Evangelho: você sabe o que é?

A bíblia possui quatro livros que são chamados evangelhos. Dependendo da versão que possua em sua casa, pode ser ” o evangelho segundo…”, “o evangelho de…”, “evangelho escrito por…”, como forma de apresentação do conteúdo narrativo contido naquele livro. Talvez se você perguntar no grupo da igreja quantos evangelhos exitem, por conta, desses quatro livros a resposta “quatro”. A propósito, esse texto não tem como objetivo trazer uma nova definição de evangelho, pense nessa leitura como um esclarecimento de algo que muitas vezes soa abstrato em algumas falas que vemos por aí.

Quatro evangelistas, um evangelho

Os livros escritos por Mateus, Marcos, Lucas e João, com suas diferenças e semelhanças narrativas, possuem o mesmo objetivo: anunciar a vida e obra de Jesus Cristo. Entretanto, o conteúdo de cada um deles não deve ser visto como um relato biográfico. É muito mais correto dizer que se tratam de ministrações para diferentes tipos de público. Toda a revelação sobre a encarnação, morte, ressurreição e ascensão estão lá, porém, com detalhes diferentes, pois os públicos alvos sobre esse conteúdo eram diferentes. Em suma, a mensagem é uma só. Cada relato contribui para um entendimento melhor do outro, quando analisamos os quatro juntos. Vale ressaltar que, alguns dos primeiros cristãos possuíam cópias dos quatro livros para estudo e instrução à comunidade local.
Quando falo de uma mensagem harmoniosa e que contribui para o entendimento de um outro autor, me refiro ao fato de que situações implícitas em uma narrativa são expostas por outra, nem sempre se tratando do mesmo assunto. Parece confuso? Permita-me explicar. Particularmente o milagre que mais me fascina é o da moeda no ventre do peixe narrado em Mateus 17:24-27, que diz:

E, chegando eles a Cafarnaum, aproximaram-se de Pedro os que cobravam as dracmas, e disseram: O vosso mestre não paga as dracmas?
Disse ele: Sim. E, entrando em casa, Jesus se lhe antecipou, dizendo: Que te parece, Simão? De quem cobram os reis da terra os tributos, ou o censo? Dos seus filhos, ou dos alheios?
Disse-lhe Pedro: Dos alheios. Disse-lhe Jesus: Logo, estão livres os filhos.
Mas, para que os não escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, tira o primeiro peixe que subir, e abrindo-lhe a boca, encontrarás um estáter; toma-o, e dá-o por mim e por ti.

A grandeza desse milagre se encontra no fato de que Cristo sabia, em meio a uma possibilidade de milhares, talvez milhões, de peixes que habitavam o mar naquele instante, qual deles havia engolido uma moeda que possuía exatamente o valor necessário para cobrir os tributos de duas pessoas, e ordenou a esse peixe para que fosse ao anzol de Pedro. Nessa ação, vemos a onisciência e o poder do Senhor sobre a criação. para o judeu contemporâneo de Jesus, somente Deus possuía um poder assim. Mateus não dedica sua narrativa a expressar a natureza divina de Jesus da mesma forma que João o fez. Então, a explicação sobre a fonte dos poderes divinos de Cristo se encontram no relato de João, conforme relatado em João 10:30, onde ele afirma ser um com o Pai. Logo, não há diferenças seja de personalidade, atributos, poder e autoridade no que é apresentado nos quatro textos. O Jesus de Mateus não possui mais autoridade que o de Lucas, assim como o de João não é de forma nenhuma mais poderoso ou espiritual que o de Marcos, as tais discordâncias que os críticos apontam, estão mais relacionadas a situações e a personagens coadjuvantes, o que não impacta a concordância quando analisada personagem principal.

Por que quatro evangelhos?

De tempos em tempos bombas nas redes sociais alguns evangelhos antigos que segundo alguns, questionam a narrativa bíblica que conhecemos. De fato, existiram (e alguns existem até hoje) textos antigos que se propunham a narrar a história de Jesus de Nazaré. Acredito que o mais famoso destes seja o que leva o nome de Tomé. Há algum tempo, um suposto evangelho de Judas (o traidor) também virou tema de comentários, mas não é tão conhecido como o primeiro. O motivo pelo qual temos, quatro narrativas oficiais por assim dizer, diz respeito a fonte que gerou cada um deles.
Os chamados evangelhos apócrifos (não-oficiais), não foram escritos por testemunhas oculares do ministério de Jesus, nem por ninguém que tivesse contato com os apóstolos, sendo baseados em rumores, lendas e histórias passadas de boca a boca, sendo compiladas posteriormente por alguém que, em alguns casos, usou o nome de algum apóstolo para ter credibilidade, como é o caso do “evangelho” de Tomé, por exemplo. Os autores dos Evangelhos de Mateus e João foram escritos pelos próprios apóstolos, apresentando sua própria visão dos acontecimentos da vida de Jesus. Sobre o evangelho de Marcos, a possibilidade mais aceita é que ele se trata do ponto de vista de Pedro sobre os acontecimentos, enquanto que o de Lucas, é a análise investigativa do médico, junto a testemunhas e também dos apóstolos. Para mais informações sobre esse tópico, acesse.

O que é o evangelho?

A palavra evangelho vem do grego euaggelio, e significa “boas novas, boa notícia, bons rumores”. Nos tempos de Jesus, era empregada como “boas novas do imperador”. Antes de invadir um povo ou região, o Império Romano enviava emissários para alertar os habitantes e lideranças locais sobre a chegada iminente de um poder militar que não poderia ser contido. Caso os habitantes se rendessem, poderiam seguir com suas vidas e negócios servindo à Roma por meio do pagamento de tributos e a Império forneceria segurança e proteção contra inimigos, além de promover uma trégua para povos próximos que estivessem em situações de conflito. Caso houvesse uma negativa, o Império subjugaria a nação/cidade/povo e se iniciaria então uma relação abusiva, onde por meio da força, os aspectos culturais e religiosos seriam controlados por Roma. Durante os primeiros anos da Igreja era essa a referência do evangelho, uma trégua entre pecadores arrependidos e o Deus Santo e Todo-Poderoso, mas também um anúncio de que aquele que negligenciar a mensagem, prestará contas ao grande Juiz, mas sem direto de defesa (Jo 3:18). Quando o apóstolo Paulo escreve aos Romanos dizendo que o evangelho é o poder de Deus para salvação do pecador (Rm 1:16), e que por isso, ele não se envergonhava de anunciá-lo, nos faz compreender que não estamos noticiando meramente um padrão de comportamento ou uma salvação de graça, apesar de ela ser pela graça. Estamos anunciando algo do qual todo ser humano necessita por conta de sua condição caída e extremamente pervertida, algo que atinge tanto pobres quanto ricos, de todas as etnias, de ambos os sexos e de todas as idades. Um reino ou império terreno oferece salvação seletiva, privilegiando aqueles que podem oferecer-lhe melhores condições de manutenção do poder. O evangelho do Reino é diferente, resgatando qualquer um pelo mesmo preço: o sangue de Cristo.

O que não é o evangelho?

A falta de uma compreensão adequada, e principalmente bíblica, a respeito do evangelho gera algumas distorções não somente no conteúdo, mas também, no significado da mensagem. Por sermos seres literais, temos uma dificuldade imensa em enxergar o ponto de equilíbrio. Na compreensão do evangelho não seria diferente, infelizmente. Em nossos dias, o entendimento do evangelho é visto de forma radical. Não acreditando em nenhum tipo de responsabilidade do crente após a conversão ou confiando excessivamente nas próprias obras, quase removendo o mérito de Cristo na salvação do pecador.

  • O evangelho não é permissão para uma vida libertina – “hipergraça” é um termo que tornou bastante popular no twitter, após viralização de trecho das pregações de Deive Leonardo, Tiago Bruntet e Victor Azevedo. Basicamente, é a ideia de que uma vez que Cristo executou toda a obra redentora da cruz, não precisamos ter nenhum compromisso com os escritos do Antigo Testamento, ou com qualquer aspecto que constitua uma norma de nossa conduta. Tal desprezo é demonstrado nos discursos com ênfase em condenação de qualquer aspecto religioso, um apelo contra qualquer aspecto da tradição em nome da modernidade da igreja, afirmando também que, o conteúdo bíblico não possui relevância para os dias de hoje. O grande problema desta “teologia” é que, por ignorar a Bíblia e sua relevância para os dias atuais é que a bíblia alerta justamente para que não sejamos negligentes (Sl  17:4; 39:1; 119:8, 9; 1 Rs 2:4; 8:25).
  • O evangelho não é um conjunto de regras – na outra ponta, se encontram aqueles que acreditam que a salvação se dá, ou é de alguma forma mais garantida pela observância das leis judaicas. São os denominados “judaizantes”. Yom Kippur, Festa dos Tabernáculos, Pães Asmos, tentativas de ressurreição do ofício profético, estolas sacerdotais, candelabros e arcas da aliança são componentes do culto e objetos de adoração em igrejas. Curiosamente, não há relato de líderes de igrejas que usam elementos judaicos em seus cultos tenham sido circuncidados. Assim sendo, esse suposto zelo, não passa da necessidade de se aparecer diante dos homens, algo criticado por Tiago em sua epístola. A observância da Lei como referência salvadora, da mesma forma que a hipergraça é alvo de críticas pela Palavra que supostamente está sendo observada (vide o capítulo 3 da carta aos Gálatas).

Obedecemos às ordenanças morais do Senhor, não por confiarmos em seu poder salvífico, mas por sermos salvos. Dessa forma, evidenciamos que possuímos o caráter daquele que nos salvou, não apenas falando do que cremos, mas revelando essa salvação por meio da transformação promovida em nosso interior. Tal obediência é movida por necessidade, não gerando orgulho, mas humildade em nosso caráter. O ponto de equilíbrio é fundamental para o entendimento do que é evangelho. Uma vez entendido, é pregado de forma adequada. Qual o evangelho tem vivido, caro leitor? Hipergraça, Lei, ou o verdadeiro? A resposta te revelará a necessidade de mudança de caminho ou te motivará a permanecer no atual.

Celso Amaral

 

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