Sobre púlpitos e políticos

Sejamos francos, esse texto era para ser desnecessário. Gostaria que o fosse, assim talvez, pudéssemos rir da situação como sendo um absurdo que não se aplica ao contexto da Igreja do Senhor. Mas, assim como infelizmente, denunciar os atos indulgentes de líderes neopentecostais, faz-se necessário também, apontar os erros de crentes tradicionais. Recentemente, o Reverendo Emerson Ferreira desafiou fieis a assinarem uma inscrição partidária participando do processo conhecido como apoiamento, que nada mais é que o recolhimento de assinaturas de membros da sociedade para que um partido político possa ser criado – o partido em questão, o Aliança pelo Brasil. Não se trata de um partido qualquer. Caso venha a ser criado, será o futuro partido do atual Presidente da República Jair Bolsonaro. A ação por si só já é bizarra, pois, há um princípio que precisamos não somente zelar, mas defender, até mesmo por ser este o responsável por nos dar liberdade de culto e de proselitismo, que é o preceito da laicidade do Estado. Para entendermos bem a seriedade do que foi feito na Igreja Presbiteriana Central de Londrina, precisamos entender alguns pontos, vamos a eles.

Estado laico, o que é?

Laico significa o que ou quem não pertence, ou não está sujeito a uma religião ou não está influenciado por ela. O termo “laico” tem sua origem no grego laikós que significa “do povo” (fonte). Ou seja, quando falamos em defender um Estado Laico, ressaltamos a importância de que a instituição responsável por promover o equilíbrio social deve ser neutra sob aspectos religiosos. Entretanto, a laicidade do Estado não deve ser entendida como justificativa para a defesa de um Estado caracteristicamente ateu. O que quero dizer com isso? A laicidade é o que permite direitos religiosos básicos, tais quais, proselitismo, culto, confissões públicas de fé, ostentação de objetos religiosos em espaços comuns e afins. Isso falando apenas de aspectos da religião cristã. Levando para outras formas de crença, a Laicidade do Estado garante a liberdade para o sacrifício de animais de religiões de matriz afro; a reunião para contato com entidades e mortos em centros espíritas; encontros de satanistas; rituais de bruxaria; que muçulmanos orem voltados para Meca; judeus e adventistas guardem o sábado, etc. Um Estado fundamentalmente ateu, como alguns defendem, além de negar essas liberdades, as criminaliza, assim sendo, nessa condição se opõe ao sagrado e transcendente.

Por que trouxe essa definição?

Obviamente, nenhuma igreja ou instituição religiosa defenderia um Estado Ateu assim como não defenderia um Estado Religioso. O ponto que muitos cristãos, inclusive alguns que se identificam como reformados não entenderam, é que a restauração de nossa nação, como muitos desejam, não passa por Brasília. Muitos vêem no governo Bolsonaro a solução para os problemas da igreja, como se o Messias no nome do meio do presidente fossem um título divino. O púlpito é um local de pregação da Palavra, somente. Somente Cristo deve ser anunciado no púlpito. A própria origem e intenção de criação do Partido Aliança pelo Brasil, tem motivação bastante questionável, uma vez que houve um racha no antigo partido de Bolsonaro, o PSL, e aparentemente, está havendo uma guerra para beliscar uma fatia do famigerado fundão eleitoral. Valores familiares? Valores cristãos? Desde quando dinheiro tem relação com esses?

O canto da sereia

Que a igreja brasileira é alvo de ações e de interesse político não é de hoje. Leonardo Boff, o profeta do petismo, bastante militou de dentro da Igreja Católica nos anos 90 para promover um alinhamento de convicções entre igreja e petismo, tendo como seu messias a pessoa de Lula. Da mesma forma que lideranças tanto de dentro quanto de fora da ICAR se opuseram a tal comportamento, devemos fazer o mesmo dentro das igrejas evangélicas. A Teologia do Domínio (ou dos Sete Montes, como alguns a chamam), é uma doutrina pautada na ideia de que membros de igrejas devem ocupar posições de liderança na sociedade para poderem influenciar a cultura e comportamento para que se alinhem à moral cristã. Isso não é bíblico, pois, nada mais é que uma visão terrena do Reino de Deus atribuindo à igreja uma responsabilidade que não é dela. Qualquer influência da igreja na sociedade se dá de forma à parte do Estado. A igreja existe, resiste e persiste apesar do Estado Democrático de Direito. O Reino que pregamos é o reino vindouro, sob o comando de Jesus Cristo, Rei dos reis e Senhor dos Senhores, não é um governo chefiado por homens tão corruptos quanto qualquer outro, o Reino de Cristo é eterno. Não podemos jamais nos esquecer disso.

A aliança da igreja não é com o Brasil, apesar de ela cuidar dele. A aliança da igreja não é com o presidente, apesar de orar por ele. A aliança da igreja não é com a cultura, apesar de influenciá-la com seus valores. A aliança da igreja é com Jesus Cristo! A igreja não deve se comportar como alguém que, desesperado por afeto e afagos, instala o Tinder buscando o candidato que mais preenche seus requisitos à procura do “match” ideal. A igreja já é compromissada. Ela não está solteira. Ela está noiva, e em breve vai se encontrar com Ele, e Ele, vai pedir contas das vezes que a sua prometida flertou com outros.

A Noiva de Cristo, aquela que é santa, imaculada e acima de tudo, fiel. Sabe quem é o seu amado, e para Ele, é que ela se prepara e aguarda. Os demais, nem vale a pena mencionar.

 

Celso Amaral

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *