Os Nomes e Títulos de Jesus

Agora que já sabemos qual a fonte deve ser utilizada para que tenhamos um conhecimento correto sobre a pessoa de Cristo (para ler, clique aqui), hoje trataremos sobre os títulos que são usados pelos escritores bíblicos para nos darem um panorama de cada aspecto da natureza de Jesus.

Algo que não pode ser de forma nenhuma entendido na abordagem dos nomes e títulos de Jesus é que, tais menções aos papéis de Jesus, seja na esfera terrena, seja na esfera espiritual, são excludentes entre si. Em nenhum momento, o Soberano do universo deixa de ser Rei para executar a função de sacerdote e vice-versa. Para muitos esse pode ser um grande mistério, uma vez que nossa condição humana frequentemente nos lembra que é impossível com perfeição executar mais de um papel/função por muito tempo, quem o dirá o tempo todo. Mas como mencionei no texto anterior, o Cristo bíblico é imensamente superior a qualquer capacidade humana de criação humana, uma vez que por sua essência divina, Cristo em algum momento está em oposição às aspirações de auto-justificação humanas que tanto insistimos em perseguir.

O Cristo. O Messias.

Confesso que por muito tempo, acreditei que Cristo fosse uma espécie de sobrenome de Jesus, principalmente, por conta do modo como nossos nomes são constituídos no português utilizado aqui no Brasil. Mas, Cristo não é um nome e muito menos um sobrenome, trata-se de um título. Cristo vem da palavra grega Christós, que significa “Ungido”. Em hebraico, a palavra equivalente a christós é mashyiach, que possui o mesmo significado.
O título de Cristo/Messias não poderia ser passado a qualquer um. Quando os evangelistas entregam esse título a Jesus, eles estavam confirmando uma série de profecias sobre um indivíduo muito específico que possuía um poder que nenhum outro homem poder obter. No decorrer de todo o Antigo Testamento cada menção ao Ungido do Senhor, despertava nos corações dos ouvinte uma onda poderosa de esperança pela justiça de Deus que finalmente desceria sobre a nação de Israel. Não à toa, ambos os termos, tanto em grego quanto em hebraico, se referem a uma posição real ocupada por aquele que ostenta o título, sendo muito usado para se referir ao rei de Israel. Para se ter uma noção da importância do “Ungido”, o trono de Davi passou a ter muito mais significado e a linhagem real foi muito mais valorizada após Deus afirmar que tanto o seu trono quanto o seu cetro permaneceriam na linha do Rei para sempre (2 Sm 7:13). Ou seja, não foi o poderio bélico de Davi ou a sabedoria sobrenatural de Salomão que deram importância ao termo, mas o termo é que lhes conferiu um lugar de destaque no panorama geral da história dos israelitas.
Outro aspecto que não pode ser negligenciado, é o caráter sofredor do Messias/Cristo. Em Isaías, também conhecido como o “profeta messiânico”, temos a revelação do Servo Sofredor, aquele que levaria os pecados cometidos por seu povo diante de Deus e daria a eles a liberdade espiritual que tanto necessitavam. Essa característica é bem particular, porque retoma o ponto da singularidade do Ungido do Senhor. Quem mais teria condições de se apresentar em sacrifício vivo para a remissão dos pecados alheios? Essa tarefa não era para qualquer homem. Somente aquele que fosse preparado e tivesse o caráter divino não somente em sua mente mas em seu DNA poderia concluir com maestria uma missão tão árdua. Ao chamarem Jesus de Messias e Cristo, os evangelistas apontavam para aqueles que estavam recebendo essa mensagem e dizendo “o cativeiro passou, o Rei que tanto esperamos, finalmente está entre nós!”, dando ao mundo antigo a maior mensagem de libertação que poderia ser ministrada.

O Filho de Davi

Esse título é bastante lembrado principalmente, por conta de Bartimeu que estando em Jericó declarou que Jesus era o “Filho de Davi”. Mas o que isso significa e significava para o judeu nos tempos de Jesus? Sobre isso, temos o comentário de R.C Sproul:

O reino de Davi, no Antigo Testamento, foi a era dourada de Israel. Davi se distinguiu como herói militar e como monarca. Suas façanhas militares ampliaram as fronteiras da nação; Israel emergiu como um dos principais poderes do mundo e desfrutou de grande força militar e de prosperidade durante o reinado de Davi. Mas a era dourada começou a perder seu brilho no programa de construções de Salomão e enferrujou-se quando a nação se dividiu sob a influência de Roboão e Jeroboão. A memória dos grandes dias, porém, permanecia na história do povo. A nostalgia atingiu o ápice sob a opressão do Império Romano quando o povo da terra olhava para Deus à espera de um novo Davi que restauraria a glória anterior de Israel.

Sproul, R. C.. Quem é Jesus? (Questões Cruciais Livro 1) . Editora Fiel. Edição do Kindle.

Apresentar Jesus como Filho de Davi, constitua-se em reconhecer que o reinado de Davi finalmente se reegueria e que o povo judeu finalmente retomaria sua glória e lugar de destaques entre as nações mais poderosas, isso, se não fosse a mais poderosa de todas. Não foi nenhuma coincidência que Jesus tenha nascido na Tribo de Judá, e tenha parte na linhagem real de Davi, com os dois evangelistas que se preocuparam em traçar sua genealogia citando o fato de sua descendência. No evangelho de Mateus essa linhagem tem ainda mais significado, por conta de seu objetivo claro de apontar Jesus como o cumprimento de todas as promessas feitas pelo Senhor desde a queda de Adão.
Dar a Jesus o título de Filho de Davi é o mesmo que afirmar categoricamente que o Reino de Deus foi inaugurado nEle. Lendo isso, você pode pensar, mas se o Reino de Deus se inaugurou em Jesus, porque então, Ele fugiu todas as vezes que as multidões tentaram torná-lo rei? A missão de Cristo não era assumir um trono terreno e transitório. Ao Filho de Davi é dada toda autoridade, seja na terra, seja no céu.  O seu Reino foi construído às custas do seu próprio sangue, não com pedras e tijolos.

O Servo Sofredor

Sabe qual o profeta mais citado em todo o Novo Testamento, quer pelos evangelistas, quer pelos apóstolos em suas cartas? Ele mesmo, o profeta messiânico: Isaías. O livro de Isaías tem uma característica bem particular, todas as profecias estão no passado. Tomemos um trecho de sua descrição do Servo do Senhor: “Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido” (Is 53:3,4). Note o tempo verbal da profecia, todo no passado. É quase como se aquilo que Isaías estava escrevendo já houvesse ocorrido, o que nos leva às palavras de João em Apocalipse 13:8: E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.
O sofrimento do Servo do Senhor não é apenas uma situação casual, na realidade, tal martírio é o princípio que sustenta toda a realidade e garante para o seu povo a redenção de seus pecados. Tal foi a intensidade da aflição que somente aquele que já estava disposto a encará-la desde a criação do mundo poderia não somente suportar, mas também sair vitorioso da guerra contra a morte e o pecado. É por conta desse sofrimento que possuímos vida, e vida em abundância.

O Filho do Homem

O termo Filho do Homem é bastante intrigante, em certa medida. Pois, é o terceiro título mais usado em todo o NT para se referir a Jesus, ocorrendo 84 vezes, sendo 81 destas ocorrências nos evangelhos. Na maioria das vezes, o próprio Jesus usa o termo para se referir a si mesmo. O teólogo R.C Sproul acredita que o fato de os escritores dos evangelhos terem preservado esse título depõe plenamente a favor do relato do texto bíblico, uma vez que seria muito mais conveniente para uma narrativa humana, usar os títulos favoritos dos próprios escritores e não somente aquele que o Mestre mais usou. O que por consequência, reflete em uma fidelidade também da igreja primitiva em zelar a respeito daquilo que o Salvador disse de si mesmo.
O motivo pelo qual Jesus usou tal definição para si mesmo, é causa de alguns debates no meio teológico, com alguns argumentando que pode se tratar de humildade da parte de Jesus. Entretanto, quando analisamos a Palavra como um todo vemos que a ideia que Cristo quis expressar com essa alcunha, se tratava de uma forte afirmação de sua divindade. As referências para Filho do Homem, se encontram em Daniel e Ezequiel com mais frequência. Em Daniel, por exemplo, temos o seguinte relato:

Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele.
E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído.

Daniel 7:13,14

Pela descrição que o profeta apresenta, claramente, não se trata de um homem comum. No NT a preexistência de Jesus está intimamente ligada à essa imagem eterna e poderosíssima presente na descrição do Filho do Homem (Jo 3:13). Ao contrário do que muitos falam por aí, Jesus nunca escondeu sua divindade ou sobrepôs sua condição humana como sendo mais importante para os planos de Deus do que a sua natureza espiritual. Sempre que dito sobre si mesmo como sendo o Filho do Homem, havia a exposição de uma ação que somente um ser divino poderia executar.

Em verdade o Filho do homem vai, como acerca dele está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria para esse homem se não houvera nascido.
Mateus 26:24 –  Jesus frisando a gravidade do pecado cometido por Judas

E dizia-lhes: O Filho do homem é Senhor até do sábado.
Lucas 6:5 – Jesus reivindicando a autoridade até mesmo sobre o descanso do homem que foi algo do por Deus.

Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava?
João 6:62 – Jesus falando sobre o seu cálice e pão como referência à sua obra

O Senhor

Esse é o título mais elevado conferido a Jesus. Por conta desse título, cristãos foram presos, apanharam, foram torturados e até mesmo mortos. No primeiro século, nenhuma outra afirmação resultada em tantos infortúnios quanto dizer que Jesus é o Senhor. Para nós, “senhor” é uma palavra que expressa uma reverência comum, normalmente atribuída a pessoas mais velhas ou escalas sociais que são consideradas superiores. É também bastante utilizada no trato para com autoridades. É uma palavra tão corriqueira para nós hoje, que é quase sem significado. Contudo, para os cristãos do primeiro século, a palavra Senhor era algo muito mais poderoso.
Em grego, o termo que foi traduzido como “Senhor”, é kurios. Esse termo possuía três aplicações bastante comuns.  A primeira, era para representar a superioridade de outra pessoa sobre si, e a segunda, era o título dado a homens de classes sociais mais altas que possuíam escravos, ou seja, eram donos de outras pessoas. Mas a mais importante aplicação do vocábulo kurios, era o seu uso imperial. Neste caso, o título era aplicado somente àqueles que possuíam domínio ou soberania sobre um grupo de pessoas ou território. Essa aplicação possuía uma estreita relação com o Antigo Testamento, uma vez que kurios foi usada para traduzir Adonai do hebraico para o grego, sendo este o maior título atribuído a Deus, significando “Senhor sobre todas as coisas”.

O título Senhor é tão central na vida da comunidade cristã do Novo Testamento que em alguns idiomas a palavra igreja – do grego ekklesia – tem forma e som semelhante a kurios, como por exemplo: em inglês, church; em escocês, kirk; em holandês, kerk; em alemão, kirche. Todos com a mesma raiz, a palavra grega kuriache que significa “aqueles que pertencem ao kurios”. Portanto, nesses idiomas, a origem literal de Igreja é “as pessoas que pertencem ao Senhor”.

Sproul, R. C.. Quem é Jesus? (Questões Cruciais Livro 1) . Editora Fiel. Edição do Kindle.

A causa da morte de cristãos por conta do uso do termo kurios se dá principalmente por conta de que em dado momento, os crentes passaram a ser vistos como inimigos da ordem estabelecida de Roma. Na Roma do primeiro século, o culto ao imperador era uma prática mais do que comum, era uma ferramenta institucionalizada de controle da população em geral, dado que, o imperador possuía poderes praticamente plenos. Assim, era bem comum o uso de expressões que reforçassem a fidelidade para com o Estado Romano, através da declaração “César é senhor”, em grego, Kaesar Kurios. Porém, os cristãos não davam tal declaração pois viam autoridade máxima somente em Jesus, ao passo que declaravam “Ieosus ho Kurios”, ou seja, “Jesus é o Senhor”. Os cristão estavam dispostos a pagar os seus impostos devidamente, a honrar César até onde era humanamente cabível, mas a situação mudava de figura quando eram postos a creditar ao imperador toda a autoridade possível. O preço por sua fidelidade, foi pago com muito sangue e lágrimas. Ainda que diante da morte, a igreja primitiva se recusava a dar a um homem um poder que não lhe cabia.

Existem ainda outros inúmeros títulos que são mencionados na Palavra de Deus como sendo relativos a Jesus, e todos eles nos apresentam características a respeito de quem Jesus foi, e escondido em cada um deles, há diversos tesouros de discernimento que nos revelam coisas a respeito do Senhor, que colaboram para o entendimento geral não somente do que Cristo fez e foi, mas do que Ele pode fazer e, principalmente, quem Ele é.

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