Ídolos Modernos: Relacionamentos

Não sou muito forte em conhecer músicas românticas, mas, conheço pessoas que se desmancham ao ouvir várias vezes a mesmas baladas que fazem o coração bater mais rápido. Aparentemente, a música romântica que retrata certos relacionamentos parece fazer ainda mais sucesso. Certa música diz assim em um de seus trechos (obs. não concordo com ela, muito menos aprovo seu conteúdo, é apenas um exemplo):

Quem eu quero, não me quer
Quem me quer, não vou querer
Ninguém vai sofrer sozinho
Todo mundo vai sofrer
Igual eu preciso dele na minha vida
Mas quanto mais eu vou atrás, mais ele pisa
Então, já que é assim
Se por ele sofro sem pausa
Quem quiser me amar
Também vai sofrer…

(Todo mundo vai sofrer, Marília Mendonça)

Há um desejo popular de busca pelo sentimento de realização e felicidade no relacionamento. Mesmo que inconscientemente, todos desejam sentirem-se amados por alguém, nem que seja ser amado por si mesmo. Alguns relacionamentos neste meio passam inclusive a serem exaustivos e abusivos.

Não há dúvida que não seja pecado amar e desejar ser amado. O apaixonar-se, em certo ponto, é bíblico. Salomão retrata o caminho do homem que se enamora por uma moça, é correspondido e visto pelos de fora. Porém, tem se tornado comum encontrar homens e mulheres não se sentem felizes a menos que alguém esteja apaixonado por ele(a). Não suportam ficar só, ainda que isto envolva permanecer em um relacionamento abusivo.

Um relacionamento que exige algo além do que lhe é cabível, se torna um relacionamento idólatra. Faz com que o outro busque em um relacionamento algo que só Deus pode oferecer. Timothy Keller nos lembra que “algo bom se tornou um deus falso quando as exigências que impõe a você ultrapassam os limites apropriados”[1].

Quando o relacionamento se torna um ídolo, todas as prerrogativas que a Bíblia nos alerta sobre os falsos deuses são transmitidas ao outro. Um relacionamento idólatra pode levá-lo a “quebrar promessas, a racionalizar indiscrições ou a trair alianças a fim de se manter agarrado”[2] a ele.

Sob o domínio de um senhor

Recentemente o termo “codependência” tem tomado conta de palestras e prateleiras da seção de autoajuda nas livrarias. Pode-se perceber o uso constante deste recente “jargão” nos consultórios de psicologia. Qual seria a melhor definição então para a codependência? A Bíblia aponta que o problema é mais profundo do que podemos definir. Portanto, procuremos entender “não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas com palavras ensinadas pelo Espírito, interpretando verdades espirituais para os que são espirituais” (1Co. 2.13 NVI).

            Lou Priolo define este fenômeno não tão recente assim, da seguinte forma:

Na verdade, várias palavras bíblicas o descrevem. Em termos mais gerais, o conceito de codependência parece se encaixar melhor na categoria bíblica de “idolatria”: buscar que alguém ou algo faça por mim aquilo que somente Deus pode fazer. Em se tratando de um tipo de pessoa caracterizada por esse tipo específico de comportamento, o diagnóstico mais preciso é “alguém que vive para agradar pessoas”.[3]

A idolatria do “outro” faz com que a pessoa negligencie Deus, trocando-o por um substituto num “temor desordenado por perder algo”[4]. A codependência idólatra busca a todo custo aprovação dos homens, somando-se a isto, medo de perder o respeito, ser rejeitado e deixar de ser amado.

O temor do homem, sob a forma de amor romântico, tem a capacidade de dominar a vida, coração e imaginação. “Até quem evita por completo o amor romântico, em razão de amargura ou medo, na verdade está sendo controlado por seu poder”[5].

O poder de quem domina o coração

Quando buscamos realização pessoal em um ídolo, neste caso, em uma pessoa, estabelecemos um relacionamento pactual muito semelhante ao relacionamento que devemos ter apenas com o Deus verdadeiro[6]. E neste relacionamento, há expectativa de ser abençoado pelo ídolo. Fitzpatrick afirma que “possuir relacionamentos piedosos é uma benção e fonte de alegria, e não há nada pecaminosos em desejar isso; mas se desejos assim se tornarem sua fonte de alegria, se eles se tornarem a maior prioridade de sua vida, então eles se tornaram seu deus[7].

O apóstolo Paulo, em Romanos 1.21-25, apresenta a idolatria como um pecado que está fundamentado no coração humano. O solo do coração é um terreno fértil para produzir ídolos. Ele afirma que os homens “substituíram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram à criatura em lugar do criador” (v. 25).

Como saber então se alguém, que não Deus, está dominando meu coração e direcionando minha forma de viver? Atentemos para uma lista de sintomas[8] que se manifestam. Claro, não é uma lista completa, mas a presença destes sinais deve fazer com que nos convençamos de que há algo tóxico em nosso coração:

  1. Temer agradar às pessoas mais do que desagradar a Deus
  2. Desejar o louvor dos homens acima do louvor de Deus
  3. Estudar o que é necessário para agradar aos homens tanto quanto (se não mais que) o que é necessário para agradar a Deus
  4. Discurso é elaborado para seduzir e bajular as pessoas para que pensem coisas boas a seu respeito
  5. Acepção de pessoas
  6. Demasiadamente sensível à correção, repreensão e outras alusões de insatisfação ou reprovação da parte dos outros
  7. Prestar aos homens um serviço apenas externo, enquanto estão olhando, em vez de um ministério interno e sincero (de coração) ao Senhor
  8. Usar egoisticamente a sabedoria, habilidades e dons que lhe foram dados para a glória de Deus e o benefício dos outros para a sua própria glória e benefício
  9. Investir mais de seus recursos pessoais no estabelecimento de sua própria honra do que o que o faz para estabelecer a honra de Deus
  10. Descontentamento com a condição e a proporção que Deus lhe designou

Nosso coração foi criado para amar e adorar exclusivamente a Deus, porém, o pecado deturpou a adoração humana. Então, não presumo se adoramos ou amamos algo ou alguém, pois, de fato, já o fazemos. A questão é descobrir a quem adoramos e amamos acima de todas as coisas. Como diria Agostinho, nosso coração é “inquieto”, e só encontrará repouso quando descansar no único verdadeiro Senhor.

O engano e o fracasso dos ídolos

Uma premissa verdadeira é que, assim como todo ídolo, um relacionamento idólatra, irá nos frustrar. Todo ídolo irá fracassar, nos decepcionar e impor a nós um jugo pesado demais, além do que possamos suportar. Ele levará seus escravos além do que desejam ir e os aprisionará mais tempo do que pretendem permanecer. Os ídolos são senhores cruéis.

Quando se deposita toda esperança de realização, sucesso, alegria e amor em pessoas, mais do que em Deus, o caminho para a decepção começa a ser trilhado, e diante disso, quatro atitudes podem tomadas erroneamente[9]: culpar tudo o que o decepciona e tentar passar para outras coisas melhores; culpar-se e martirizar-se; culpar o mundo; e, o melhor caminho, reorientar completamente o foco de sua vida para Deus.

Esperança para um relacionamento melhor

Mas é possível libertar-se desse comportamento viciante! Jesus Cristo sacrificou Seu desejo para agradar a Deus e redimir os Seus. Você que luta com o desejo de adorar outros deuses, escravizando-se sob o jugo de um relacionamento idólatra pode ter esperança nEle:

Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se de nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado (Hb. 4.15)

Confessar necessidade e pecado humilha o coração orgulhoso e idólatra. Por mais que o falso deus de seu relacionamento tenha o aprisionado, a obra de Cristo e a ação do Espírito Santo tem poder para esmagar as correntes que o aprisionam. O arrependimento sincero é agradável a Deus. A salvação que Cristo oferece não é alcançada pelo poder, mas recebida em humildade.

Revestir o coração de adoração unicamente a Deus é o passo seguinte. Isso pode envolver mudar o lugar onde trabalhamos, os amigos com quem convivemos, e a busca por um conselheiro bíblico, que pode ajudar a reorientar a adoração. Ter alguém a quem prestar contas é importante para ajudar nos momentos em que somos tentados.

Saber que Deus deve estar no trono de nosso coração. Marido, filhos, parentes, amigos, são pessoas importantes e legítimos em nossa vida, mas somente Deus é digno de nossa adoração e lealdade. Eles irão nos frustrar. Deus promete jamais nos abandonar.

O amor não é um sentimento que pode ser recebido como troca de favores. Cristo oferece amor perfeito e gracioso, demonstrado em Sua obra (Rm. 5.8). O amor que você precisa só poderá ser encontrado nAquele que foi fiel até a morte, e morte de cruz. A aceitação que você precisa é Deus que pode oferecer, e foi conquistada por Cristo na cruz. Assim, dobrar-se aos pés da cruz, como o Peregrino, de Bunyan, o levará a aliviar-se do fardo que talvez esteja carregando em seus relacionamentos.

[1] Keller, Timothy. Deuses falsos. p. 48.

[2] Ibid, p. 48.

[3] Priolo, Lou. O desejo de agradar outros. p. 23-24.

[4] Ibid, p. 27.

[5] Keller, p. 55.

[6] Fitzpatrick, Elyse. Ídolos do coração. p. 26.

[7] Fitzpatrick. p. 26.

[8] Priolo. p. 28-44.

[9] Keller, p. 62

Vinícius Mello é Pastor auxiliar na Igreja Cristã Evangélica Ebenézer (S.J.Campos/SP), Técnico em Informática pela Univap (Universidade do Vale do Paraíba), Bacharel em Teologia pelo Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (Cetevap), com Complementação Teológica pelo Seminário Teológico Cristão Evangélico do Brasil (Seteceb). Serviu como professor no Instituto Bíblico Batista Independente (S.J.Campos/SP). Atualmente é professor de EBD, escritor e conselheiro do Blog Cristão Racional.

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