Podemos chamar Deus de “você”?

Recebi uma mensagem via direct do pessoal da Mocidade da Igreja Batista Central no instagram, com a pergunta que dá título a esse texto. É uma pergunta interessante, e bastante pertinente, afinal, o contexto evangélico constantemente fala sobre intimidade, mas, até que ponto vai essa tal intimidade?

A bíblia

Para entender como devemos tratar Deus, precisamos recorrer à sua própria revelação, no caso, a Bíblia, e através dela não vemos em nenhum momento, Deus ser tratado como sendo amigo, encontrando-se sempre na posição de Senhor. Temos exemplos de homens como Adão, que no único diálogo registrado na Bíblia, por conta do pecado, teme sua nova condição diante de Deus , e que não usa o pronome “você” (Gn 3:10). Um outro exemplo de intimidade também, é o próprio Moisés (Nm 12:6-8). Mesmo chegando o mais próximo que um humano tem de contemplar a glória de Deus, nunca se referiu a Deus como sendo um amigo íntimo. Mesmo quando confrontou a decisão de Deus de aniquilar o povo no caso do bezerro de ouro, é possível notar reverência ao se dirigir a Deus (Êx 32:11).

Quando chegamos aos profetas a coisa fica ainda mais delicada. Vemos homens que foram chamados para o ofício (Is 1:1; Jr 1:5), temerem por suas vidas ao vislumbrar a glória de Deus, simplesmente pelo fato de serem de naturezas opostas (Deus é santo e nós somos pecadores) (Is 6:5; Jr 1:6). Mas você pode perguntar, “e os discípulos, como eles tratavam Jesus? ” bom, por mais que eles tenham andado com Jesus por três anos ainda assim, por mais moderna que a tradução da Bíblia seja, ainda podemos ver que Jesus era tratado como Senhor mesmo pelos mais próximos a Ele, incluindo sua mãe e seus irmãos (Mt 16:16; Jo 2:5; 6:68; 11:27) .

E o pronome “Tu”?

Sendo a segunda pessoa do singular, é natural que pensemos no tu como uma referência (às vezes até uma permissão) para o uso de você como referência a Deus. Aqui, entra uma salada de frutas de idiomas, decorrente das recentes adaptações de músicas gospel americanas para o cenário/público brasileiro, e também a inclusão pronome em traduções da bíblia, para facilitar a compreensão dos leitores. Isso acontece por que o You, segunda pessoa do singular em inglês, serve tanto para o “tu” como para “você”. Então, quando chegamos ao momento da tradução, os intérpretes vêm melhor uso do “você” do que do “tu” ou de outro pronome mais formal, principalmente por conta do método de composição e harmonia de músicas. Os americanos utilizam um método mais voltado para palavras de sons parecidos e não que rimam necessariamente, como acontece nas composições do Brasil.
Algo muito semelhante acontece com a tradução da Bíblia. Como atualmente, muitas versões mais modernas são traduzidas diretamente da King James Version, há esse uso do “you” não como sendo uma referência de conjugação verbal, mas sim de tratamento propriamente dito. Em hebraico o sujeito fica oculto, não possuindo o “tu” que direciona a qualidade, segue o exemplo abaixo:

“Tu me guias com o teu conselho, e depois me receberás na glória.”
Salmos 73:24

Se usarmos um método de tradução literal, o mesmo versículo fica, assim:

 “Guia-me com o teu conselho, e depois me receberás na glória.”
Salmos 73:24

 Notou que não há uma aplicação tão íntima como tendemos a pensar? Podemos dizer que o tu, nada mais é que uma facilitação da compreensão do sujeito, para leitores menos atentos ao contexto geral do texto. Basicamente, nas referências que temos em português que usam o tu  para identificar o sujeito da frase, no caso, Deus, não existe na escrita original no Antigo Testamento. Em grego, a referência para Senhor, é “kyrios” que também é usado para se designar alguém que tem autoridade máxima sobre outras pessoas. Perfeitamente aplicado a Cristo. É o termo usado para se referir a Jesus, nas seguintes referências:

E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.
Mateus 16:16

Hoje, na cidade de Davi, vos nasceu o Salvador, que é o Messias, o Senhor! 
Lucas 2:11


Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna.
João 6:68

Disse-lhe ela: Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo.
João 11:27

Chegamos então, a um outro fator para o uso frequente do “você” para se referir a Deus: o cultural.
Vivemos um momento da história humana, no qual, seres pecadores e totalmente desprovidos de virtude buscam com todas as forças se colocarem num patamar acima do que lhes cabe naturalmente. Para chegar a Deus, tem se ignorado totalmente a pessoa de Cristo para favorecer o coração e suas “boas” intenções, reduzindo Deus à posição humana, para que em nossas próprias Virtudes possamos alcançá-Lo. Ou seja, diminui-se Deus e engrandece-se o homem na mesma proporção para que estes se encontrem no meio do caminho, ignorando totalmente o papel de Jesus como mediador. Tudo isso, sem passar por Cristo que é quem intercede junto ao Pai por nós, e nos revela sua glória. Essa inversão de valores e da doutrina fundamental do cristianismo (a ação intercessora de Jesus) é capaz de destruir uma igreja de dentro para fora. E infelizmente, é o que temos visto.

Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.
O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo.
1 Timóteo 2:5,6

Não podemos nunca nos esquecer de que somos servos do Senhor, e como tal devemos nos referir a Ele com a devida reverência e temor. Ele é o Santo, Justo, Perfeito e Fiel. Nós, o oposto disso. Quem pode nos tornar aceitáveis a Deus, é o próprio Jesus, aquele que igualmente, possui a glória e autoridade do Pai.

Antes, exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado;
Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim.
Hebreus 3:13,14

Nosso foco de intimidade deve estar na obediência daquele que possui todo o poder seja no céu, seja na terra.

E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra.
Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém.
Mateus 28:18-20

Celso Amaral

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