O cristão e as redes sociais

“Portanto, quer comais quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei para a glória de Deus.”
1 Coríntios 10:31

O ambiente virtual, comumente é visto como uma realidade alternativa na qual as leis e normas de conduta de nosso mundo físico não só não existem, como também devem ser postas à prova. Muitas vezes parece que a redes sociais, e a internet como um todo, são o habitat natural de trolls, fakes e assediadores, e que para pertencer devidamente a esse espaço, todos devem se converter nesse tipo de perfil. Entretanto, essa “regra” não vale – pelo menos, não deveria valer – para cristãos. Se somos chamados a não nos curvar diante do mundo em seu sentido físico, o mesmo se aplica ao virtual.

O que são as redes sociais?

Basicamente, qualquer rede social é uma estrutura composta por pessoas ou organizações, conectadas por um ou vários tipos de relações, interesses, valores , comportamentos e objetivos em comum. Algo como uma imensa teia que conecta os mais variados tipos de perfis. As redes mais famosas são Facebook, Instagram, Whatsapp (sim, o Whatsapp é uma rede social) e o Twitter. Mas existem inúmeras outras que funcionam de modo geral ou de forma direcionada como redes de músicos, escritores, leitores, vlogueiros e afins.

Como as redes sociais funcionam?

É bem provável que você, caro leitor, já tenha ouvido falar nas “bolhas sociais”, que são modos de isolar pessoas que possuam a mesma visão sobre um determinado assunto em um grupo, que por sua vez, se retroalimenta com informações que corroborem o seu ponto de vista. Essas bolhas são formadas com base em nossas interações com nossos contatos em cada rede. Vamos tomar o Facebook como exemplo.
Já reparou como apesar de possui centenas de amigos na rede do Zuckerberg, na sua timeline aparentemente aparecem as mesmas pessoas, e que essas, parecem falar sempre sobre o mesmo assunto? Isso ocorre porque os algoritmos de conteúdo servem para por em evidência assuntos com os quais tenha mais interesse, divulgados por pessoas que fazem parte de suas interações mais frequentes. As chances de comentar uma postagem de um conhecido é muito maior do que o fazer em um compartilhamento de um desconhecido, dedicando assim, mais tempo à rede e ganhando notificações como recompensa por sua dedicação.

O cristão nesse ambiente

O verso que usei como referência é um dos mais significativos para a nossa vida cristã devido à profundidade. O aparente anonimato proposto pela internet não deve, de forma nenhuma servir de base para cometermos qualquer pecado. É imprescindível termos em mente que a partir do momento que somos resgatados por Jesus, nossas vidas agora, não mais nos pertencem. Somos agora pequenos cristos evidenciando o poder e amor do Pai, testemunhando dEle por meio de nossa obediência. Devemos deixar de lado nossas preferências para glorificá-lo. Obviamente, à luz da Palavra, seremos capazes de entender quais aspectos de nossa personalidade apontam para Deus e resultam em ações para sua glória, assim sendo, nossas ações nas redes devem ser medidas pela mesma régua que medimos nossos atos fora do ambiente virtual.
Vigilância e oração não devem ser mantras repetidos apenas durante o culto, pelo contrário, todo o nosso viver devem ser pautados nessa ordenança, também na internet.

Cuidados ao utilizas redes

Abaixo, listo alguns pontos que são muito comuns encontrarmos nas redes mais famosas e que refletem muito de nossa cultura e são ciladas para cristãos desatentos.

  • Fake News  – João 8:44
    A mentira não provém do Senhor, muito pelo contrário. Dessa forma, devemos tomar muito cuidado com o que compartilhamos, afinal, a mentira expressa uma natureza incompatível com a verdade do evangelho. Se fomos chamados para sermos Cristo, devemos nos lembrar que Ele é a verdade, então, nós somos vozes da da verdade na terra. Se dizemos que Cristo é a verdade, mas mentimos, então a mentira que habita em nós exerce maior influência que o Espírito Santo. Nossas ações são reflexo daquilo que somos, e com a mentira não é diferente.
    Inúmeras pessoas são prejudicadas diariamente por conta de fake news em redes sociais, além de causar mortes. Para se ter uma ideia da gravidade do assunto, o Sarampo que era uma doença considerada erradicada no Brasil retornou, por conta do movimento anti-vacina que alega que as vacinas fazem mais mal do que bem, resultando em mortes pela doença que não eram registradas há anos.
  • Pornografia – 1 Coríntios 6:18
    Um dos perigos mais sutis das redes sociais é a pornografia soft, ou softporn. Essa “modalidade” de pornografia constitui-se da não exposição das partes íntimas explicitamente, entretanto, sugerí-las por meio de poses e fotos que valorizam o corpo, se apresentando como objetos de desejo, servindo de tentação para os seguidores ou contatos. Essa exposição é perigosa, por apresentar a intenção de despertar o desejo, porém, sob a fachada de pureza por não estar mostrando “nada”. Esse comportamento pode evoluir para os famosos “nudes” que por sua vez, podem ser divulgados para outras pessoas na internet. A pornografia seja em sua forma soft ou hard, são representações gráficas de nossa imoralidade sexual. Cristo alerta que não é necessário que haja o ato sexual para constituir pecado, bastando apenas a cobiça para tal (Mt 5:28).
  • Intrigas e Contendas – 1 Coríntios 14:33
    Não é muito difícil encontrar discussões acaloradas na internet, principalmente envolvendo crentes. Esse número fica mais em evidência ainda, por conta de o brasileiro ser o que mais dedica tempo às redes sociais e termos uma boa parcela da população se identificar como cristã. De política a batismo infantil, passando por cessacionismo e continuísmo, bem como o eterno embate de calvinistas e arminianos, é possível encontrar discussões sobre o mais peculiar dos temas. Discutir por si só não e o problema. O ponto-chave é o modo como se dá a discussão, muitas vezes partindo para uma as ofensas pessoais e ataques diretos, ignorando totalmente a pessoa que fala do outro lado, como se a única resolução possível para qualquer confronto fosse a humilhação pública do oponente.
    Para os cristãos esse tipo de conduta é incoerente, pois nosso real motivo para preocupação são as heresias e não qualquer divergência teológica. Mesmo aqueles que estiverem sendo responsáveis pela disseminação de ensinos contrários às Escrituras devem ser instruídos com paciência, e se ainda assim, negligenciarem o ensino devem ser ignorados e excluídos de conversas e citações, a não ser quando a referência servir de alerta para outros.

Como usar as redes, então?

Querendo nós, ou não, o tempo que dedicamos às redes sociais altera e influencia em nosso cotidiano, e por sermos seres vivos que compõem a igreja, essa conduta se reflete também no modo comungamos. Muitos aspectos negativos dos que já falei aqui têm impactado a igreja de forma igualmente negativa. A pornografia tem sido responsável pela destruição de casamentos e ministérios; as fake news têm colocado a credibilidade de pastores e líderes em cheque por adotarem narrativas convenientes a interesses terrenos ou políticos; as intrigas e contendas impactam diretamente no modo como vemos os irmãos que pensam diferente de nós em algum momento. Mas também existem coisas boas das redes sociais refletindo na igreja, nem tudo é feito de desgraças.
Por conta da pandemia do Novo Coronavírus tiveram que se readequar e transmitir seus cultos online por meio das redes. No twitter, a comunidade webcrente se mobilizou para que diversos canais de igrejas alcançassem o número de 1000 inscritos e pudessem assim, realizar suas transmissões por essa plataforma. Inúmeras páginas cristãs  divulgam e compartilham conteúdo de qualidade, como estudos bíblicos e devocionais diariamente. Então, podemos dizer que as influências no mundo real são dinâmicas, ora positivas, ora negativas. Mas isso não significa que não devemos usar de uma estratégia para alcançar mais pessoas com a mensagem do reino.

A importância da divulgação e defesa do Reino – Mateus 12:34

Outro item bem comum nas redes, são os crentes que dedicam seu tempo a falar mal da igreja e a fazer coro àqueles que querem derrubá-la enquanto instituição. Mas, curiosamente, postam versículos bíblicos e dizem desejar o crescimento do Reino. Nisso, podemos ver uma incoerência abismal. Afinal, como podemos atacar o local/reunião onde a Palavra de Deus é pregada e logo depois querer que alguém ouça nossa pregação? A igreja comete erros, seja por aqueles que são crentes verdadeiros, seja pelos lobos disfarçados de ovelhas. Entretanto, os erros da igreja devem ser julgados por ela própria, na assembleia dos Santos, não em redes sociais, onde o “debate” se resumirá a acusações, e no fim, não haverá conclusão prática. Se queremos usar a internet como meio de promoção do reino, devemos usá-la com inteligência.
Lembra quando falei das bolhas sociais mais acima? Pois bem, quantos conteúdos de páginas cristãs você leu no Facebook nessa semana? Quantos desses conteúdos você compartilhou ou comentou para ajudar no engajamento? Nem todo mundo tem tempo ou disponibilidade para criar e gerir uma página nas redes sociais produzindo conteúdo, entretanto, todos podemos colaborar para que aqueles que tenham essa disponibilidade e interesse possam alcançar mais pessoas. Defenda a igreja, pois ela é a representante de Cristo na terra, e caso você, leitor, se diga cristão, as críticas à igreja fundamentadas ou não, são a você também. Pois é sempre válido lembrar, pertencemos ao mesmo corpo.

Considerações Finais

Alguém que não me lembro o nome disse que as redes sociais têm o potencial de amplificar e dar voz ao pior de nós. O anonimato prometido, quando somado a uma cultura agressiva e hedonista nos leva a ver o mundo somente segundo nossos interesses e vontades, descartando tudo aquilo que poderia nos ajudar, mas que consideramos inútil simplesmente por uma questão de gosto.
O que é preciso ser feito então, é utilizar as redes como amplificador positivo de tudo o que é bom. A concupiscência dos olhos é a corrupção do que vemos, nos levando a buscar prazeres nos pecados que podemos consumar posteriormente, levando à concupiscência da carne. A que temos sido expostos e expomos a outros?
A vida cristã é fundamentada no objetivo de glorificar a Deus e por sermos as mesmas pessoas que vão à igreja e erguem suas mãos e utilizam o celular  ou notebook para nos apresentar ao virtual, devemos ter em mente que no ambiente, aparentemente, sem vigilância das redes sociais, temos a missão de glorificar a Deus da mesma forma por lá.

 

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