Correntes Escatológicas

Escatologia, infelizmente, é uma das áreas mais negligenciadas da teologia. Sendo sempre tida como uma doutrina de segundo plano, pela suposta impossibilidade de determinar e entender os eventos do futuro. Talvez, por isso, tenhamos tanto medo e receio quanto aos acontecimentos do fim. Aliado a esse receio, há também as interpretações fatalistas que mais assustam os crentes do que glorificam a Deus, como deveria ser. Nesse texto abordaremos alguns conceitos ligados à escatologia, que por sua vez, estão ligados às correntes de pensamento dessa doutrina.

O que é Escatologia?

A junção das palavras gregas eschatos que significa “último/final”, e logus que significa, “estudo/conhecimento”. Assim, Escatologia significa doutrina das últimas coisas. É um ramo de estudo específico, pois assim como a Palavra de Deus, fonte de toda a doutrina cristã, revela a respeito de Deus, Jesus e do Espírito Santo, também menciona enfaticamente sobre como será o final de todas as coisas. É provável que existem mais menções na Bíblia a respeito do final dos tempos do que da primeira vinda de Jesus, por exemplo. Logo, o estudo dessa disciplina é de extrema importância para o cristão.

Por que as correntes escatológicas divergem tanto entre si?

Assim como outros ramos da teologia, a escatologia também sofreu influência externa de correntes de pensamento contemporâneas aos teólogos que as iniciaram. Os eventos da história que mais influenciaram a doutrina do fim dos tempos, foram a instituição do cristianismo como religião oficial do Império Romano e o Iluminismo. O primeiro resultou na popularização do Amilenismo e o segundo, gerou a Teologia Liberal, que por sua vez, resultou em uma interpretação alegórica e ética das escrituras, gerando assim, o Pós-Milenismo. As divergências mais significativas se encontram na interpretação a respeito do Milênio, que é o período de mil anos que Cristo reinará sobre a Terra. Apesar de haver outras diferença quanto a outros eventos, tais variações estão ligadas a questão principal. Por isso, nesse momento, trataremos apenas dos assuntos ligados às visões do milênio.

Amilenismo – O Milênio Simbólico

Basicamente, existem dois tipos de Amilenismo, o Clássico e o Agostiniano. O primeiro, considera o Reino de Deus como sendo o domínio de Deus sobre os santos que estão no céu, fazendo de Deus, um reino também celestial, sendo este a referência para o que Jesus dizia sobre o Reino dos Céus. O segundo, considera que todas as promessas do Antigo Testamento já foram cumpridas na igreja, sendo esta o meio pelo qual Cristo reina no mundo. É a corrente defendida pela Igreja Católica Romana, que usando dessa interpretação produziu os conceitos de purgatório, limbo e outras doutrinas relacionadas aos mortos, como a intercessão dos vivos, por exemplo. São as características dessa corrente:

  • O Milênio é Simbólico – Cristo não reinará em pessoa, e a referência desse reinado não deve ser entendida como um período de tempo, mas como um evento em andamento com duração indefinida. Ou seja, os mil anos, são o reino de Cristo, não a duração desse reinado.
  • Interpretação alegórica das profecias – Nem tudo o que está escrito, é o que os profetas quiseram dizer. Sendo necessário, levar em consideração as limitações de escrita e também os desejos do autor que podem ter influenciado na mensagem final.
  • Surgimento no século 3 d.C – A principal causa da popularização do Amilenismo entre os teólogos, foi a consolidação do Cristianismo com religião oficial do Império Romano, pois acreditou-se que, a partir daquele momento, o reino de milenar de Cristo se iniciou na terra.
  • A Segunda Vinda de Cristo iminente – Os sinais relatos por Jesus que antecedem a sua vinda, são alegorias a respeito de acontecimentos que aconteceram ainda na era apostólica, não tendo relevância futura. Até mesmo os eventos narrados em Apocalipse já ocorreram durante a Era de Ouro do Império Romano. Assim, a Segunda Vinda de Jesus pode acontecer a qualquer momento pois o único acontecimento ainda pendente, é a volta de Cristo.
  • Pouco interesse escatológico – É bastante comum que amilenistas adotam uma postura mais displicente quanto ao estudo dos eventos do fim. Talvez as razões mais comuns para isso, sejam: (1) alguns pregadores famosos são amilenistas, havendo assim, uma espécie de adesão por associação; (2) a ideia de que todas as coisas já se cumpriram pressupõe que nos basta esperar pela última profecia.

Teólogos Amilenistas: Augustus Nicodemus, Hernandes Dias Lopes, Agostinho de Hipona, Geerhardus Vos, Louis Berkhof, Anthony Hoekema, Cornelis Venema, Kim Riddlebarger e Sam Storms

Pós-Milenismo – O Reino Presente

O pós-milenismo ensina que os mil anos de Apocalipse 20 ocorrem antes da segunda vinda de Cristo. Ou seja, esse período está em andamento em nossos dias. Atualmente, o Pós-Milenismo é muito semelhante quando comparamos alguns argumentos com os amilenistas. Entretanto, a principal diferença está na forma como vêem a natureza do milênio. Para o pós-milenista, o milênio é um período de tempo, para o amilenista é um evento em andamento. As principais características dessa corrente, são:

  • Pensamento Positivista – A ideia de que o reino é o tempo presente é entendido como uma forma de alavancar o crescimento desse reino em todas as esferas.
  • Teologia do Domínio/Sete Montes – É o pensamento por trás de campanhas e mensagens que afirmam que cristãos devem ocupar espaços de destaque como presidência, governos locais, conselhos de classe, lideranças comunitárias e afins, para que assim, possam exercer influência na sociedade, de modo a torná-la mais voltada aos princípios e valores alinhados ao evangelho.
  • Período de Paz após a cristianização das Nações – Uma vez que a ocupação e influência cristãs atinjam níveis globais de influência social e política, o mundo encontrará a paz.
  • Cristo volta para uma terra cristianizada – Uma vez que o evangelho atinge e influencia todas as nações, então Cristo volta.
  • Preterismo – Assim como o Amilenismo, entende que todas as profecias já se cumpriram e resta apenas a volta de Jesus a concretizar-se.

Teólogos Pós-Milenistas:  Jonathan Edwards, Charles Hodge, James Henley Thornwell, A.A. Hodge, B.B. Warfield, Loraine Boettner, J. Marcellus Kik, Kenneth Gentry, John Jefferson Davis, Teófilo Hayashi e Franco Júnior.

Pré-Milenismo Dispensacionalista – Um povo raptado

A linha escatológica mais famosa e conhecida. Ainda que você não conheça todos os pormenores da linha dispensacionalista, mas é muito provável que já ouviu o termo “arrebatamento”. Pois é, presente nas igrejas pentecostais e renovadas, o Dispensacionalismo surgiu no século 19, sendo bastante popularizado por conta da Bíblia de Referências Scofield, considerada por muitos a primeira bíblia de estudos. Com a enorme popularidade dessa bíblia, o crescimento dessa doutrina entre pregadores e pastores, era inevitável. Além do arrebatamento, o Dispensacionalismo tem como características:

  • Arrebatamento Secreto – Interpretação de que os crentes serão privados dos eventos a ocorrer a partir da tribulação. Essa doutrina não era conhecida até o século 19, quando Margareth MacDonald teve um visão de que alguns crentes seriam levados/arrebatados por Cristo para não sofrerem a punição divina. Essa doutrina foi “aperfeiçoada” por John Darby, que a transformou na ideia de que todos os crentes verdadeiros iriam ser poupados.
  • O Espírito Santo será removido da Terra – Uma vez que a Igreja de Cristo não se faz mais presente na Terra, o Espírito Santo que se move através dela também será retirado. O principal problema com essa abordagem é que, haverão conversões durante a Tribulação e a Grande Tribulação, mas a Palavra deixa claro que quem converte é o Espírito Santo, como haverão conversões se Ele for removido da Terra?
  • Jesus vem em dois eventos distintos – Jesus virá de forma secreta para os crentes (arrebatamento), e em outra vez em grande poder e glória ao final da Grande Tribulação para guerrear contra as nações.
  • Deus lida de forma diferente com Israel e com a Igreja – Deus tomará medidas diferentes para com os judeus e para os cristãos. Enquanto a igreja gozará de status privilegiado por não participar das aflições, Israel sofrerá como forma de redenção pela rejeição de Jesus em sua primeira vinda.
  • A Igreja é o Israel de Deus Na visão dispensacionalista, a história bíblica é dividida em sete (alguns dizem oito) dispensações/alianças, que tinham como objetivo apontar para o testamento que seria estabelecido com a igreja no sacrifício de Cristo. Assim, Israel deixa de ser protagonista do propósito de Deus, tendo servido apenas como sombra da aliança por vir.
  • Segunda Vinda Iminente A qualquer momento e hora, sem sinal ou profecia prévia, Jesus leva os crentes embora e inicia-se a tribulação para os que ficarem.
  • Futurismo – As profecias relacionadas à Segunda Vinda e o Reino de Cristo ocorrerão futuramente.
  • Milênio literal – Os mil anos de Apocalipse 20, são literais em tempo e natureza.

 

Teólogos Dispensacionalistas: John Walvoord, Charles Ryrie e J. Dwight Pentecost, Hal Lindsey e Tim LaHaye.

Pré-Milenismo Histórico – Esperando o que os Apóstolos esperavam

O Pré-Milenismo de modo geral, é a corrente escatológica mais antiga, sendo a abordagem dos apóstolos e também dos pais da Igreja. Franklin Ferreira em sua Teologia Sistemática, diz que “O chamado pré-milenismo histórico foi a posição dominante dos pais da igreja na teologia, entre os séculos II e IV. Entre esses pais da igreja, podemos mencionar Justino de Roma, Ireneu de Lion, Tertuliano e Cipriano”. São características dessa corrente:

  • Abordagem literal das profecias: Os eventos se darão exatamente como descritos na Palavra.
  • Inclusão de Israel no plano de Deus: Ao contrário do Dispensacionalismo que de certa forma, exclui Israel, na abordagem Histórica, a igreja passa a compartilhar do plano estabelecido para Israel. Não substituindo, mas fazendo parte do povo de Deus.
  • Jesus volta no fim da Grande Tribulação: A igreja participará dos eventos da Grande Tribulação, não sendo poupada como na visão dispensacionalista. A principal diferença se dá por conta de que, para os dispensacionalistas, a Grande Tribulação já é a ira de Deus sobre a humanidade, para os históricos, não.
  • O encontro com Jesus ocorrerá nos ares retornando com Ele à Terra – O arrebatamento descrito na Bíblia não se refere a um evento secreto, mas à volta gloriosa de Cristo. Os crentes mortos serão ressuscitados e os vivos no momento em que ocorrer, serão levados aos céus para se encontrar com Cristo, após um período, descerão à Terra para acompanhar o derramamento da ira de Deus sobre as nações.
  • Os eventos seguintes à descida de Jesus inauguram o Milênio – O derramamento das taças da ira de Deus e a caminhada de Jesus em direção à Jerusalém precedem o início do Milênio.

Teólogos Pré-Milenistas Históricos: Papias (discípulo do Apóstolo João), Irineu de Lyon, Tertuliano, Oscar Cullmann, Russel Shedd, George Eldon Ladd, Wayne Grudem, R.K. McGregor Wright, Millard Erickson, John Macarthur, Angelo Bazzo, Abner Pereira, Vitor Vieira, Victor Porto, Fábio Coelho e Daniel Esteves.

Para o estudo de escatologia, não é necessário ser especialista em todas as correntes escatológicas. Mas é importante saber algumas características de cada uma para se situar bem quando ouvir alguém falando sobre o tema e saber qual linha será seguida.Como pudemos ver, a corrente sobre o fim dos tempos que seguimos influencia diretamente em nossa teologia como um todo, e por consequência, em nossa relação com o nosso Senhor e com o Evangelho. Os próximos textos seguirão a linha Pré-Milenista Histórica, então já têm uma noção do que esperar.

Referências Bibliográficas

Erickson, Millard. Teologia Sistemática. 1ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2015.

Erickson, Millard. Escatologia: A Polêmica em torno do Milênio. 1ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2010.

Grudem, Wayne. Teologia Sistemática ao Alcance de Todos. 1ª ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019.

McGrath, Allister. Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica. 1ª ed. São Paulo: Shedd, 2005

Ferreira, Franklin; Myatt, Alan. Teologia Sistemática. 1ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2007.

Sartore, Andrei Matos. Escatologia (Fim do Mundo): Em Defesa do Pré-Milenismo Histórico. Disponível em <Reflexão Teológica>. Acesso em 20 de Julho de 202.

Celso Amaral

 

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