Ídolos Modernos: Eu

A palavra Idolatria vem de dois radicais gregos, eidolon (ídolo, imagem mental, corpo) + latreia (Serviço, adoração), sendo traduzido e habitualmente utilizado como “adoração a ídolos”. Comumente quando pensamos em ídolos ou idolatria, logo imaginamos deuses, pessoas em procissão, rituais macabros e etc., mas e quando o “EU” se torna ídolo na existência humana?

Todos nós conhecemos a história de Narciso da mitologia grega, um jovem de beleza estonteante que ao negar seu amor a ninfa Eco o mesmo é amaldiçoado a se apaixonar por si próprio, ao ver seu reflexo nas águas de uma fonte, mergulha para abraçar aquela figura e morre afogado, ou seja, Narciso morreu de amor por si próprio. No final do Séc. XIX O psiquiatra Paul Näcke utilizou o termo Narcisismo pela primeira vez na psiquiatria para se referir a uma pessoa que projeta em si mesmo seu objeto de amor, observado isso como uma perversão na psiquiatria e mais tarde utilizada pelo psicanalista Freud ao se referir a sexualidade humana.

Temos duas condições muito importantes a ser introduzida a esse texto, primeiro refere-se à necessidade de autossatisfação do EU, o pecado Adâmico foi uma busca da autossatisfação ou autoafirmação como citado por D. M. Lloyd-Jones (1995, p.37) “E, naturalmente, isso tudo provém do seu amor próprio. É a auto-afirmação do homem, o posicionamento do homem contra Deus, o seu desejo de ser deus.” (Reconciliação: Método de Deus – Exposição sobre Efésios 2.). Neste primeiro ponto a necessidade do EU ser alimentado, saciado, precisando ocupar uma posição de deus na existência humana. Este primeiro ponto muito ligado ao narcisismo supracitado, onde o que interessa é a minha satisfação, o meu prazer, o meu desejo, é uma inversão de Mateus 22:37-39, onde temos uma sequência: 1º Amar a Deus, 2º Amor ao próximo. O ídolo moderno tem substituído essa posição aonde anulo a ordem dada por Jesus e coloco o EU como o centro do meu amor, como centro do meu desejo e objetivo central da minha existência.

O egoísmo e o egocentrismo vêm como combo neste ídolo, e aqui faço a diferenciação dos dois, o primeiro é o indivíduo que só pensa nele e anula a existência do outro, no segundo é o indivíduo que pensa que tudo gira em torno dele e até a existência do outro (que aqui não é anulada) só serve para favorece-lo, pensamentos como estes tem distorcido a visão de reino e de evangelho, pessoas que não aceitam mais a verdadeira palavra do evangelho por ser uma palavra “dura demais”, onde falar de renúncia, de mudança de vida é algo inaceitável para uma geração egoísta e egocêntrica, egoísta porque não abrem mão dos seus desejos para viver o evangelho de Cristo e egocêntricos porque o Evangelho precisa me favorecer. Isto não é apenas em relação ao evangelho, mas em todas as coisas, vejamos, quando eu só acho que o outro é importante ou inteligente quando o que esse outro fala vai ao encontro do que eu acho legal, do que eu acho certo, isso é apenas uma projeção narcísica, é mais uma forma de autoafirmação, autossatisfação, uma adoração ao EU. Isto foi o que aconteceu em João 6:60-66 quando aqueles que estavam com Jesus que iniciam pedindo um sinal e pedindo o pão que Jesus tem para oferecer, logo em seguido o abandona, porque o que Jesus falou não foi ao encontro daquilo que eles queriam. A idolatria ao EU pode justificar o crescimento desenfreado de pregadores de autoajuda, mensagens antropocêntricas, cujo único objetivo é alimentar o ego, fazer com que o homem se sinta unicamente e suficientemente bem.

A idolatria do EU não se resume apenas no narcisismo, pois o termo Narcisismo é contextualizado para um olhar voltado para si mesmo, a pessoa que ama se vê, se idolatrar, anular a existência do outro, como uma mistura de egoísmo e egocentrismo, sem parcela de culpa, por isso ressalto que a idolatria do EU é mais do que um narcisismo, pois hoje o indivíduo não se contenta em se vê, mas precisa que o outro o veja, não se contenta apenas em se idolatrar, mas agora alguém tem afirmar essa idolatria. Coincidentemente na semana que escrevo este artigo o Instagram resolveu deixar de mostrar o número de likes nas publicações, o que causou algumas discussões sobre como isso ajudará as pessoas, e talvez, a melhor discussão não é como isso ajudará as pessoas e sim, como isso remediará um problema social já existente.

A necessidade de que o outro me veja não é apenas uma necessidade de aceitação, mas sim de alimentar em mim mesmo a certeza de que sou admirado, idolatrado, buscar entender o que a sociedade deseja tornar-se mais importante do que entender o que Deus deseja, do que o Evangelho ensina. Vemos uma briga por padrões e estereótipos de beleza que chega a ser espantoso, homens que deixam todos ao seu redor e se isolam nas suas academias, mulheres que em busca de um padrão de beleza perfeito tem uma realidade distorcida de quem são. Ao afirmar isto não tenho como objetivo criticar pessoas que se cuidam, que vão a academia porque gostam de se exercitarem ou fazem para ter uma vida saudável, mas quando eu faço isso para que o outro me veja, estou alimentando o meu ídolo moderno.

Todo ídolo precisa ser “materializado” no caso do EU não seria diferente, se os filisteus tinham o templo de Dagon, os gregos em Atenas tinham o templo de Zeus, o ídolo moderno EU não poderia ficar sem seu templo, e as redes sociais sem dúvidas se tornou esse templo. Pessoas que em busca de likes, para afirmar seu ídolo moderno, estão dispostas a qualquer coisa, se arriscar em um penhasco, com animal selvagem, ou quem sabe, ignorar um culto para tirar selfie com o irmão do lado, com o cálice da ceia, pois não interessa a esse indivíduo entender o significado da ceia, o que importa para esse indivíduo é que o outro veja quão “espiritual” ele é, e assim os ídolos modernos vão entrando nas nossas vidas, nas nossas famílias e nos nossos cultos.

O EU não é idolatrado apenas quando eu anulo a existência do outro, quando sou egoísta ou egocêntrico, o Eu também é idolatrado quando me preocupo mais como o outro vai me vê, se meu corpo está dentro dos padrões, se minha roupa é a que todos estão usando, quem sabe quantos elogios receberei, e nisto afirmo mais uma vez, se você tem condições de comprar a melhor roupa, compre! Mas compre porque você quer fazer e não porque é uma condição necessária para ser “amado” pelo outro, para ser visto pelo outro. Jesus em um ato de condenar a religião fingida dos Fariseus afirma: “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de todo tipo de imundície.” (Mat. 23:27) ou seja, indo ao encontro do tema central desse texto, a idolatria do eu é quando eu me preocupo de mais com o exterior, mas sou vazio no interior.

Pessoas que mais se preocupam na visibilidade do outro, não importando a essas pessoas se estão seguindo o propósito de Deus ou não, o que importante é quem eu sou, em contrapartida o evangelho nos ensina “É necessário que ele cresça e que eu diminua.” (Jo. 3:30), “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.” (Gálatas 2:20) e para finalizar o texto tenho necessidade de citar I.Co. 10:31 “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus.”, precisamos ter o cuidado de entender que uma vida cheia de coisas, mas vazia de Deus é uma vida vazia de tudo, uma vida que todos me admiram, mas que Deus não é glorificado é uma vida sem sentido, uma vida onde todos me admiram, mas não conseguem ver Deus na minha vida é apenas um templo de um ídolo moderno: EU.

Wemerson Silveira é Psicólogo, extensão em psicoterapia fenomenologia-existencial;  Pós-graduando em filosofia pela USCS; Presbítero na AD. Belém; Formação teológica pela FAESP; Escritor e Palestrante.

Autor dos livros: “Conhecendo Deus em meio ao sofrimento” e também “Luto e a igreja: uma reflexão do cristão diante da perda e do sofrimento humano”

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