SHINGEKI NO KYOJIN, COBRA KAI E A RECONCILIAÇÃO

Shingeki no Kyojin, ou Attack on Titan, para quem prefere o nome ocidental, e Cobra Kai, são duas séries com propostas totalmente diferentes. Por mais que alguém possa dizer que ambas são ficções, ainda seria um reducionismo de suas características. Enquanto uma é um anime estilo shonen com uma pega mais seinen (obra para um público jovem, mas com temática mais madura), com um enredo mais voltado para a fantasia que envolve criaturas gigantes e devoradoras de seres humanos conhecidas como titãs, tecnologias, ora ultrapassadas ora, próprias de sua realidade.  A outra por sua vez, é uma série live-action que se passa, na medida do possível, no mundo real, lidando com dramas de pessoas que poderiam facilmente ser encontradas no seio de nossas famílias, por exemplo. Mas curiosamente, existe um ponto que une  esses dois grandes sucessos da atualidade quando falamos de entretenimento.

Shingeki no Kyojin – Fonte: Reprodução Internet

Um pouco sobre Shingeki no Kyojin

Anime que é sucesso de público desde a sua primeira temporada, a saga conta a história do que restou da humanidade com sua liberdade restrita a viver dentro de gigantescas muralhas por conta do surgimento de criaturas humanóides conhecidas como titãs. Essas criaturas existem em grande número e estão presentes em todo o mundo fora das muralhas. De início não sabemos muito sobre eles e porque se comportam de forma canibal. Também não sabemos se há algum meio pelo qual se reproduzem uma vez que, mesmo sendo mortos, continuam a aparecer aos montes. Os personagens principais dessa história são Eren Jaeger, Armin Arlert e Mikasa Ackerman. O trio se conhece desde a infância e sonha em um dia conhecer o mundo fora das muralhas.

Com o desenrolar da história, descobrimos que o local onde estão, na verdade é uma ilha e que foram isolados lá, centenas de anos atrás por conta dos conflitos existentes entre os Eldianos e os Marleyanos. Ao descobrir isso, Eren, o protagonista, que é um eldiano, decide se vingar de todos os que cercearam sua liberdade. Nesse ínterim, descobrimos que os eldianos que moram em Marley são tratados como escória vivendo em campos de concentração e sofrendo lavagem cerebral para acreditarem que são as causas de toda a desgraça do mundo e que, devem servir aos propósitos do exército marleyano, mesmo que para isso, devem exterminar seus compatriotas que vivem na ilha. Com isso, temos dois grupos que pertencem ao mesmo povo se odiando por conta de manipulações e mentiras contadas para cada lado, justamente, com o objetivo de que se destruam. Isso não te parece familiar?

Cobra Kai: Reprodução

Um pouco sobre Cobra Kai

Existe uma grande chance de que você já tenha assistido à saga Karatê Kid na Sessão da Tarde. Pois bem, a série Cobra Kai ocorre 30 anos depois dos eventos dos filmes. A partir da primeira temporada acompanhamos Johnny Lawrence e sua vida fracassada e sem propósito, regado a álcool e a um rancor quase mortal por seu bem-sucedido rival, Daniel LaRusso, na tentativa de reviver seus tempos de glória da juventude quando era o astro do Dojô de Karatê Cobra Kai. Ao contrário da vida fracassada de Johnny, Daniel agora é um empresário respeitado e famoso na comunidade. Se você pensa que por estar em uma posição social acima da de Johnny, Daniel não possui sentimentos negativos, engana-se. Os traumas de uma adolescência de confrontos, brigas e humilhações, fazem com que Daniel tenha horror a qualquer um que demonstre ser minimamente próximo de Johnny, agindo com preconceito e fazendo frequentes julgamentos de valor tendo como critério os eventos do passado

Ambos possuem filosofias diferentes em relação à vida e aos métodos de treino e luta do Karatê e o apego de cada um à sua própria versão da história, faz com que retroalimentem os sentimentos negativos um para com o outro em tamanha proporção que, seus alunos e família acabam sendo envolvidos, algumas vezes direta e outras vezes indiretamente nessa teia de ódio sem sentido. Novamente pergunto, isso não te parece familiar?

Mídias Sociais: Reprodução

Um pouco sobre internet e redes sociais

Facebook e Twitter são as duas redes sociais mais famosas por conta das brigas e discussões acaloradas, mas não estão sozinhas. Mesmo o Instagram que sempre foi visto como a rede social da felicidade (e bastante criticado por conta do estilo artificial que as pessoas ostentam) tem se tornado um ambiente de discussões e brigas cada vez mais tensas pelos mais variados assuntos. Não importa qual seja o tema que você conseguir pensar, é bastante provável que em algum lugar esteja havendo alguma discussão a respeito.

As redes sociais funcionam com base em algoritmos que selecionam o conteúdo que visualiza com base em suas interações. A consequência disso, no médio e longo prazo, é uma alienação. As chamadas bolhas, que por oferecerem somente aquilo que você gosta, deturpam sua capacidade de entender corretamente a realidade que o cerca. A partir de então, quando entramos em contato com alguma opinião ou ponto de vista diferente, imediatamente partimos para um ataque frontal e direto, com base apenas em nossa percepção. Tais ataques costumam ser devastadores por conta da desumanização do outro. O avatar, logo ou imagem constante na foto do perfil, funciona como um meio de acreditarmos que podemos tratar da forma que queremos alguém que nunca vimos pessoalmente e que não conhecemos sua história. Quando menos esperamos, já estamos cancelando e calando pessoas, simplesmente por apresentarem um outro lado da realidade. A grande sacada das redes sociais é que, nos fazem pensar que não há alguém como nós do outro lado da tela. Avatares não tem emprego, não tem família, não tem amigos… Por isso que desumanizar alguém, tirando dessa pessoa características que fazem dela alguém com uma identidade e, portanto, como nós, é apenas uma forma de buscarmos uma justificativa para legitimarmos a violência que inconscientemente, e algumas vezes até de forma consciente, estamos praticando. 

Assim como nas histórias de Cobra Kai e Shingeki no Kyojin, responder com violência somente gera mais violência, retroalimentando um ciclo que precisa ser parado. A violência contra a mulher presente no machismo, resultou no feminismo radical; a violência racial contra negros resultou na resposta de grupos radicais; o fanatismo religioso, nos deu uma sociedade ateísta e antirreligiosa e assim por diante. Infelizmente, essa resposta também violenta, é usada pelos grupos citados anteriormente, como uma forma de legitimar suas ideologias e visão distorcida do mundo. Usei movimentos não tão específicos, mas se você fizer um tour em qualquer rede social, vai verificar que muitas páginas se agem exatamente assim. Calvinistas e arminianos tentando humilhar um ao outro a cada exposição de um ponto de sua teologia; cessacionistas e continuístas; pedo  e credobatistas e, qualquer outra “rivalidade” teológica que seja causa de brigas e contendas. Tal qual na sociedade secular, respondem violentamente um ao outro como se esse fosse o motivo de suas existências. O outro, é um inimigo não a ser transformado em amigo ou irmão, mas a ser destruído até que não reste nem que seja uma vaga lembrança de uma guerra passada. É a Depravação Total se apresentando em sua forma mais cristalina. Assim como nas séries que mencionei, são um mesmo povo (eldianos), com os mesmos gostos (galera de Cobra Kai), buscando a aniquilação um do outro, somente pelo prazer de destruir uma visão contrária à sua. 

Se você chegou até aqui deve se perguntar: “então, não há salvação para essa situação?” Sim, há. Falemos dela agora. 

Unidos em e por Cristo

O ministério de Jesus pode ser resumido em uma palavra: reconciliação. Você consegue imaginar um bolsonarista e um petista andando juntos por três anos seguidos, enquanto compartilham das mesmas lições e comida? Pois é, foi basicamente isso que Jesus fez ao chamar um cobrador de impostos (Mateus) e um zelote (Simão) como seus discípulos. Basicamente, havia uma tensão entre os zelotes que eram um grupo revolucionário que buscavam a todo custo (inclusive, usando de violência) libertar os judeus do domínio romano e que, viam nos publicanos como Mateus, traidores da pátria e dos próprios irmãos. Jesus além de nos reconciliar com Deus, o faz também com nossos irmãos.

Curiosamente, tanto em Cobra Kai quanto em Shingeki no Kioujin, os momentos em que pessoas dos lados “opostos” começam  a se entender, são em situações à mesa. Em SNK, Reiner e Bertholdt dois dos enviados para atacar a Ilha e que sofreram lavagem cerebral para acreditar que aqueles eldianos eram descendentes do demônio, após um tempo de convivência com Eren e os demais, partilhando do pão e das dificuldades começam a enxergá-los não mais como os “demônios da ilha paradis”, mas como pessoas como eles. O conflito presente em Reiner é tão intenso que em dados momentos da história tudo o que ele quer é morrer em paz, por ser atormentado por tudo o que fez até então. Já em Cobra Kai, Johnny e Daniel tem seus momentos de paz quando se encontram em restaurantes e sinalizam uma possível trégua um para com o outro. 

Quando congregava na Assembleia de Deus, o segundo pastor da congregação era o irmão Carlos e algo que ele dizia com bastante frequência, era:  “você não conhece alguém realmente, até comer um 1kg de sal com essa pessoa”. Como o sal é posto apenas em pitadas, demora um bom tempo até que ele acabe. Na Palavra de Deus, vemos a constante presença da mesa. Davi pede para Deus preparar uma mesa diante de seus inimigos (Sl 23.5); Cristo vai até a casa das pessoas e come com elas (Mc 14.3; Lc 7.36; Jo 12.2);  a última Ceia o momento de comunhão (Mt 26.20; Mc 14.18; Lc 22.14; Jo 13:2); a Ceia na igreja primitiva possuía esse caráter de comunhão a tal ponto que, o apóstolo Paulo repreendeu duramente a igreja em Corinto por seu comportamento deplorável durante a ceia (1 Co 11.17-34). Alimento é vida, então, quando o oferecemos a alguém é como se desejássemos que aquela pessoa continue a existir. Quando dividimos o nosso, é como dar o que nos sustenta para que sejamos movidos pela mesma coisa. Isso é comunhão do corpo de Cristo. 

Nossos dias nos condicionam para uma ideia cada vez mais rápida. Estamos acelerados. Queremos consumir a próxima notícia, nos revelar como referenciais de justiça, precisamos nos posicionar e nos revelar. Não é à toa que o Facebook te pergunta no que você está pensando e o twitter o que está acontecendo nas caixas de criar uma publicação. Essa pressa nos isola. Corremos para nossas bolhas porque não queremos perder tempo conhecendo aqueles que nos ensinaram que são os vilões. Dá trabalho, e demora comer 1kg de sal com esta pessoa. Temos dificuldade em perdoar e comungar. Como cristãos, somos responsáveis pela mensagem de perdão. Mensagem essa que atinge a todos, do agressor ao agredido sem distinção. Talvez seja por conta de atingir os dois lados da moeda que o perdão do ponto de vista cristão é tão difícil. Lembra quando falei sobre a função reconciliadora de Jesus, pois bem. Vamos refletir nisso um pouco.

Em Isaías 59.2 é nos dito que nossos pecados, ou seja, nossas ofensas à santidade de Deus é que nos separam de Deus. É curioso que esquecer que o pecado é uma ofensa a Deus nos tira de uma posição ruim diante dEle. O profeta continua até o verso 9 abordando como estamos manchados e contaminados de tal forma, que não conseguimos ver a justiça verdadeira de tão imersos que estamos na escuridão. A redenção é mencionada a partir do verso 16, no qual Isaías diz que por ninguém para servir de intercessor, o Senhor pelo seu próprio braço trouxe a salvação e a sua justiça foi o seu apoio. No versículo 20, é dito que o Redentor virá a Sião e aos de Jacó  que se converterem.  Deus resgatou um povo que o ofendia em tempo e fora de tempo. Consegue imaginar a grandeza disso?

A verdadeira justiça não ocorre por vingança, mas sim por resgate. Do ponto de vista de Deus, a justiça só é verdadeiramente feita quando há redenção para o ofensor e a comunhão é restabelecida. A cultura do cancelamento que tanto tem se falado nos últimos dias é uma prova disso. Como cristãos e portanto, aqueles que devem conhecer a vontade de Deus, não devemos nos acomodar e permitir coisas desse tipo. 

Ah, e caso ache que o que sofreu foi o suficiente para justificar sua dureza em perdoar o outro, lembre-se nossa ofensa contra Deus foi tão grande, que o Filho precisou morrer para resolver esse problema. Somos justos diante de Deus, não por nosso mérito, mas pelo feito por Jesus.
Se queremos justiça, devemos pedir pela redenção do agressor e a cura do agredido, assim como fomos redimidos pelo sangue de Cristo e nossa aliança com Deus foi “curada”.

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