Introdução à Escatologia: A Segunda Vinda de Jesus – Parte 1

Introdução

Assim como a morte, entre os cristãos ortodoxos a doutrina da volta de Jesus não é motivo de debates quanto à sua realidade. Talvez o maior problema com algumas abordagens sobre o tema seja a tentação de tentar prever quando essa volta ocorrerá. Muitas heresias surgiram dessas tentativas. Contudo, quando estudada corretamente, a doutrina da segunda da vinda de Jesus no revela um sentido ministerial para nossas vidas, pois, entendendo como será, temos uma percepção melhor de nosso papel e de nossas responsabilidades. Nesse conteúdo, abordaremos alguns aspectos que podem e devem ser entendidos biblicamente, pois se há um lugar onde poderemos encontrar informações a respeito, é na Palavra.

1.O que é a Segunda Vinda de Jesus?

É o evento mais aguardado por Cristãos de todas as eras. Dos apóstolos até cada um de nós, todos esperam pela volta gloriosa de Jesus. Em sua primeira vinda, Jesus revelou-se somente para os judeus, porém, na próxima vez em que pisar na terra, todas as nações contemplarão o Messias revelando-se em poder, glória e majestade.

Em Sua Primeira Vinda, Jesus Cristo veio à terra como um bebê em uma manjedoura em Belém, exatamente como fora profetizado. Jesus cumpriu muitas das profecias do Messias durante o Seu nascimento, vida, ministério, morte e ressurreição. Entretanto, há algumas profecias a respeito do Messias que Jesus ainda não cumpriu. A Segunda Vinda de Cristo será o retorno de Cristo para cumprir estas profecias restantes. Em Sua Primeira Vinda, Jesus foi o servo que sofreu. Em Sua Segunda Vinda, Jesus será o Rei conquistador. Em Sua Primeira Vinda, Jesus aqui chegou na mais humilde das circunstâncias. Em Sua Segunda Vinda, Jesus chegará com os exércitos do céu ao Seu lado.

2.Como será?

Um comentário muito usado – até mesmo por crentes – para atacar a igreja é o de que se Jesus voltasse hoje/em nosso tempo, seria crucificado. A ideia presente na tal frase, é a de que a igreja não só negaria a autoridade de Jesus, como também ignoraria qualquer aspecto de sua natureza, negando também os seus ensinamentos prévios, pois, segundo os adeptos desse tipo de comentário, é que a igreja não conhece o seu Senhor, não sendo mais fiel aos seus ensinamentos. A raiz fonte desse pensamento, é que Jesus está morto, e que se trata de um profeta do passado. Acontece que Ele está vivo e isso muda todo o panorama e nossa relação com fim dos tempos. A questão muda de figura deixando ser “se” Jesus voltar, para “quando Ele voltar”.

2.1 Pessoal, corpórea e visível

Liberais costumam dizer que o Messias não pisará novamente na Terra, mas que a sua vinda será na verdade uma manifestação do seu espírito, que operará e executará a sua vontade e a sua justiça através da igreja. É uma manifestação terceirizada. Seria uma espécie de reino da igreja, na verdade. Ideia essa que surge da análise crítica dos textos bíblicos, negando qualquer aspecto sobrenatural e que aponte para um Jesus morto, que  deixou ensinamentos que um dia serão compreendidos plenamente, e assim, poderão ser aplicados pela igreja. Porém, não é isso que nos dizem as escrituras. Ao contrário, o que o próprio Jesus e os apóstolos disseram sobre a segunda vinda não abre margem para um entendimento alegórico (Mt 24:30; 25:31; 26:64; Mc 13:26; 14:62; Lc 21:27; 22:69; At:1:11; 1 Co 11:26 1 Ts 1:10; 2 Ts 1:10; Jd 1:14; Ap 1:7).

Uma vez que virá em pessoa, Cristo há de se manifestar em um corpo material. Para entendermos esse ponto, precisamos nos lembrar do ministério de Cristo. Em sua missão, vida, morte e ressurreição, Jesus tratou de religar o homem a Deus e derrotar a maldição do pecado que agia livremente sobre a terra. A restauração proporcionada através do sacrifício na cruz, não é somente espiritual, mas também material. Notemos que, ao aparecer aos discípulos e dentre eles, Tomé demonstra descrença quanto ao fato da ressurreição, Jesus  então, pede que o discípulo toque nas suas mãos e também, na lateral de seu corpo (Jo 20:25). Temos aqui, uma referência a um corpo sólido e não espiritual. Ao ressuscitar dos mortos, Cristo em seu corpo físico, aponta para a realidade da derrota da maldição da morte, em seus dois estágios, o natural e o espiritual.

2.2 Inesperada

Quando a Palavra fala sobre a Segunda Vinda de Jesus ser inesperada é bastante comum o entendimento que será uma surpresa para todos, de crentes a descrentes. Entretanto, quando analisamos os textos bíblicos, vemos que refere-se muito mais ao fato do evento ser imprevisível e sem possibilidade de agendamento, no sentido de estabelecer uma data (Mt 24:36). Aparentemente, o tempo de seu retorno era uma das questões a que Jesus estava se referindo quando, logo antes da ascensão, respondeu aos discípulos que queriam saber se restauraria o reino de Israel naquele momento: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade” (At 1.7) (Millard Erickson, 2015).
Embora existam muitos sinais da vinda de Jesus (vide Mateus 24), em nenhum momento é nos dado algum subsídio que nos permita dizer com certeza quando ocorrerá. Os ensinos de Jesus dão a entender que, por causa de uma grande demora até a segunda vinda, alguns serão tomados pela desatenção (Mt 25.1-13; cf. 2Pe 3.3,4). Mas quando a parúsia finalmente ocorrer, será tão rápida que não haverá tempo para fazer preparativos (Mt 25.8-10) (Millard Erickson, 2015). Como afirma Louis Berkhof, “A Bíblia dá a entender que a medida da surpresa que haverá quando da vinda de Cristo será na razão inversa à medida da vigilância das pessoas”.

2.3 Triunfante e Gloriosa

Um dos pontos que mais causará impacto às pessoas quando Jesus Cristo voltar, é o modo como será sua vinda. Na ocasião em que pisou na terra pela primeira vez, Jesus não poderia ter vindo em posição mais humilde. Nasceu em um estábulo, guardado por animais e reverenciado por pastores. Cresceu em uma província do império que dominava o seu tempo, teve uma profissão não muito glamourosa, e morreu de forma mais vil e humilhante possível (Dt 21:23; Rm 8:3; 2 Co 5:21; Gl 3:12-14). Todo esse primeiro conceito a respeito de Jesus será substituído por uma vinda em toda a glória que somente o unigênito da criação possui. Ele virá nas nuvens com grande poder e glória (Mt 24.30; Mc 13.26; Lc 21.27). Ele estará acompanhado de seus anjos e será anunciado pelo arcanjo (lTs 4.16). Ele se assentará em seu trono glorioso e julgará todas as nações (Mt 25.31-46). O carpinteiro virá como Rei; a ovelha virá como Leão; o servo virá como Senhor; o réu virá como Juiz.

3. Certeza e iminência do evento

Assim como temos conhecimento das profecias cumpridas em Jesus em sua primeira vinda, e muitas outras no decorrer da história de Israel, podemos confiar plenamente que o que a Palavra de Deus anuncia sobre a Segunda Vinda de Jesus também se cumprirá. O grande ponto de discordância quando falamos sobre esse evento está na verdade, relacionado ao ponto de vista dispensacionalista e os demais. Para os dispensacionalistas, o arrebatamento da igreja pode acontecer a qualquer momento, sem prévio aviso. Isso ocorre principalmente por conta da interpretação que fazem de alguns pontos dos discursos do Messias sobre sua vinda, Millard Erickson lista os principais:

  1. Jesus instou seus discípulos a estarem prontos para sua volta, uma vez que não sabiam quando isso ocorreria (Mt 24—25). Se há outros eventos que devem ocorrer antes da volta de Cristo, tais como a grande tribulação, é difícil compreender o motivo pelo qual ele disse que a hora era desconhecida, pois ele sabia pelo menos que o retomo não ocorreria antes que tais eventos tivessem ocorrido.
  2. Destaca-se repetidas vezes que devemos esperar com ansiedade, pois a vinda do Senhor está próxima. Muitas passagens (e.g., Ro 8.19-25; ICo 1.7; Fp 4.5; Tt 2.13; Tg 5.8,9; Jd 21) indicam que a vinda poderia estar bem próxima, podendo, talvez, acontecer a qualquer momento.
  3. A declaração de Paulo, de que aguardamos nossa bendita esperança (Tt 2.13), exige que o próximo evento no plano de Deus seja a vinda do Senhor. Mas se o próximo passo for a grande tribulação, dificilmente teremos esperança ou alegria antecipada. Antes, nossa reação seria de medo e apreensão. Já que o retomo de nosso Senhor será o próximo evento no cronograma de Deus, não há motivo para que não possa ocorrer a qualquer momento.

Esses argumentos quando analisa à luz de todo o contexto escatológico não são plenamente satisfatórios, pois cabe uma pergunta simples, porém, necessária para tratarmos da questão: se a Segunda Vinda de Jesus pode ocorrer a qualquer momento, porque então, Jesus deu tantos detalhes sobre os eventos que a antecederiam?
O chamado à vigilância se trata de um ato de graça para que a Igreja do Senhor esteja atenta, preparada e obediente às Palavras do Noivo, do contrário, a Segunda Vinda seria não um ato glorioso, mas puramente punitivo, ou seja, uma ameaça. Viveríamos então, não com base em fé, mas com base no medo, algo que está totalmente em desarmonia com a revelação de Deus em sua Palavra. Os sinais são importantes pois, mantém em nossos corações a chama da esperança acesa, tal qual foi para os israelitas ao receberem a mensagem da vinda o libertador de Israel. Deus é constante, para entendermos o objetivo de suas Palavras em Jesus, precisamos nos atentar ao que o Novo Testamento manifesta a respeito.

Conclusão 

A Segunda Vinda de Jesus é um dos pontos que une as correntes escatológicas, tendo como diferença apenas alguns detalhes a respeito sobre o modo como cada uma interpreta esse evento. Apesar da ideia que temos de que pode ocorrer a qualquer momento, Jesus foi bem claro em anunciar quais os sinais que devemos nos atentar para mantermo-nos fieis e preparados para quando ocorrer, assim, se os sinais não se cumprirem, Cristo mentiu, e sabemos que isso é impossível de acontecer (Nm 23:19; 1 Sm 15:29; Rm 3:3; 9:6; 2 Tm 2:13; Tt 1:2 Tg 1:17).
Contrariando também o senso comum que vê Jesus como sendo um profeta morto e derrotado, sua Segunda Vinda se dará de forma surpreendente, e para aqueles que não participarem dos seus escolhidos, aterradora.

Referências Bibliográficas

Erickson, Millard. Teologia Sistemática. 1ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2015.

Grudem, Wayne. Teologia Sistemática ao Alcance de Todos. 1ª ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019.

McGrath, Allister. Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica. 1ª ed. São Paulo: Shedd, 2005

Ferreira, Franklin. Myatt, Alan. Teologia Sistemática. 1ª ed. São Paulo, Vida Nova, 2007

Berkhof, Louis. Teologia Sistemática. 4ª ed. São Paulo, Cultura Cristã, 2012

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