O Pai enviou seu filho à cruz para pagar a penalidade dos pecados dos eleitos, de modo que Cristo morreu, de modo pessoal, visando à salvação, em favor de todo o povo eleito de Deus. A sua morte foi um ato voluntário (Sl. 40.7-8), resgatador (Mt. 20.28), obediente (Rm. 5.19), vicário (Rm. 6.23), expiatório (Hb. 10.10, 14), propiciatório (Rm. 3.25), reconciliador (Rm. 5.10), redentor (1Pe. 1.18-19) e vitorioso (Rm. 8.31-39) que garantiu a salvação de todos os que o Pai lhe dera.”

Jesus sempre afirmou que entregaria sua vida pelas ovelhas, sendo estas, as pessoas que o Pai lhe deu (João 10.14-15). Deus escolheu aqueles que haveria de salvar numa ação amorosa e graciosa, e os deu a Jesus para que este assegurasse a salvação deles (João 10.11). Não foi para a salvação do mundo inteiro que Cristo morreu. Ele morreu para que pessoas de todas as classes de gente fossem salvos (João 12.32). Como nas palavras de Steven Lawson, “Ele não morreu por todos os homens, mas por indivíduos pertencentes a toda e qualquer classificação de homens”[4].

Como tenho afirmado nestes últimos estudos, este não é um motivo para ver Deus como um ser cruel, porém amoroso, pois Ele cumpre o que se propõe a realizar. Não nos deixa numa condição salvável, mas Ele realmente nos salva. Nenhuma gota do sangue eficaz de Cristo foi derramado em vão. Os planos de Deus não foram frustrados com a perda de homens de rejeitaram a salvação. A salvação é triunfal, pois tem um objetivo claro: dar vida aos que Deus escolheu.

Apontando para esta idéia, temos Atos 20.28, onde Paulo claramente declara que Deus, em Cristo, comprou a igreja com seu próprio sangue. Ele não diz que tornou a igreja redimível, mas que a redimiu. Também no texto de Efésios 1.4, 7-12 Paulo volta a mostrar que a obra de Cristo foi muito específica em sua intenção.

Não nego que o sangue de Cristo seria eficiente para salvar todo o mundo. Porém esta não foi sua intenção. A eficácia do sangue de Cristo foi planejada somente para os eleitos. Para encerrar, faço uso das palavras de Steven Lawson:

“Se Cristo tivesse morrido por todos e tivesse cancelado a escrita da dívida total e completamente, todos seriam perdoados. Mas não é o que acontece. Somente aqueles por quem Cristo morreu são perdoados; ninguém mais.”

Qual é sua reação diante disso? Oro para que você leia estas palavras e sinta um ardente fervor, não de raiva contra mim, mas para que Deus perdoe seus pecados e agradeça esta maravilhosa graça que Ele nos concedeu. Nos próximos estudos vamos trabalhar um pouco mais sobre as marcas dos eleitos. Lembrando, não sabemos quantos são e nem que são, mas nosso dever é proclamar Sua graça salvadora.

[1] LAWSON. Steven J. O Foco Evangélico de Charles Spurgeon. São José dos Campos: Editora Fiel: 2012.

[2] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[3] Referências acerca do inferno nas palavras de Jesus: Mateus 12.32; 13.40-42, 49-50; 25.41, 46; Marcos 9.44-48; Lucas 12.4-5.

[4] LAWSON, Steven J. Fundamentos da Graça. São José dos Campos: Editora Fiel, 2012.

 

Vinícius Mello

As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Eleição Incondicional

“Não importa o que as pessoas falem sobre esse assunto, a eleição ocorre de fato e não há como negá-la. Nenhum cristão pode negar o fato de que nem todos os cristãos professos serão salvos e que os que o são, devem sua salvação inteiramente à graça de Deus e ao chamado do Espírito Santo, e tampouco podem explicar o porquê de alguns serem chamados à salvação, enquanto outros, não.”

J.C. Ryle

Este é o segundo ponto das doutrinas da Graça. Aqui encontramos a esperança para o homem totalmente caído e morto em seu pecado: a eleição incondicional. Vou dedicar esta primeira parte para responder as seguintes questões: “O que é a doutrina da eleição incondicional?” e, “Quais são as razões bíblicas para crermos na doutrina da eleição?”.

A doutrina da eleição tem sido o ponto mais controverso na história do cristianismo devido à sua má compreensão e má aplicação. Alguns crêem que esta doutrina é uma artimanha de Satanás para impedir a evangelização na igreja. Outros calvinistas extremados crêem que sem esta doutrina, Deus deixa de ser Deus, pois estaria privado de sua devida glória na salvação do homem caído. Alguns crêem que esta é a causa de muitos estarem no inferno, porém, nós que aceitamos o ensinamento bíblico da depravação total, sabemos que a eleição é o motivo pelo qual somos salvos.

Mais uma vez afirmo: esta não foi uma doutrina descoberta por Calvino e, nem foi o único sermão pregado por Spurgeon. E, num sentido geral, esta doutrina se aplica a tudo o que Deus faz, pois tudo foi predeterminado por Ele.

Baseio-me então na definição de Joel R. Beeke para eleição:

“[…] Deus elege aqueles que são totalmente depravados e incapazes de exercer sua vontade caída para crer em Cristo. Deus os elege com base em seu beneplácito soberano, conquistando a vontade deles para torná-los dispostos a exercer fé em Cristo para a salvação.”[1]

Ou seja, Deus soberanamente escolheu aqueles que haveriam de ser salvos antes da fundação do mundo, em um tempo conhecido como “eternidade passada”. Aí então começam os problemas, pois na maioria das discussões sobre este tema há uma grande preocupação em proteger a dignidade e a liberdade do homem, travando uma aparente batalha entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana, ou, livre arbítrio.

Porém, biblicamente não podemos negar de forma alguma a existência da eleição, ou predestinação. Veja alguns textos:

“Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los?” – Lucas 18.7

“Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vósoutros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda.”
João 15.16

“Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna.”
Atos 13.48

“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.”
Romanos 8.29

Todos estes textos referem-se a um grupo de pessoas que foram escolhidos soberanamente por Deus.[2] E talvez agora você esteja dizendo: “Mas este não é Deus, pois ele estaria sendo injusto!”. Quero te dizer que esta afirmação já foi feita, e Deus mesmo respondeu:

“Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.”
Romanos 9.14-16

Na eternidade passada Deus soberanamente amou e escolheu um povo peculiar, escolheu especialmente cada pessoa, não somente o grupo como um todo,  elegendo-os para a Sua salvação. E não foi porque Ele previu que as pessoas haveriam de crer, pois a própria fé é fruto da Sua vontade. Ele escolheu porque é gracioso, amoroso e soberano, pois, se dependesse de nossa vontade, não o escolheríamos. Lembra-se? Estamos mortos em nossos pecados.

A maior dificuldade dos homens, em todos os tempos, é deixar Deus ser Deus. A doutrina da eleição aponta para o majestoso fato de que dentre tantos atributos, Deus é soberano, e ordena TODAS as coisas. Sem este atributo Ele não seria Deus.

Como então unir a eleição soberana e os homens mortos em seus pecados? Somente pela graça. A salvação não vem por méritos, mas pela graça soberana de Deus, que se expressou na cruz de nosso Senhor Jesus. Ele nos elegeu para sermos santos, pois de fato não éramos (Efésios 1.4; 2Tessalonicenses 2.13). Ele nos elegeu para nos dar vida.

Isto é insondável para nossas mentes. Paulo exalta a Deus afirmando que isto é profundo, que esta sabedoria é insondável. Por isso a Ele toda a glória!

“Ninguém jamais veio a Cristo porque sabia que era um dos eleitos; antes, veio porque precisava de Cristo.”
Ernest Kevan

Como esta doutrina contribui para a formação do caráter cristão e ainda, como ela pode estimular a evangelização?

Fico preocupado quando pregadores afirmam crer nesta doutrina, porém, dizem que não é algo que possa ser tratado no púlpito, ou ainda, algo que os membros da igreja não precisam saber. Mas, se você parou para ler os textos que indiquei no post anterior, focando agora nos textos paulinos, você pode perceber que ele não levantava qualquer discussão acerca da eleição, pelo contrário, aceitava e expunha como parte integral do evangelho que ele propôs no coração de pregar integralmente (Atos 20.20,27).

O ensino corretamente bíblico da eleição, segundo J.I. Packer, visa tornar os crentes humildes, confiantes, alegres e ativos, mas, também, se de maneira errada for exposto, pode fazer com que crentes se tornem orgulhosos, presunçosos, complacentes e preguiçosos. Creio então que se abster de tornar esta doutrina pública também pode gerar cristãos omissos ou abertos à heresia arminiana.

Como então podemos saber se somos eleitos de Deus? Tendo Cristo como espelho. Tendo-o como única esperança de salvação. Vendo a beleza de Cristo, e achando-o totalmente desejável. Amando-O, não por causa dos seus benefícios, mas amando por ele ser quem Ele é. Os eleitos são conhecidos por seus frutos (Mateus 7.10), e o principal fruto é conhecer a Jesus Cristo, e isto é a vida eterna (João 17.3). O maior sinal de que somos eleitos é nossa total dependência de Cristo.

A eleição, ao contrário de que muitos pensam, então é um estimulo de coragem ao trabalho missionário. A confiança de que Deus reunirá seus eleitos, levando-os ao conhecimento do evangelho deu coragem a grandes missionários calvinistas, dentre eles: David Brainerd, William Carey, Adoniram Judson, John Paton e muitos outros que dedicaram sua vida, muitas vezes entregando-a, em favor do ajuntamento dos eleitos. Como afirmou John Blanchard, “na Bíblia a eleição e a evangelização andam de mãos dadas, e não de punhos fechados”.

Packer então alista três motivos pelos quais, nós que afirmamos ser “calvinistas”, devemos evangelizar[1]:

Primeiro, os textos que temos estudado dizem-nos que Deus escolheu não só a quem Ele salvará, mas também o método pelo qual haverá de salvá-los: a pregação do verdadeiro evangelho de Cristo.

Segundo, a base sobre a qual a Bíblia nos ensina a oferecer Cristo ao mundo nada tem a ver com a eleição. Assim como Spurgeon acreditava na livre oferta do evangelho, nós como cristãos, devemos convidar todos os que se encontram fora do reino do céu para que entrem nele. O evangelho é uma porta que está sempre aberta, jamais fechada. Quer os incrédulos acreditem ou não, devem ser insistentemente convidados a entrar no Reino.

Terceiro, longe de solapar o evangelismo, a eleição o reforça, pois provê a única esperança do evangelismo ser bem sucedido em seu alvo. O homem por si só não veria e viria a Cristo se não houvesse um chamado sobrenatural (Romanos 8.30; 1Coríntios 2.14). Se não houvesse eleição, não haveria chamado, não haveria conversões, e toda atividade evangelística fracassaria.

Como bem ressalta Joel Beeke[2], não sabemos quantas pessoas Deus escolheu em nossas cidades. Cremos que foram muitas, mas, sendo muitas ou poucas, elas são do Senhor; Ele nos deu o meio de achá-las. Portanto, temos de falar, orar e visitar pessoas, abundando sempre na obra do Senhor e sempre prontos a dar a todos os que nos pedirem a razão da esperança que há em nós (1Pedro 3.15).

[1] PACKER, J.I. Vocábulos de Deus. São José dos Campos: Editora Fiel, 2002.

[2] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[1] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[2] Outros textos que também afirmam isto: João 6.39, 17.8-9; Romanos 8.33; 9.11-13; 1Coríntios 1.26-29; Gálatas 1.15; Efésios 1.4; Colossenses 3.12; 1Tessalonicenses 5.9; 2Tessalonicensses 2.13-14; 2Timóteo 1.9; Tito 1.1; 1Pedro 1.1-2; 2João 1.

 

Vinícius Mello

Qual a sua fraqueza?

Já parou para pensar qual a sua maior limitação? Sejam elas, físicas ou emocionais, todos nós possuímos fraquezas ou fatores limitadores. O verso mais usado para tratar sobre as fraquezas é um trecho da segunda carta aos Coríntios, escrita pelo apóstolo Paulo:

Mas ele me disse: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim.
2 Coríntios 12:9

O filme Um Lugar Silencioso trata de fraquezas que podem ser um trunfo. E é sobre disso que falaremos nesse texto.

Sobre o filme – CONTÉM SPOILERS

Em 2020, o planeta foi invadido por criaturas extraterrestres predatórias sem visão, com audição extremamente sensível (que aparentemente usam a ecolocalização para caçar seres humanos e outras presas). A família Abbott busca suprimentos na cidade, permanecendo o mais silenciosos quanto for possível e comunicando-se exclusivamente por meio da língua de sinais. O mais novo dos três filhos, Beau, quer um foguete de brinquedo, mas seu pai, Lee, remove as baterias, avisando-o que os sons que o brinquedo faz são muito altos. No entanto, Regan, a irmã mais velha surda de Beau, devolve o brinquedo ao irmão, que compõe o erro pegando as baterias em seu caminho para fora da loja. Enquanto a família retorna para casa, Beau liga o foguete de brinquedo, cujo som atrai a atenção de uma das criaturas, que o massacra.
Um ano depois, as criaturas tomam conhecimento da localização da família Abbott. Lee repara o implante coclear de Regan, aumentando o sinal com peças sobressalentes de rádio retiradas da cidade abandonada, mas o dispositivo não consegue restaurar sua audição. Apesar das repetidas demonstrações de apoio de Lee e de sua insistência de que a morte de Beau não foi culpa dela, as tensões se desenvolvem entre Lee e sua filha.
Quando após alguns acontecimentos, Regan é encurralada junto com sua mãe e seus irmão no porão da casa por uma das criaturas, ela descobre que o último aparelho de surdez que seu pai havia feito, é capaz de produzir uma onda em alta frequência que compromete o sentido de ecolocalização dos monstros, tornando-os vulneráveis.

Fraquezas

Uma criança surda em um ambiente no qual a sobrevivência depende do som, é algo de fato preocupante, afinal de contas, Regan Abbott não tem condições de perceber a intensidade de seus movimentos e ações. Some-se a isso, o remorso que sente pela morte de seu irmão caçula e a dificuldade de acreditar no amor do pai, e temos a receita do caos.
Não é muito difícil nos colocar no lugar de Regan, afinal, quantos erros cometemos que influenciam diretamente na vida de outros, e quando sabemos das consequências desses erros ou fraquezas, nos culpamos e temos dificuldade em nos perdoar e nos relacionar com os atingidos. Tentamos sobreviver em um mundo que despreza fraquezas. No WhatsApp temos os status e as mensagens motivacionais, no facebook temos as autoafirmações com seus casos de sucesso individual e superioridade aos demais; no Instagram, vemos pessoas felizes, em lugares paradisíacos, sorrindo e mostrando um sucesso que parece distante de pessoas comuns. Infelizmente, temos tido o hábito de trazer essa mesma ideia para nossa vida espiritual.

Ansiedade, depressão, Síndrome do Pânico, Transtornos Obsessivos-Compulsivos, Fobias e afins, apesar do que se pensa e se fala, estão presentes em cristãos. E sendo agravadas, por uma abordagem simplista e que muitas vezes ignora a realidade dos fatos. Como dizer que temos medo de morrer quando estão todos celebrando pela vida? Como dizer às pessoas mais próximas que tem pensamentos suicidas, quando estão todos fazendo milhares de planos para o futuro? Somos tentados inclusive a acreditar que tais fraquezas e deficiências, de alguma forma comprometem o nosso relacionamento com Deus, e até mesmo a nossa salvação.

O poder transcendente

A fonte de esperança do cristão em meio a todo esse caos instaurado em nossos corações se encontra justamente no poder de Cristo em superar todo e qualquer obstáculo.  Dentre todos os milagres de Jesus registrados no evangelho, dois deles chamam bastante a minha atenção, por conta de notarmos o poder do evangelho de forma visível. É o caso do leproso curado após a ministração do Sermão do Monte e o da mulher do fluxo de sangue, vamos analisar ambos na ordem em que Mateus nos apresenta

“E, descendo ele do monte, seguiu-o uma grande multidão.
E, eis que veio um leproso, e o adorou, dizendo: Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo.
E Jesus, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; sê limpo. E logo ficou purificado da lepra.”
Mateus 8:1-3

E eis que uma mulher que havia já doze anos padecia de um fluxo de sangue, chegando por detrás dele, tocou a orla de sua roupa;
Porque dizia consigo: Se eu tão-somente tocar a sua roupa, ficarei sã.
E Jesus, voltando-se, e vendo-a, disse: Tem ânimo, filha, a tua fé te salvou. E imediatamente a mulher ficou sã.
Mateus 9:20-22

Em ambos os casos as pessoas envolvidas eram consideradas impuras, e caso fossem tocadas ou tocassem nelas, seria considerado impuro (Lv 15:5; 22:6). Ao tocar e ser tocado, ao invés de ser contaminado pela impureza, Cristo limpou essas pessoas. Nossos pecados não são nada diante do poder redentor de nosso Senhor Jesus. Costumamos temer nos aproximar após um erro ou pecado, por acreditar que nossa condição é horrenda ao ponto de manchar a imagem/nome de Cristo, quando na verdade, ao chegarmos junto dEle, nós é que somos purificados e nossas manchas são apagadas, e pelo seu sangue somos feitos mais alvos que a neve (Ap 7:14; 22:14). Para entendermos de fato, o capítulo 12 de 2 Coríntios, precisamos acompanhar desde o capítulo 11, no qual o apóstolo defende seu ministério e vocação, contando um pouco sobre o seu sofrimento para a pregação do evangelho, chegando verso 30, que diz:

Se devo me orgulhar, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza.
2 Coríntios 11:30

Em nossas fraquezas é que somos de fato, contemplados com o poder de Deus. Se Regan não fosse surda, seu pai não teria feito o aparelho que mesmo não a fazendo escutar, proporcionou que sua família sobrevivesse aos eventos do filme. Nunca saberemos por quê Cristo é o príncipe da Paz, se não passarmos por conflitos. Não contemplaríamos a sua graça superabundante, se não fôssemos escravos do pecado que abunda em nós.
Nossa função não é ser perfeitos, mas glorificar a Deus. E até mesmo nossas fraquezas e deficiências servem a esse propósito quando estamos em Cristo.

 

Celso Amaral

As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Depravação total do homem

“Não teremos uma idéia adequada do domínio do pecado, a menos que nos convençamos dele como algo que se estende a cada parte da alma, e reconheçamos que tanto a mente quanto o coração humano se têm tornado completamente corrompidos.”
João Calvino Continuar lendo “As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Depravação total do homem”

Hatfields, McCoys, você, eu, e a Cruz

A Netflix tem nos disponibilizado séries muito boas de acompanhar, e sinceramente, tantas outras que são dignas de maratonas. Recentemente estive procurando no catálogo, filmes e séries que envolvessem histórias de faroeste, ou como meu pai costumava dizer, “bang-bang”, e encontrei uma que me chamou a atenção por sua narrativa. A minissérie leva o nome que se tornou cultural na América para descrever conflitos: Hatfields & McCoys. Acredito que você deve se lembrar de alguns episódios do Pica-Pau em que dois homens brigam o tempo todo! Pois é, uma referência a esse conflito.

Esta minissérie norte-americana possui apenas três capítulos (de pouco mais de uma hora cada um), foi baseada na rivalidade entre a família Hatfield e a McCoy, sendo produzida pelo History. Este conflito, ocorrido no final do século XIX, envolveu duas famílias na divisa dos estados norte-americanos de Virgínia Ocidental e Kentucky, iniciou com as desavenças entre Anse Hatfield e Randall McCoy, que eram amigos e lutaram juntos na Guerra de Secessão do seu país. Mais tarde, quando cada um retornou aos seus lares e famílias, tem início uma longa, violenta e brutal rivalidade de 28 anos, que custou a vida de membros das duas famílias[1].

Ao assistir esta minissérie, os ideais de honra, justiça e vingança sendo levadas até as últimas consequências são vistos como motivadores para suas atitudes em prol de manterem seus nomes familiares honrados.

Pode-se perceber ao longo da narrativa que houve tentativas de pacificar a situação, tendo inclusive, ameaças de intervenção do governo. Mas foram tentativas fracassadas. A história se encerrou apenas em junho de 2003, quando representantes das famílias se reúnem para assinar um acordo onde colocam fim neste conflito centenário.

Não é de se duvidar que este mundo seja um campo minado de conflitos. Esta coisa acontece em todos os lugares, com todos os tipos de pessoas, o tempo todo. Guerras de classes, de raças, grupos sociais, esquerda e direita, calvinistas e arminianos. Conflitos leves e conflitos pesados. As redes sociais que o digam! Parece que desde o jardim do Éden o homem está fadado em viver em conflito. E não é de se esperar menos: este é o efeito do pecado.

Missões de paz têm sido levantadas constantemente para resolver estes tipos de conflitos. Mas quer saber de uma coisa? A maioria falha. Algumas, falham gravemente! O apóstolo Paulo, no entanto, escrevendo aos Efésios, no capítulo 2, trata de uma missão, A MISSÃO de paz que resolve o conflito do homem.

A cruz de Cristo não apenas se limita trazer paz entre o homem caído e o Deus santo e justo. A obra de Cristo traz paz para o conflito entre o homem e os homens. Entre você e eu. Se a ligação entre o homem e Deus estava rompida pela pecado, tanto mais estava rompido o relacionamento entre os homens que formariam a Igreja. Isto esta bem explícito na igreja de Eféso, no caso de judeus e gentios.

Os cidadãos naturais de Éfeso, cidadãos gregos, zombavam dos que não tinham sua mesma nacionalidade e cultura, chamando-os de pagãos, e, os judeus por sua vez, chamavam os gentios de incircuncisão, por não possuírem a marca da aliança de Deus com Seu povo. Havia dois motivos que alegravam um pai judeu zeloso, em particular: seu filho não nascer mulher nem gentio.

O evangelho da cruz então anuncia o único pacto de paz, o verdadeiro e eficaz meio de o homem estar em paz com aquele com quem formaria a Igreja de Cristo. Essa sim é a maior missão de paz da história: Deus reconciliando judeus e gentios num único corpo e, assim, reconciliou o mundo consigo mesmo por meio de Jesus. Cristo destruiu toda inimizade que existia.

Esta nova posição da comunidade cristã obtida pela reconciliação em Cristo é o fundamento para uma vida em unidade. Aqueles a quem Deus reconciliou consigo mesmo, agora são capacitados para serem cidadãos de um novo Reino.

Os gentios eram espiritualmente falidos: “… estáveis naquele tempo sem Cristo, separados da comunidade de Israel, estranhos às alianças da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo.” (Ef. 2.12). Eles não tinham a esperança pactual do Messias. Eles não conheciam o Cristo que salva. Eles estavam separados da esperança, sem perspectiva de salvação.

Sua crença divina apresentava apenas deuses caprichosos, zombeteiros, e muitas vezes cruéis, que apenas desciam à terra para abusar deles na maioria das vezes.

Será que existe um caminho para encontrar a paz tão almejada? Será que a paz é possível para o ser humano? Sim, o próprio Cristo! (Ef. 2.14-17).

A palavra grega para “reconciliação” (katallassein), usada pelo apóstolo Paulo, tinha o sentido de trocar dinheiro ou trocar por dinheiro. Depois passou a representar a troca da inimizade pela amizade, ou seja, unir duas partes que estavam em conflito.

Paulo então usa a ilustração de uma casa, um edifício bem construído e arquitetado. Os crentes em Cristo Jesus são semelhantes a este edifício construído “sobre o fundamento dos apóstolos e profetas”. Agora, tanto gentios quanto judeus, tem todo o direito de cidadania celestial, são tijolos nesta construção, cuja pedra principal é Cristo, proclamado pelos apóstolos.

Assim, agora gentios e judeus, eu e você, unidos pela cruz, compartilhamos todas as áreas da vida comum e da atividade do corpo, pois, todo crente é advertido do perigo do cristianismo individualista. Não existe a igreja do “eu sou a igreja” (apesar de alguns tornarem esta expressão em algo parecido com o que Groot fala, como último representante da espécie). O Novo Testamento sempre apresentará o ideal único e verdadeiro de “nós somos a Igreja”.

            Agora, unidos em Cristo, que destruiu toda barreira de inimizade, seja ela, racial, cultural ou social, aqueles que são lavados por Cristo, são membros da família de Deus. E, como membros de um só corpo, lutam juntos pela fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos. Somos um em Cristo. Temos o mesmo Espírito. Temos o mesmo Pai. Somos herdeiros da mesma herança. Moraremos juntos no mesmo lar.

            Sendo então Cristo a nossa paz, podemos juntos, em alto e bom tom exaltar a Ele, unidos, testemunhando a obra do evangelho em nossa vida comunitária. Que assim como na oração sacerdotal de Jesus, possamos ser um, para que o mundo reconheça que o Pai o enviou para ser a nossa paz.

[1] Wikipedia

 

Vinícius Mello

As Maravilhosas Doutrinas da Graça (Parte 1) – Introdução

“Não é uma novidade, então, que eu estou pregando; não é nenhuma nova doutrina. Gosto de proclamar essas velhas e fortes doutrinas que levam o apelido de CALVINISMO, mas que são, certa e verdadeiramente, a verdade revelada de Deus como se vê em Cristo Jesus.”
Charles H. Spurgeon Continuar lendo “As Maravilhosas Doutrinas da Graça (Parte 1) – Introdução”

Textos que você precisa ler para se preparar para 2019

O Cristão Racional é um blog que trata de assuntos atuais sob a perspectiva cristã, assim como aborda conteúdo teológico de forma de simples e usando uma linguagem bastante comum ao leitor. E nesses dois anos de existência, já abordamos os mais variados assuntos e como nosso número de leitores cresceu bastante desde o início – GLÓRIA A DEUS – uma de nossas leitoras sugeriu que fizéssemos uma lista com os textos que tratam de assuntos que os cristãos devem conhecer, ou, no mínimo, uma prévia para se aprofundarem posteriormente. Atendendo a esse pedido, selecionei entre os mais de 70 textos que escrevemos, e organizei em uma ordem lógica para entendimento. Por não ser em ordem de escrita, alguns textos serão uma verdadeira viagem no tempo. Chega de enrolação, e vamos para a lista! Continuar lendo “Textos que você precisa ler para se preparar para 2019”

Bohemian Rhapsody – Um ciclo natural para o homem

Farrokh Bulsara, foi um jovem londrino, cantor e pianista, que ficou bastante conhecido pelo alcance de sua voz, sendo capaz de alcançar desde as notas mais baixas até as mais altas com a mesma facilidade com que tomamos um copo d’água no dia-a-dia. Não sabe de quem estou falando? É que Farrokh é mais conhecido por seu nome artístico: Freddie Mercury.
É praticamente impossível que alguém fale sobre Freddie Mercury e não tenha em mente a sua energia e presença de palco. Um verdadeiro showman. Se movendo de um lado para o outro como se estivesse prestes a explodir de emoção e adrenalina, e segundos depois, colocava toda a carga emocional necessária para tornar as baladas do Queen inesquecíveis. Mercury se tornou em seus anos de carreira e de vida, praticamente uma unanimidade entre o público e a crítica. A banda formada por ele, o guitarrista Brian May, o baterista Roger Taylor e o baixista John Deacon, alcançou sucesso mundial, e até hoje, algumas de suas músicas são usadas em filmes (quem nunca ouviu We are the champions?) com bastante frequência, mantendo na mente e corações de alguns a voz de Farrokh. Nesse texto, vamos usar como referência, especificamente aquela que talvez seja a canção mais icônica do Queen, Bohemian Rhapsody. Uma canção que em sua letra podemos vislumbrar a vida de Freddie, e quem sabe a nossa, antes de sermos resgatados por Cristo.

Bohemian

Boêmia é o estilo de vida baseado no hedonismo livre, no qual todos os prazeres são permitidos e são regados a bebidas e drogas. Geralmente, é atribuído aos artistas por conta da agitação do show business no qual, tem-se a ideia de diversão e felicidade constantes. Freddie Mercury viveu esse conceito com intensidade. Por muitos anos a imprensa britânica especulou sobre a sexualidade do cantor por conta de seu jeito extravagante e movimentos femininos que fazia nos palcos enquanto interpretava as canções. Apesar da ideia geral de que Freddie era gay, sua vida amorosa mesclava relacionamentos e envolvimentos amorosos com ambos os sexos.
A ideia de liberdade sexual como expressão de identidade seduz o homem desde os primórdios da criação, onde o prazer projetado e planejado supera a posição natural dos sexos (macho e fêmea), num comportamento quase animalesco. Se de 1920 a 1970, o consumo de álcool e drogas era um fator determinante para caracterizar uma vida boêmia, hoje, a sexualidade entra nessa equação assumindo uma posição muitas vezes mais importante que as anteriores. Já notou a competição para saber quem é mais descolado e “desconstruído”, sexualmente? Há uns meses, enquanto assistia ao Altas Horas, lembro-me de que a sexóloga convidada foi perguntada sobre como lidar com o preconceito com pansexuais (atração sexual por qualquer pessoa ou objeto), a convidada ficou intrigada pois a pergunta havia vindo de alguém bastante jovem para falar com tanta convicção sobre a sua identidade sexual. O rapaz respondeu que possuía 16 anos e ainda era virgem, mas quando falava sobre ser pansexual com os amigos não era compreendido. Esse jovem, é apenas fruto de uma competição a respeito de quem é mais libertino.
Outro ponto bastante preocupante a respeito do comprometimento de nossa juventude em seguir os passos de Freddie na vida boêmia, é o consumo de álcool e outras drogas. Não é difícil encontrar jovens bebendo cada vez mais cedo e sendo estimulados ao consumo de substâncias mais pesadas. A morte de nossa juventude tem começado aos 13 (idade média de início no consumo de álcool) e a partir daí, é regada constantemente.
Somos escravos de nossos desejos, inclinados naturalmente para o mau, pois em nosso coração habitam todos os desejos hedonistas de uma vida boêmia e desregrada (Jr 17:9; Mt 13:15; Mc 2:17;7:21-22; Rm 1:21; 7:11; Ef 4:22; Ec 9:3; Is 1:5,6; 6:10).

“Não tenho outro nome, senão o de pecador; pecador é meu nome; pecador, meu sobrenome.”
Martinho Lutero

Rhapsody

Rapsódia é o ato de repetir o mesmo verso de uma obra, com ênfases diferentes em cada nova declaração. Se o Chaves tivesse conseguido repetir o verso do cão arrependido no Festival da Boa Vizinhança, porém, com tonalidade e ênfase diferentes em cada uma delas, isso seria uma rapsódia. Analisando friamente a canção Bohemian Rhapsody, podemos notar que em termos de letra ela é bem fraca, porém, possui uma produção musical bastante criativa, por misturar elementos de hard rock com ópera, algo que com certeza abriu caminho para a popularidade de bandas posteriores como Nightwish, Van Canto e Within Temptation que mesclam os mesmos elementos de forma semelhante.
A vida do homem é uma constante rapsódia, pois apenas tenta mudar o tom e o ritmo como as coisas andam, mas no fim, o resultado é sempre o mesmo: morte.
Qualquer fã de música no geral, já ouviu falar sobre o Clube dos 27. Esse termo é usado para se referir ao alto número de cantores e artistas que morreram aos 27 anos, frequentemente pelo uso excessivo de drogas e álcool na busca pela vida boêmia que falamos acima. Alguns dos membros mais ilustres, são:

  • Brian Jones, fundador do Rolling Stones: Afogado em uma piscina. A certidão de óbito dizia que a morte foi “acidental”.
  • Jimi Hendrix, considerado por muitos como o melhor guitarrista de todos os tempos: A necrópsia mostrou que ele foi asfixiado pelo seu próprio vomito depois de uma combinação de vinho com pílulas para dormir.
  • Janis Joplin, “a voz rouca mais potente que o rock já viu”: Provável overdose de heroína.
  • Jim Morrison, vocalista da banda The Doors: Insuficiência cardíaca
  • Kurt Cobain: Suicídio
  • Amy Winehouse: Intoxicação Alcoólica

Mesmo que Freddie não tenha morrido aos 27 (morreu com 45 anos, em virtude de uma broncopneumonia acarretada pelo vírus da AIDS), é inegável que possuía um estilo de vida semelhante aos citados acima. O homem pode florear o quanto quiser o seu caminho, pode dizer que aquilo é o que o torna feliz, logo, faz bem, mas no fim, não pode mudar a realidade de que o seu caminho natural, é a morte. Ele pode trilhá-lo de forma mais intensa, ou até mesmo de forma suave, mas o destino permanece o mesmo (Rm 6:23; Gn 2:17; Is 3:9; Ez 18:4; Mt 25:46; Jo 4:36; Rm 1:32; Rm 5:12;21; 6:16,21; 8:6,13; Gl 6:8; Tg 1:15)

“Tão certo como a retidão conduz a uma vida feliz, assim o que segue o maligno corre para sua própria morte.”
Provérbios 11:19

O único capaz de quebrar o ciclo de pecado (Hb 4:15) e morte do homem (1 Co 15:20-22), foi o próprio Deus encarnado (Jo 1:14) para nos mostrar que somente a santidade e a perfeição podem romper com nossas fraquezas (Jo 1:12,13). Quantas vezes nos orgulhamos do número de séries que assistimos, buscamos desesperadamente por algum entretenimento, apenas para tentar satisfazer o nosso vazio? Somente Cristo pode nos libertar dessa rapsódia boêmia na qual somos tentados a buscar, ora momentos de grande adrenalina por meio de experiências sejam sexuais ou por meio do uso de drogas, ou na calmaria de se dedicar à preguiça e ao entretenimento televisivo, meios de satisfazer nosso vazio existencial que não em Deus. As experiências podem ser diferentes, mas a dedicação ao próprio desejo, tem somente um destino final.

Celso Amaral