Dualismo e Graça Comum

Porque dele, e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.
Romanos 11.36

A origem e sustentação de todas as coisas

Nesses tempos de caos e instabilidade que vivemos, é sempre bom lembrar a origem e a sustentação de todas as coisas. Nada passa despercebido, nem escapa da vontade de Deus. Na verdade, nada é possível se não for sua permissão ou decreto. Parece algo fácil de se lembrar e um mantra a ser repetido. Entretanto, como somos constantemente pegos de surpresa por algum evento do cotidiano, seja ele político ou social, acreditamos que Deus também o foi, e mesmo que seja por apenas alguns minutos, somos tomados por uma sensação de abandono.
É nele que nos movemos e existimos. Nada passa por fora de Deus, tudo está nele e existe por meio dele, e o fato de que todas as coisas foram feitas para Ele é que deveria ser o ponto de nossa segurança, pois expressa a causa e propósito de todas as coisas. O versículo que usamos como referência inicial aqui, possui uma riqueza espiritual bastante singular, pois, expressa não somente uma referência a ser decorada, mas para ser compreendida para basear nossa vida como um todo.

Porque dele – fonte
Por ele – sustentação
Para ele – alvo

Tudo tem sua causa nele, tudo é sustentado por ele, e tudo foi feito para a glória dele. Remova-o da origem de todas as coisas e a realidade não se sustenta em si mesma. O universo em todo o seu esplendor e beleza não faz nada mais do que revelar a glória daquele que o criou, e com isso, cumpre a sua função.
Os dias são maus, eu sei. Mas o trono está ocupado. O Grande Rei está posto, nada foge de sua regência. Não se desespere, apenas lembre-se que, ele é provedor de todas as necessidades, inclusive de fé e paz.

Dualismo

 Uma vez imersos no caos que é o nosso cotidiano, é bastante comum vermos pessoas buscando na divisão de todas as coisas como “sagrado” e “secular”, “santo” e “profano”, “espiritual” e “mundano” uma alternativa de sobrevivência espiritual. Colocar as nossas atividades rotineiras, como estudar, trabalhar, sair com a família, como uma situação fora do âmbito espiritual, limitando a vida com Deus apenas ao âmbito da igreja, é  o que chamamos de dualismo.
Deus é o Senhor de toda realidade, logo, tudo aquilo que fazemos, das atividades mais corriqueiras, até aquelas que consideramos fundamentais em nossas vidas, devem ser entregues como adoração e glorificação à Ele. O Senhor criou o mundo espiritual, o físico e deseja ser glorificado em todos os momentos. Toda as nossas ações devem ser voltadas e direcionadas para Deus. Não o deixamos de lado ao adentramos em nossos trabalhos, nem quando entramos em nossas salas da faculdade.
A Palavra do Senhor, diz:

“Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus.”
1Coríntios 10:31

Ou seja, nossa espiritualidade não se resume aos horários que estamos em culto ou envolvidos em alguma atividade da igreja. A adoração e comunhão com nosso Senhor devem ser constantes. Do momento em que abrimos nossos olhos ao acordar até o momento em que os fechamos para dormir.
Nossas palavras, nossas escolhas, nossa vida como um todo deve ser em louvor a Deus. Deus não quer que você pare de falar com alguém porque virou crente, mas sim, ser glorificado nessas conversas; Ele não quer que você pare de praticar algum esporte ou de torcer por algum time, o que Ele quer é ser Louvado mesmo nesses momentos; Deus não liga para qual curso você iniciou na faculdade, o que Ele quer de você é fidelidade durante os momentos que estiver lá.
Se dizemos que Deus é infinito, logo, não há espaço em nossa vida que Ele possa ficar de fora. Se agimos de forma a excluí-lo de determinadas atividades ou espaço, entramos em contradição.

Acima de Todos

Em Colossenses 1:15-19, na carta de Paulo para a igreja em Colosso, ele está exaltando a Soberania de Deus. Os versos do capítulo relatam a doutrina da criação e Jesus como redentor do Universo. “O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por Ele e para Ele”. .
Deus é o sustentador de um único mundo. Ele ama e se deleita em Sua criação. Quando compreendemos que o dualismo não pode ser sustentado na realidade de estar diante da face de Deus, passamos a fazer tudo como uma adoração para Ele. O Senhor não deseja que vivamos em nossa própria cultura cristã, mas que saibamos viver diante de Sua criação, O adorando em tudo que fizermos. O Senhor é dono de todas as coisas – tudo  é para glória dEle.
Combater o dualismo de nosso tempo é uma das necessidades mais urgentes da Igreja de Cristo. Alguém uma vez disse: “Não há um centímetro da criação o qual Cristo não clame como sendo dEle”. Quando a igreja remove de seu cotidiano qualquer coisa que possa ser taxada como “secular”, ela dá margem para que os opositores do evangelho queiram remover qualquer símbolo religioso da esfera pública. Esse é o motivo pelo qual vemos tanto se falar em laicidade do Estado em um sentido quase ateísta, remoção de crucifixos de prédios públicos, e também a remoção da frase “Deus seja Louvado” das cédulas de real. O secularismo reage da mesma forma que a Igreja tem agido nos últimos tempos, vendo na propagação de uma cultura ateísta o contraponto necessário para frear a influência cultural e moral da igreja no nosso tempo.
Tudo é de Cristo, por Cristo e para Cristo. Nossa característica como cristãos deve ser uma vida que apresente essa realidade, para que dessa forma, preparemos o caminho do retorno do Rei. Se dizemos que Cristo é Rei, então, anunciamos um reino sem limites de atuação, assim como O é, o seu soberano.

Nossa relação com a cultura

Quando temos o entendimento de que vivemos diante da face de Deus e que todas as coisas foram criadas por Ele (Sl 24: 1-2) e são para Ele, somos desafiados e encorajados a sermos excelentes e criativos em qualquer atividade.
A Bíblia nos conta, em Êxodo 31, à respeito do artesão Bezalel. Ele recebeu capacidade do Espírito Santo e plena habilidade artística para desenvolver qualquer tipo de obra artesanal e, por isso, foi um dos responsáveis pela construção do Tabernáculo. Ele podia trabalhar com qualquer material: ouro, metal e madeira. Com certeza Bezalel treinou muitos anos para se tornar excelente em seu trabalho. Assim, ele estava preparado quando o Senhor chamou-o e ele foi usado para marcar a cultura da época.
Esse é o convite do Senhor para nós: que nos tornemos excelentes em nosso trabalho para que estejamos prontos, quando Ele nos chamar, para serví-lo. Assim, estaremos aptos para atuar e transformar nossa cultura sinalizando Seu Reino. .
Curiosamente, muitas pessoas têm se preocupado com serem vistas como um braço cristão dentro de suas profissões, exemplos: “psicólogo cristão”, “advogado cristão”, etc. O errado está em assumir que aquilo que somos vem depois do que aquilo que fazemos. Não devemos pensar em ter uma profissão e como a desempenhar de forma cristã, o que devemos pensar é em como sendo cristãos desempenho minha função. Parece confuso, não é? Vou explicar melhor.
Nossas profissões e aptidões não são a parte dominante de nosso ser. Não definem nossa personalidade e caráter. Quando assumimos que possuímos uma identidade cristã, assumimos um novo caráter, uma nova natureza, que passa a ser a parte dominante de nosso ser, nos dando uma perspectiva, e em alguns casos, um novo comportamento, que influencia em nossa personalidade, pois agora há uma nova mentalidade sendo exercida continuamente. .
Por isso, devemos estar dispostos a ser cristãos melhores, obedientes e fiéis, como Bezalel, para que no momento que nossos talentos e habilidades forem externados, as pessoas e a cultura à nossa volta sejam impactadas positivamente. Afinal, na essência do que fazemos, está o que somos.

A maravilhosa graça comum

Quando nos rendemos ao dualismo e a uma oposição do secularismo de forma muito agressiva, corremos o risco de não nos atentarmos às manifestações diárias da graça de Deus, mesmo usando meios seculares. Um tema bastante discutido é a possibilidade de crentes ouvirem músicas seculares. Os mais “fervorosos” alegam que devemos estar em constante consagração –  o que não está errado. Entretanto, se prender a isso pode resultar no legalismo que anula a graça comum. Se crentes não podem ouvir músicas seculares, logo não podem usar roupas fabricadas por pessoas que não são cristãs, nem comer alimentos que tenham sido manuseados por pessoas que não convertidas, afinal, ou a consagração é total ou é inexistente.
Usando um exemplo musical para explicar a graça comum, temos a música The River da banda de rock Good Charlotte, cujo refrão diz o seguinte em sua tradução:

Batizado no rio
Tive uma visão da minha vida
E eu quero ser entregue
Na cidade era um pecador
Eu fiz muita coisa errada
Mas eu juro que creio
Como o filho pródigo
Eu estava por conta própria
Agora estou tentando encontrar o caminho de volta pra casa
Batizado no rio
Estou entregue
Estou entregue
The River – Good Charlotte

A banda em questão, não é assumidamente cristã (se é que o é, de fato). Porém, ainda assim, toda a composição se trata de uma mensagem de arrependimento e retorno para a casa do Pai. Nesse tipo de manifestação é que vemos a graça comum. Deus se revelando aos não-alcançados de formas próprias e para alguns de nós, cristãos fervorosos, surpreendente. Obviamente, devemos filtrar o que ouvimos e consumimos, o que nos leva ao ponto seguinte.

Uma vida consagrada

A Bíblia nos ensina como devemos viver e como podemos nos relacionar com sua Criação. Ela também nos guia e exorta. Por isso, diariamente necessitamos nos aprofundar na leitura das Escrituras e no conhecimento de quem Deus é. O próprio Espírito Santo nos capacita para entender a Palavra, conduz à toda verdade (Jo 16:13) e ensina como viver de modo a glorificar a Deus em todas as coisas. .
Como filhos e filhas que vivem diante da face de Deus, podemos corajosamente ousar de forma criativa e trabalhar em qualquer esfera da sociedade que estivermos. Impactar de forma efetiva e colocar a serviço nossos dons e talentos. Pelas diretrizes da Palavra, é que sabemos qual o conteúdo é digno de atenção e até mesmo de abordagem para louvor do Senhor, e qual deve ser descartado sumariamente.
Ter uma vida consagrada não é estar em constante êxtase espiritual, mas como salvos em Cristo, somos acompanhados pelo Espírito Santo todo o tempo. O Espírito Santo não é como a iluminação de nossas casas que ligamos e desligamos como se tivéssemos um interruptor. Sua presença é constante, nós é que no dia-a-dia tendemos nos esquecer disso.

Lembre-se: para Ele toda a Glória.

Celso Amaral

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