Ídolos Modernos: Personalidades

Sempre que alguma celebridade do mundo da música faz turnê no Brasil, surge o debate sobre idolatria, por conta dos fãs ficarem dias, semanas e em alguns casos até mesmo meses na fila para comprar o ingresso e garantir os melhores lugares para verem o seu ídolo. Se vestem, falam e imitam qualquer gesto ou ação do objeto de sua adoração. Ao contrário do que muitos podem pensar, o termo “ídolo” para se referir a alguma celebridade é empregado da maneira correta. Biblicamente falando, “ídolo” é tudo o que, ou quem, ocupa o lugar de Deus em nosso coração. E quando vemos o modo como as pessoas se desesperam diante da possibilidade de não mais verem os objetos de sua devoção, seja por motivos fúnebres, seja por motivos problemas com a lei, podemos ver então, como esses, de fato, se tornaram deuses nos corações daqueles que os seguem.

A natureza da adoração

Adorar a algo é muito mais do que simplesmente elogiar seus feitos, fazer petições, ou agradecer por qualquer situação/benção atribuído à divindade. Uma adoração sincera, envolve um comprometimento e entrega do próprio futuro. Todas as virtudes que não conseguimos enxergar em nós mesmos, buscamos no ídolo. Se não temos uma voz angelical e arrebatadora, buscamos cantores que tenham tal qualidade, não importando o teor das suas canções; se não temos uma aptidão para tocar algum instrumento, corremos para instrumentistas que sejam talentosos o bastante para se destacarem na multidão. Mas não é apenas no meio e por virtudes artísticas que o culto à personalidades se manifesta.

Nas últimas eleições, vimos o país se dividir em dois extremos que não tinham nenhum pudor em se digladiar e atacar um ao outro, chegando ao ponto de nessa disputa, usarem como arma principal, a mentira. A idolatria no coração daqueles que viam em Lula ou Bolsonaro como salvadores do Brasil, foi tão intensa que o maior instrumento utilizado, foi justamente a filha do Diabo. Não é por acaso também, que costumeiramente, vemos pessoas comparando os políticos em questão como arquétipos de Cristo, como se Jesus fosse um Deus distante, totalmente alheio, ouso dizer que, para essas pessoas, o Messias, é apenas um nome, a cruz apenas um símbolo de uma crença bonita que até pode inspirar por um tempo, mas nunca transformar a natureza pecaminosa em algo mais. Até porque, para que o ídolo ocupe satisfatoriamente o posto no coração do idólatra, nada mais pode ser mais poderoso, por isso exclui-se Deus. Essa projeção cega em políticos se dá pelo mesmo motivo que na classe artística, porém, numa esfera até mesmo mais íntima. Enquanto que, ainda que não se possua um talento natural, por meio de algum estudo e dedicação pode ser alcançar habilidade e técnica para as artes, mas o mesmo não acontece quando o que entra em cena é um jogo de moral e virtudes. Cada um dos dois lados monopolizou para si pautas que iam além do aprendizado e mexiam com o ser de cada um dos eleitores, afinal, ninguém quer ser visto como alguém imoral ou não se preocupa com o bem-estar alheio, e assim, por conta do culto à personalidades, a nação se dividiu. Primeiro em dois lados, inicialmente. Esquerda e direita. Depois, cada lado passou a ter suas próprias divisões, mas isso é tema de um texto futuro. Nesse vamos nos ater às personalidades.

Ídolos exigem sacrifícios.

Uma das obras modernas mais interessantes dos últimos tempos, a meu ver, é Deuses Americanos de Neil Gaiman. No romance em questão, o escritor aborda a silenciosa guerra entre os velhos deuses (Anansi, Odin, Bilquis, Vulcano, Leprechaum, Banshee…) contra os novos deuses (Mr. World, Media, Technno Boy, Mr. Money…) pela adoração dos seres humanos. Adoração essa que fortalece os deuses à medida que ganham devotos. Tanto na série quanto no livro, é possível identificar um traço comum em cada um desses ídolos, cada um exige uma espécie de sacrifício, mas de forma bem diferente do que sabemos da antiguidade. Se antes, os Vikings sacrificavam cavalos em honra a Odin para invocar a sua presença, hoje, nós temos um sacrifício menos visceral, mas não menos intenso.

De tatuagens, a dias na fila de espera para comprar um ingresso extremamente caro, os rituais de adoração dos fãs aos objetos de adoração, carregam a mesma intensidade e envolvimento emocional das adorações pagãs dos primeiros séculos. Não é difícil encontrar pessoas que testemunhem terem recebido algum favor de seu ídolo em uma linha muito mais transcedental, quase como um milagre. É o caso de Carl McCoid, de 39 anos, que afirma que a cantora Miley Cyrus o ajudou durante um processo de divórcio. Como forma de agradecimento, ele gastou mais de R$ 2.950,00 fazendo homenagens em sua pele. Ele publicou nas redes sociais diversas tatuagens com referências da cantora, inclusive o seu nome. Uma outra prática comum na antiguidade para se obter o favor de ídolos, era a adoção de algum nome já usado por uma divindade. Algo semelhante, foi feito por Linda Resa alterou seu nome legalmente para Sra. Kanye Resa West, em homenagem a ao cantor Kanye West. Quando questionada o motivo, ela disse que queria mostrar a Kanye o quanto o amava.

Essa busca frenética por projetar em pessoas tão pecadoras e falíveis quanto nós, uma divindade que as mesmas não possuem, é um dos sinais mais evidentes de que vivemos em uma cultura imediatista, que não apenas não enxerga, mas faz questão de negar a existência de qualquer lampejo da eternidade, buscando em referências humanas, a elevação de nosso status atual, pois são mais facilmente alcançados.

Culto à personalidades na igreja

Infelizmente, isso não se demonstra apenas fora das paredes da igreja. Quando olhamos para o cenário evangélico atual, temos um cenário bem semelhante, vemos pessoas citando negligentemente Mt 7.1 para acobertar as heresias de seus pastores e “pregadores” preferidos. Não é difícil ver pessoas defendendo ferrenhamente os pretensos “homens e mulheres de Deus”, até mesmo atribuindo a eles, o ato da salvação do pecador. Em uma postagem publicada no Instagram do Cristão Racional, na legenda há o seguinte texto: A pior coisa que se pode fazer a uma pessoa, é convencê-la de que a chave para a alegria que tanto busca, está nela mesma. E se tratava de um meme que criticava o teor humanista das pregações de Deive Leonardo. Confesso que, quando li alguns comentários fiquei chocado, perguntando em quem estava então, a chave para a tão sonhada alegria. Ou seja, essas pessoas apesar de ouvirem o nome de Jesus saindo da boca do pregador, não o reconhecem como sendo a suprema razão da existência, e não vêem nEle os atributos necessários para enxergá-lo como fonte de alegria! O próprio Jesus fez um alerta quanto essa adoração superficial e hipócrita, relembrando o que foi dito pelo profeta Isaías:

O Senhor diz:
“Esse povo se aproxima de mim com a boca e me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. A adoração que me prestam é feita só de regras ensinadas por homens.”
Isaías 29:13,14; Mateus 15:8,9

Mas há também o contrário. Quando não se ignora Jesus dessa forma, tentam passar por cima dele. Existem teólogos na internet que se dizem reformados, mas colocam Calvino acima de Cristo, condenando qualquer um que não se identifique dentro da teologia calvinista, afirmando que irão ao inferno, como se o Calvinismo fosse cláusula-pétrea para a eleição divina, indo contra um dos pontos principais do calvinismo, a eleição incondicional. Esses, como bem disse recentemente em uma pregação o Rev. Augustus Nicodemus não passam de “cães de aeroporto”, que são treinados para viverem em uma busca frenética e desenfreada por heresias de forma tão intensa, que é provável que se fosse possível tirar essa opção de suas vidas, simplesmente não saberiam mais o que fazer com seus dias.

Devemos sim, respeitar as autoridades civis e eclesiásticas. Devemos acompanhar ensinamentos dos teólogos de nosso tempo desde que, estejam debaixo da mão e direção de Deus. E como sabemos se estão ou não? Pela Palavra.

O que a bíblia diz a respeito da idolatria a personalidades?

Lendo a Palavra você não vai encontrar em letras garrafais “não idolatre pessoas”. Mas através de uma leitura atenta conseguimos encontrar instruções para evitarmos cometer esse pecado. Em Jeremias 17:5, por exemplo, encontramos:

Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do Senhor!

A confiança referida aqui não se trata de uma confiança de um amigo, como muitos acreditam, e até dizem que devemos evitar confidenciar-nos com outras pessoas. Esse ensino é bastante enganoso e vai contra o que o apóstolo Tiago afirma em sua carta (Tg 5:16). O que o Senhor diz para não fazermos é, entregar a nossa salvação ou resgate na mão de outro homem. O termo usado pelo profeta em hebraico é batach, que dentre os seus significados está: “estar seguro, fazer confiar, tornar seguro, sentir-se seguro a ponto de ficar totalmente despreocupado”. A confiança condenada pelo profeta, era aquela que deveria está voltada para o Senhor. Judá se encontrava em um pecado tão intenso que as chances de reforma e restauração eram mínimas. Os versículos 1 até ao 4 são uma referência à tendência dos reis judeus de buscarem auxílio do Egito contra a Babilônia, nações poderosas e melhor estruturadas belicamente. Uma situação não muito diferente do que notamos atualmente, onde vemos crentes buscando em sistemas políticos e econômicos soluções que deviam buscar em Deus. Uma confiança excessiva em homens que se apresentam como arautos da verdade e da obra do Senhor, mas que na verdade, possuem um coração igualmente corrupto e falido como qualquer outro na história da humanidade. As consequências para tal idolatria é mencionada no verso seguinte:

Porque será como a tamargueira no deserto, e não verá quando vem o bem; antes morará nos lugares secos do deserto, na terra salgada e inabitável.
Jeremias 17:6

O homem por si só não tem nada a oferecer a outro (e quando falo homem, me refiro também a sistemas humanos) que não seja apenas uma projeção de si mesmo, logo, pecado. Quaisquer que sejam as virtudes que escolhamos mostrar ou salientar para outros, essa capa não é capaz de ocultar nossa natureza pecaminosa e auto-destrutiva que em algum momento será revelada, seja de forma intencional ou não. Assim sendo, não seremos capazes de dar frutos, de alimentar a outros, apenas produziremos fome, seja ela material ou espiritual, pois o nosso coração sem a ação do Senhor, não passa de pedra.

E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne;
Para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os cumpram; e eles me serão por povo, e eu lhes serei por Deus.
Ezequiel 11:19,20

O que fazer, então?

Precisamos não apenas repetir aos quatro ventos que adoramos ao Senhor. Precisamos viver essa adoração, e não o fazemos se buscamos nos homens meios e fins que deveríamos buscar em Deus. O verso de Jeremias que trata de uma árvore plantada no deserto é uma revelação do que temos quando nos afastamos do Senhor confiando apenas em pressupostos humanos. O Salmista Davi já havia deixado como mensagem para os israelitas onde deveriam buscar vida e abundância:

Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.
Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite.
Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará.
Não são assim os ímpios; mas são como a moinha que o vento espalha.
Por isso os ímpios não subsistirão no juízo, nem os pecadores na congregação dos justos.
Porque o Senhor conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos ímpios perecerá.
Salmos 1:1-6

Os padrões de Deus são elevados por sua natureza santa e incorruptível. Sendo assim, inalcançáveis por esforços humanos, não importando o quão intensos sejam esses esforços. Devemos nos desesperar por não termos os predicados necessários para alcançar a glória eterna? É preciso então buscar em artifícios humanos os meios para a redenção e nova vida? De forma nenhum! Deus já proveu para si o sacrifício necessário para aplacar sua ira, e nesse sacrifício eterno, temos o mediador perfeito e soberano entre a santidade de Deus e o pecado de seu povo: Jesus Cristo.

Que possamos nos abster dos ídolos, e ter uma vida para Ele, por Ele e por meio dEle, como devem ser todas as coisas (Romanos 11:36).

Celso Amaral, é casado com a Silvana Amaral; congrega na Igreja Batista em Cristo; é fundador do Blog Cristão Racional, administrador dos perfis do blog nas redes sociais; estudante de Teologia em tempo integral; Professor de Escola Bíblica Dominical; graduando em Gestão Comercial pela Faculdade Anhembi-Morumbi; e escritor do E-book Relevantes como o sal, Resplandecentes como a luz, disponível para download na Loja Kindle da Amazon.

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