Introdução à Escatologia: A Segunda Vinda de Jesus – Pt 2

Introdução

Com a realidade da Segunda Vinda de Jesus, surgem algumas outras perguntas. Talvez a principal delas, seja o que vai acontecer nesse evento tão importante. O que vai acontecer com os crentes? E com os descrentes? A vinda de Jesus vai iniciar o milênio instantaneamente? É o que vamos entender na aula de hoje.1. A Ressurreição e o Arrebatamento

Quando falamos sobre morte e estado intermediário, falamos sobre a Escatologia Individual. O principal evento com relação à morte de Jesus, é a conclusão dessa parte da Escatologia. A ressurreição tanto de ímpios quanto de justos, conclui a Escatologia Individual e inicia a Escatologia Cósmica.

1.1 A Perspectiva Bíblica

Ao contrário do que alguns podem pensar, a ressurreição do último dia é algo falado desde o Antigo Testamento. Em Isaías 26:19, temos: “Teus mortos, porém, viverão; seus corpos ressuscitarão. Aqueles que dormem na terra se levantarão e cantarão de alegria. Pois tua luz que dá vida descerá como o orvalho sobre o teu povo no lugar dos mortos”. O profeta Daniel também trata da ressurreição dos mortos, dizendo “Muitos dos que estão mortos e enterrados ressuscitarão, alguns para a vida eterna e outros para a vergonha e horror eterno” (Dn 12:2). Em Ezequiel 37:12-14 temos também uma menção à ressurreição. Ainda que a interpretação desse trecho seja relacionada à volta dos israelitas para sua terra, é importante mencioná-lo para entendermos que a ressurreição não era um assunto estranho, nem para os autores, nem para os leitores do AT.

Além dessas, outras passagens no AT que comprovam a visão bíblica a respeito da ressurreição, são Salmos 49:15, que diz: “Mas Deus redimirá minha alma da sepultura e me levará para si”. Salmos 16:11 fala sobre a restituição do corpo “nem permitirás que o teu santo veja a corrupção/decomposição.”, sobre a libertação da morte “Sim! Ele é para nós o Deus que nos liberta até mesmo dos grilhões da morte!” no Salmos 68:20. A referência mais famosa a respeito da vitória sobre os efeitos da morte, foi proferida pela primeira vez, no AT, pelo profeta Oseias, dizendo: Contudo, Eu mesmo os redimirei do poder do Sheol, da sepultura; Eu os resgatarei da morte eterna! Onde estão, ó morte, os teus flagelos e castigos? Ó Sheol, o mundo dos mortos, onde está a tua destruição? Eis que agirei sem compaixão nem misericórdia”.

Obviamente, até mesmo por uma questão compreensão da revelação feita aos profetas, o Novo Testamento possui referências mais claras a respeito da ressurreição. O assunto fazia parte do cotidiano das comunidades judaicas, como podemos ver na discussão de Jesus com os saduceus a respeito das relações de matrimônio na vida futura (Mt 22:23-32) e também na fala de Marta, irmã de Lázaro, que respondeu com “ele há de ressurgir na ressurreição no último dia” (Jo 11:24) à fala de Jesus a respeito da ressurreição de Lázaro mesmo após quatro dias morto. O próprio Cristo prometeu ressuscitar seus seguidores: “E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas os ressuscite no último dia. Por que a vontade de meu Pai é que todo aquele que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6:39,40). Paulo defendia a doutrina da ressurreição não somente nas cartas enviadas às igrejas, mas também publicamente (At 23:6-8,10; 24:14,15; 26:6-8).

O ponto principal da doutrina da ressurreição reside no fato de que a humanidade caída precisa de uma redenção, e por consequência de um redentor. Por essa razão, vemos as mesmas esperanças tanto nos profetas que receberam a promessa, quanto nos apóstolos que a viram se cumprir em Cristo. Ao contrário do que pensavam os saduceus e os gregos, a realidade do evento era inegável e, mesmo com as posições contrárias, foi defendida e chegou a nós por meio da Palavra do Senhor.

1.2 Como será?

Uma vez que entendemos a realidade da ressurreição, surge então a pergunta sobre como será essa ressurreição. Corpórea ou espiritual? Literal ou figurativa? Passaremos pelas mesmas coisas que os ímpios? A ressurreição será a mesma para ambos? A Bíblia responde satisfatoriamente algumas dessas perguntas, mas algumas ficam em aberto, principalmente, as questões relacionadas aos detalhes sobre os que morrerem sem salvação. Uma vez que a Palavra de Deus é o relato do plano de Deus para o seu povo, os salvos e remidos, não é de se estranhar que seu conteúdo mencione pouco ou quase nada, a respeito do que Deus destinou para seus opositores.

1.3 A Ordem para a Ressurreição

Em sua primeira carta para os Tessalonicenses, o apóstolo Paulo afirma que “o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens e assim, estaremos para sempre com o Senhor” (1 Ts 4:16,17). Hernandes Dias Lopes faz o seguinte comentário a respeito dessa ordem:

A palavra grega keleusma, traduzida por “palavra de ordem”, significa comando, sonido. Essa palavra cujo significado traz a ideia de uma ordem gritada para os mortos se levantarem de seus túmulos só aparece aqui em todo o Novo Testamento. A palavra era usada de vários modos, por exemplo, o grito dado pelo mestre do navio para seus remadores, ou por um oficial para seus soldados, ou por um caçador para seus cães, ou por um cocheiro para seus cavalos. Quando usada para pessoal militar ou naval, era um grito de batalha. Na maior parte das vezes denota um grito alto e autoritário, com frequência dado num momento de grande empolgação. Desta forma, Cristo retorna como um grande Vencedor. Sua palavra de ordem é como a ordem que um oficial dá em voz alta à sua tropa. É uma ordem expressa para que os mortos ressuscitem (Hernandes Dias Lopes, 2008).

Quando analisamos esse verso em conjunto a Apocalipse 19:11, temos um retrato perfeito de que seremos convocados a ressuscitar para nos unirmos ao exército dos céus. Da mesma forma que Lázaro ouviu a ordem de Jesus e não pôde resistir ao chamado (Jo 11:43), assim, será com todos os crentes naquele glorioso dia. Cristo, usando todo o seu poder, assim como foi na criação do mundo que deu ordens e foi obedecido, dará a ordem e não poderemos negar ou recusar obedecer, pois reconheceremos a voz do pastor ao nos chamar (Jo 10:27).

1.4 A Glorificação dos Corpos

Ao sermos arrebatados, teremos nossos corpos transformados em um novo aspecto. Esse novo aspecto tem como objetivos: 1) revelar de forma visível a restauração executada por Jesus na cruz; 2) revelar o poder de Jesus como criador; 3) iniciar um reinado com servos de Jesus que sejam à imagem e semelhança dEle.

Onde há mais detalhes sobre como serão os corpos após a ressurreição é na primeira carta aos Coríntios, onde o apóstolo Paulo, compara o nosso corpo futuro com uma semente, dizendo: “quando semeias, não semeias o corpo que há de ser, mas o simples grão, como de trigo ou de qualquer outra semente. Mas Deus lhe dá o corpo como lhe aprouve dar e a cada uma das sementes, o seu corpo apropriado” (1 Co 15:37,38). O apóstolo está dizendo que assim como ninguém planta uma árvore já dando frutos, mas uma semente, para que desta, surja uma árvore frutífera no futuro. Em seguida, fala sobre as diferenças na composição de corpos, citando corpos humanos, dos animais, das aves e dos peixes (v.39). Dando continuidade, menciona também os corpos celestiais e terrestres e as diferenças de glória que cada um deles possui (v.40).

Ao falar sobre a ressurreição dos mortos, Paulo diz que será semeado um corpo em corrupção que será ressuscitado em incorrupção; o que é semeado em desonra, é ressuscitado em glória (v.42); semeado em fraqueza, ressuscitará em poder (v.43); semeado um corpo natural, ressuscitará como um corpo espiritual (v.44).

Pois assim está escrito: o primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante. Mas não é o primeiro o espiritual, e sim o natural; depois vem o espiritual. O primeiro homem, formado do pó da terra, é terreno; o segundo homem é do céu. Como foi o homem terreno, assim também são os demais que são feitos do pó da terra; e, como é o homem celestial, assim também são os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do homem terreno, traremos também a imagem do homem celestial.
1 Co 15:46-49.

A nova criação, não terá mais as características e herança do primeiro homem, mas do segundo. Não seremos mais considerados descendência de Adão, mas sim de Cristo. Da mesma forma que Cristo possui uma natureza celestial, glorificada e perfeita, assim seremos. A diferença entre nós e Jesus, é que Ele é eterno e perfeito em si mesmo, nós seremos aperfeiçoados e eternizados, o que para Ele faz parte de sua essência, a nós, será dado por sua graça (v.54).

1.5 A Ressurreição será corpórea

A interpretação dispensacionalista e alguns círculos amilenistas, entendem os versos que tratam da ressurreição mencionando um corpo espiritual, como sendo um corpo sem forma, etéreo. Entretanto, quando analisamos todo o capítulo, vemos que Paulo não dá margem para esse tipo de interpretação, afinal, seria mais simples para o apóstolo, dizer apenas para não termos nenhuma preocupação quanto ao futuro pois seríamos etéreos, ao invés disso, prefere explanar sobre a restauração do corpo. Como será essa restauração na prática?

  1. Semeia-se em corrupção e ressuscita-se corpo incorruptível (15:42). Em primeiro lugar, nosso corpo será imperecível. Não mais sujeito a doenças, nem mesmo ao envelhecimento, uma vez que estas têm como origem a corrupção. Esse corpo terá para sempre as características humanas joviais, ainda que maduras, da masculinidade e da feminilidade (Wayne Gruden, 2019). Nosso corpo ressuscitado irá manifestar toda a sabedoria, perfeição e poder de Deus no ato da criação do homem. Cumpriremos enfim, o propósito para o qual fomos criados. Seremos como Deus nos planejou.
  2. Semeia-se corpo em desonra e ressuscita-se em glória (15:42). Paulo também fala que o nosso novo corpo será ressuscitado em “glória”, ao contrário do que foi sepultado em “desonra”. Entendemos então, que esse corpo não terá traços que o tornem repulsivos, ou de alguma forma indesejáveis. Mutilações, deformações, fraquezas geradas por doenças, nada disso será característico do corpo ressurreto, todos serão perfeitos.
  3. Semeia-se em fraqueza e ressuscita-se em poder (15:43). O corpo humano não terá mais as mesmas limitações físicas e da natureza. Entretanto, essa plenitude de capacidades, não será como os super-heróis do cinema, nem nada do tipo. Trata-se de um com corpo dotado de força e poder (capacidade de realizar) completos, pois não estaremos mais sujeitos às doenças e envelhecimento. Talvez o cenário mais realista para isso, seja o que disse o profeta Isaías. “Subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão” (Is 40:31).
  4. Semeia-se corpo natural, ressuscita-se corpo espiritual (15:44). Como dito anteriormente, a interpretação de que o corpo será etéreo e intangível não está em harmonia com a própria ressurreição de Cristo. Outro ponto que devemos nos atentar, é que nos estilo de escrita do apóstolo Paulo, a palavra espiritual (pneumatikos) nunca se refere a algo “não físico”, mas sim a algo que seja compatível com o caráter e com a atividade do Espírito Santo (Rm 1:11; 7:14; 1 Co 2:13,15; 3:1; 14:37; Gl 6:1; Ef 5:19). Uma tradução literal desse texto, seria: “Semeia-se corpo natural (isto é, sujeito às características e aos desejos da época, e governado por sua própria vontade pecaminosa) e ressuscita-se corpo espiritual (isto é, totalmente sujeito à vontade do Espírito Santo e sensível à sua direção)”, ou seja, um corpo físico que estará no estado de perfeição para o qual foi planejado.

A descrição da redenção do crente mostra que ela envolve o corpo, não somente a alma: “Pois sabemos que toda a criação geme e agoniza até agora, como se fosse dores de parto; e não somente ela, mas também nós, que temos os primeiros frutos do Espírito, também gememos em nosso íntimo, aguardando ansiosamente nossa adoção, a redenção de nosso corpo” (Rm 8:22,23) (Millard Erickson, 2015). Outras referências à transformação de nosso corpo físico, são Efésios 3:20,21, 1 Coríntios 15:51, Colossenses 3:4 e 1 João 3:2.

Millard Erickson aponta em sua Teologia Sistemática uma questão levantada frequentemente por opositores da ideia do corpo físico. Se nosso corpo será físico, como fica a questão de doações de órgãos? E em caso de novos matrimônios? E pessoas que realizaram cirurgias de mudança de sexo? Apesar de parecem questões problemáticas que comprometem a doutrina, quando olhadas sob a ótica da restauração das coisas ao que Deus planejou são facilmente resolvidas. Pessoas que nasceram com deficiência de algum órgão terão seus corpos completos; o próprio Cristo disse que não haverá casamento no céu e quanto à mudança de sexo, basta nos lembrarmos que Deus fez cada ser humano no sexo que  Ele próprio desejou, a mudança nesse caso, é uma rebeldia à obra de Deus, sob uma falsa ideia de erro por parte do Criador.

1.6 A Ressurreição dos Justos e dos Injustos

Apesar de haver muito mais referência à ressurreição dos justos, há um número suficiente de menções para sabermos que haverá também uma ressurreição dos injustos, ou dos ímpios, como quiser chamar. A diferença principal se dá no objetivo de cada uma dessas. Enquanto, para os servos de Deus, essa ressurreição, será uma recompensa (Is 26:19; Ef 5:14). Em sua conversa com os saduceus, Jesus menciona os justos, considerados dignos de alcançar a vida eterna não se darão em casamento (Lc 20:35). Em Filipenses 3:11, Paulo fala sobre seu propósito de estar presente na ressurreição dos mortos, seja ela como for. Nos evangelhos sinóticos e nas cartas de Paulo há pouca ênfase à ressurreição dos ímpios. O que aponta para uma ênfase do apóstolo na conservação da esperança dos seus leitores, no segundo.

Em contrapartida, alguns textos são bem claros em apontar que estes também ressuscitarão, porém, não será para receber uma recompensa, mas sim, para receber o castigo do Senhor. O profeta Daniel diz: “Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns, para a vida eterna, outros para vergonha e horror eterno” (Dn 12:2), Jesus diz algo semelhante após mencionar a negligência dos pequeninos “E estes irão para o castigo eterno, porém os justos para a vida eterna” (Mt 25:46). Ao falar sobre sua autoridade, Jesus diz que aqueles que crerem em suas palavras têm a vida eterna (Jo 5:25), e que os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão (Jo 5:28) e nesse chamado, os que tiverem praticado o bem irão para a vida, mas o que tiverem praticado o mal, encararão o juízo (Jo 5:29). E, se tanto, crentes como incrédulos estarão presentes e envolvidos no juízo final, concluímos que a ressurreição de ambos é necessária (Millard Erickson, 2015).

A ressurreição não se trata apenas de um capricho de Deus. Em ambas, há a simbologia da criação, enquanto os crentes receberão corpos restaurados por terem abdicado de suas vontades para viver a vontade de Deus, aqueles que viveram segundo a sua própria vontade e abdicaram da vontade de Deus, receberão o castigo pela ofensa proferida.

2. Jesus marchará em direção a Jerusalém

Ao serem levados para as nuvens para se encontrarem com o Senhor, os crentes em Jesus receberão o galardão por suas obras (Ap 11:18), em seguida descerão para a terra juntamente com o Cristo para marchar em direção à Jerusalém, que na ocasião estará tomada pelo Anticristo (Dn 9:27), e o Senhor irá libertá-la. Durante o seu trajeto, derramará as Sete Taças da Ira de Deus (Ap 16). Apesar de não podermos saber com exatidão a sequência dos locais pelos quais Jesus vai passar, é possível saber por onde Ele passará. Egito (Dn 11:41-43; Is 19:18-22), Deserto do Sinai (Hc 3:3,7,12-15) e Jordânia (Is 63; Ap 19:13-15; Is 11:9-16), culminando em sua entrada triunfal em Jerusalém (Zc 14:3-5; Ap 14:20).

4. Jesus trará o Dia do Senhor

É muito comum acreditarmos que somente no Novo Testamento há referências sobre a Segunda Vinda de Jesus e sobre os efeitos desta, a realidade porém, é diferente. No Antigo Testamento a referência que mais se aplica ao retorno de Cristo é o dia do Senhor. Várias profecias da Bíblia falam sobre o dia do Senhor. Esse dia está sempre associado ao julgamento e à retribuição (Ez 30:3; 35:11; Ob 1:15; Jl 1:15; 2:1). No dia do Senhor os pecados serão punidos e Deus estabelecerá a justiça. Será um dia de destruição de tudo que é ruim e exaltação de tudo que é bom. Nesse dia, Deus será louvado por Sua justiça. O dia do Senhor é o dia do Juízo Final. Cada um terá de prestar contas diante de Deus por aquilo que fez. Jesus voltará e a terra será destruída (2 Pedro 3:10). Quem ama e segue Jesus será poupado nesse dia mas quem não é salvo receberá o castigo de seus pecados. Será um dia terrível mas para os salvos será um dia de esperança e restauração (Joel 2:30-32).

5.O Juízo Final

Outra consequência da segunda vinda de Jesus, será o Juízo Final. Para aqueles que estão separados de Jesus, será o dia mais aterrorizante de suas vidas, e é também a pior perspectiva possível com relação ao futuro. Para os que estão em Cristo, no entanto, esse momento deve ser aguardado com expectativa, pois vindicará suas vidas (Millard Erickson, 2015). O objetivo do Juízo Final não é determinar o estado de nossa condição espiritual, ou de alguma forma, promover um tribunal onde a humanidade será capaz de apresentar algum tipo de defesa. Deus já sabe de nossa condição. O Juízo Final servirá então para tornar a nossa condição pública.

5.1 Um evento futuro

Apesar de Deus já haver manifestado seu juízo em algumas situações específicas como no caso de Enoque e Elias que foram levados ao céu sem ver a morte, houve também o envio do Dilúvio para punir a corrupção dos homens (Gn 6-7). Também foi aplicado o juízo divino na rebelião de Coré (Nm 16). O exemplo mais famoso do novo Testamento talvez a seja a rebelião de Ananias e Safira, por mentirem ao Espírito Santo (At 5:1-11). Muitos pensadores tentam argumentar dizendo que a própria história, já é o juízo de Deus sobre o mundo. Entretanto, não é o que a bíblia diz a respeito desse evento. A revelação que temos através da bíblia é que será um evento único e definitivo, a ocorrer ainda no futuro. Ao falar sobre, em Mateus 11:20-24, Jesus que no dia do juízo haverá menos rigor para Tiro, Sidom e Gomorra do que para Cafarnaum, Corazim e Betsaida se referindo ao fato de haver operado naquelas cidades muitos milagres e ainda assim, por elas foi rejeitado como sendo o Messias. Note que, o povo de Deus já havia sido escravizado pelo Egito, Babilônia, Pérsia, e até aquele momento, pelos romanos. Apesar da grande assolação, e de alguns desses cativeiros terem sido por punição divina, em nenhum momento, Jesus define tais ocorrências como sendo o Juízo definitivo de Deus. Pelo contrário, ele aponta para um evento no futuro.

Paulo também fala sobre um evento futuro em sua pregação em Atenas, declarando que “Deus determinou um dia em que julgará o mundo com justiça, por meio do homem que estabeleceu com esse propósito. E ele garantiu isso a todos ao ressuscitá-lo dentre os mortos”(At 17:31). Menciona novamente sobre o juízo vindouro em sua defesa diante de Félix (At 24:25). O texto mais objetivo a respeito do Juízo, talvez seja o que escreveu o autor da carta aos Hebreus, quando diz que “aos homens é permitido morrer somente uma vez, vindo depois disto, o juízo” (9:27).

5.2 Como será o Juízo Final?

Assim como tudo o que envolve a escatologia como um todo, quando pensamos nas questões futuras, a questão seguinte, é: como será? As Escrituras afirmam o fato de que haverá um grande julgamento final de crentes e incrédulos. Eles ficarão de pé diante do trono de julgamento de Cristo em seu corpo ressurreto e ouvirão a proclamação do seu destino eterno (Wayne Grudem, 2019). Veremos agora, quais características a bíblia aponta para esse evento.

  • Jesus será o juiz (Mt 25:31-33; Jo 5:22, 26-27; Hb 12:23; 2Tm 4:1; At 10:42) – Cristo mudará de posição. Não sendo nesse momento, o intercessor, mas o juiz. Antes, ele apresentava as pessoas para serem justificadas pelo seu nome e pelo seu sangue, sendo inclusive visto como advogado. Agora, medirá as ações de cada um segundo as suas obras com uma autoridade que foi lhe dada pelo próprio Deus.
  • Os incrédulos serão julgados (Ap 20:12, 13; Rm 2:5-8) – Como já falamos no decorrer desse estudo, os incrédulos receberão o pagamento pelo seu desejo exacerbado por si mesmos, manifestos em seus pecados.
  • Os crentes serão julgados (Rm 14:10, 12; 2Co 5:10; cf. Rm 2:6-11; Ap 20:12, 15) – Ao contrário dos incrédulos que receberão a aplicação do sofrimento e morte dos seus pecados, os crentes receberão no julgamento as recompensas por sua fidelidade e serviços. Cada um receberá segundo as suas obras de justiça, uma vez que a punição por seus pecados já foi aplicado a Jesus.
  • Os anjos serão julgados (2Pe 2:4; Jd 6; ICo 6:3) – Esse é talvez o ponto mais peculiar do julgamento. Há uma negativa desse momento por parte de alguns por conta de as pessoas acreditarem que há uma espécie de hierarquia, na qual seres humanos estão no mais baixo nível. A condição de julgar os anjos, reside no fato de que somente seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus. Ou seja, compostos de inteligência moral e cognitiva. Em nenhum momento, a bíblia menciona que anjos possuam essas mesmas características. Na verdade, a Palavra não menciona sequer, a criação dos anjos.
  • Ajudaremos no trabalho do julgamento (ICo 6:2-3,5-6; Ap 20:4) – Assim como o ponto anterior, esse também é curioso. O entendimento para o nosso papel no dia do juízo se dá pelo mesmo motivo do item anterior. Sermos feitos imagem e semelhança de Deus. Por sermos as criaturas mais próximas em concepção de Deus, é que num estado glorificado, estamos em condições de auxiliá-lo. Cumprindo aquilo que Ele planejou para nós.

 5.3 A necessidade do Juízo

Quando se fala em ir a julgamento, a primeira coisa que vem à nossa mente, é justamente a de uma pessoa sendo acusada sendo defendida por um advogado e acusada por um promotor público. Se falamos anteriormente, que não haverá condições de defesa no dia do julgamento, qual a necessidade de ocorrer então? Não seria mais fácil, Deus lançar de uma vez só todos no sofrimento eterno e irmos viver eternamente? O teólogo Louis Berkhof responde com maestria a essa questão:

“Seu propósito é, antes, expor diante de todas as criaturas racionais a glória declarativa de Deus num ato formal e forense que engrandecerá, por um lado, a Sua santidade e justiça, e, por outro lado, a Sua graça e misericórdia. Além disso, devemos ter em mente que o juízo do último dia será diferente, em mais de um aspecto, daquele que ocorre na morte de cada indivíduo. Não será secreto, mas público; não dirá respeito somente à alma, mas também ao corpo; não se referirá apenas a um único indivíduo, mas sim a todos os homens.”

5.4 As implicações morais da doutrina do Juízo Final

Wayne Grudem lista quatros fundamentos morais que o conhecimento que adquirimos a respeito do Juízo Final nos impõe como cristãos, são eles:

  1. A doutrina do Juízo Final satisfaz nosso senso interior de necessidade de justiça no mundo;
  2. A doutrina do Juízo Final nos capacita a perdoar os outros livremente;
  3. A doutrina do Juízo Final constitui motivo para uma vida justa;
  4. A doutrina do Juízo Final constitui grande motivo para a evangelização.

 Conclusão

Entender as consequências da volta de Cristo não é uma necessidade que deve ser vista como uma série de versículos a serem decorados. O motivo principal deve ser a busca pelo entendimento do momento em que o nosso Senhor será reconhecido como Soberano sobre toda a criação, e nisso, depositar nossas esperanças. É muito comum que as pessoas vivam uma vida de expectativas terrenas, se apressando em conseguirem bens materiais e coisas do tipo, porque para elas a morte é o fim. Não há nada mais. Nós, como crentes em Jesus, em seus ensinamentos e em suas promessas, devemos viver sob uma perspectiva diferente. Se o mundo inteiro vive acreditando que a morte é o fim, temos por dever, ainda mais nós que somos protestantes, buscar um entendimento contrário, conforme sugere o apóstolo Paulo em Romanos 12:2.

Referências bibliográficas

Esteves, Daniel. Mentoria Escatológica. 3ª turma. Itajaí: Videoconferência, 2020

Bazzo, Ângelo. Mentoria Escatológica. 2ª turma. Montemor: Videoconferência, 2020

Erickson, Millard. Teologia Sistemática. 1ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2015.

Grudem, Wayne. Teologia Sistemática ao Alcance de Todos. 1ª ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019.

Dias Lopes, Hernandes. 1 Coríntios – Comentário Expositivo. 1ª ed. Rio de Janeiro: Hagnos, 2008.

Berkhof, Louis. Introduction to Systematic Theology. Reimpresso: Grand Rapids: Baker, 1979. Primeira publicação em 1932.

Celso Amaral

 

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