Hatfields, McCoys, você, eu, e a Cruz

A Netflix tem nos disponibilizado séries muito boas de acompanhar, e sinceramente, tantas outras que são dignas de maratonas. Recentemente estive procurando no catálogo, filmes e séries que envolvessem histórias de faroeste, ou como meu pai costumava dizer, “bang-bang”, e encontrei uma que me chamou a atenção por sua narrativa. A minissérie leva o nome que se tornou cultural na América para descrever conflitos: Hatfields & McCoys. Acredito que você deve se lembrar de alguns episódios do Pica-Pau em que dois homens brigam o tempo todo! Pois é, uma referência a esse conflito.

Esta minissérie norte-americana possui apenas três capítulos (de pouco mais de uma hora cada um), foi baseada na rivalidade entre a família Hatfield e a McCoy, sendo produzida pelo History. Este conflito, ocorrido no final do século XIX, envolveu duas famílias na divisa dos estados norte-americanos de Virgínia Ocidental e Kentucky, iniciou com as desavenças entre Anse Hatfield e Randall McCoy, que eram amigos e lutaram juntos na Guerra de Secessão do seu país. Mais tarde, quando cada um retornou aos seus lares e famílias, tem início uma longa, violenta e brutal rivalidade de 28 anos, que custou a vida de membros das duas famílias[1].

Ao assistir esta minissérie, os ideais de honra, justiça e vingança sendo levadas até as últimas consequências são vistos como motivadores para suas atitudes em prol de manterem seus nomes familiares honrados.

Pode-se perceber ao longo da narrativa que houve tentativas de pacificar a situação, tendo inclusive, ameaças de intervenção do governo. Mas foram tentativas fracassadas. A história se encerrou apenas em junho de 2003, quando representantes das famílias se reúnem para assinar um acordo onde colocam fim neste conflito centenário.

Não é de se duvidar que este mundo seja um campo minado de conflitos. Esta coisa acontece em todos os lugares, com todos os tipos de pessoas, o tempo todo. Guerras de classes, de raças, grupos sociais, esquerda e direita, calvinistas e arminianos. Conflitos leves e conflitos pesados. As redes sociais que o digam! Parece que desde o jardim do Éden o homem está fadado em viver em conflito. E não é de se esperar menos: este é o efeito do pecado.

Missões de paz têm sido levantadas constantemente para resolver estes tipos de conflitos. Mas quer saber de uma coisa? A maioria falha. Algumas, falham gravemente! O apóstolo Paulo, no entanto, escrevendo aos Efésios, no capítulo 2, trata de uma missão, A MISSÃO de paz que resolve o conflito do homem.

A cruz de Cristo não apenas se limita trazer paz entre o homem caído e o Deus santo e justo. A obra de Cristo traz paz para o conflito entre o homem e os homens. Entre você e eu. Se a ligação entre o homem e Deus estava rompida pela pecado, tanto mais estava rompido o relacionamento entre os homens que formariam a Igreja. Isto esta bem explícito na igreja de Eféso, no caso de judeus e gentios.

Os cidadãos naturais de Éfeso, cidadãos gregos, zombavam dos que não tinham sua mesma nacionalidade e cultura, chamando-os de pagãos, e, os judeus por sua vez, chamavam os gentios de incircuncisão, por não possuírem a marca da aliança de Deus com Seu povo. Havia dois motivos que alegravam um pai judeu zeloso, em particular: seu filho não nascer mulher nem gentio.

O evangelho da cruz então anuncia o único pacto de paz, o verdadeiro e eficaz meio de o homem estar em paz com aquele com quem formaria a Igreja de Cristo. Essa sim é a maior missão de paz da história: Deus reconciliando judeus e gentios num único corpo e, assim, reconciliou o mundo consigo mesmo por meio de Jesus. Cristo destruiu toda inimizade que existia.

Esta nova posição da comunidade cristã obtida pela reconciliação em Cristo é o fundamento para uma vida em unidade. Aqueles a quem Deus reconciliou consigo mesmo, agora são capacitados para serem cidadãos de um novo Reino.

Os gentios eram espiritualmente falidos: “… estáveis naquele tempo sem Cristo, separados da comunidade de Israel, estranhos às alianças da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo.” (Ef. 2.12). Eles não tinham a esperança pactual do Messias. Eles não conheciam o Cristo que salva. Eles estavam separados da esperança, sem perspectiva de salvação.

Sua crença divina apresentava apenas deuses caprichosos, zombeteiros, e muitas vezes cruéis, que apenas desciam à terra para abusar deles na maioria das vezes.

Será que existe um caminho para encontrar a paz tão almejada? Será que a paz é possível para o ser humano? Sim, o próprio Cristo! (Ef. 2.14-17).

A palavra grega para “reconciliação” (katallassein), usada pelo apóstolo Paulo, tinha o sentido de trocar dinheiro ou trocar por dinheiro. Depois passou a representar a troca da inimizade pela amizade, ou seja, unir duas partes que estavam em conflito.

Paulo então usa a ilustração de uma casa, um edifício bem construído e arquitetado. Os crentes em Cristo Jesus são semelhantes a este edifício construído “sobre o fundamento dos apóstolos e profetas”. Agora, tanto gentios quanto judeus, tem todo o direito de cidadania celestial, são tijolos nesta construção, cuja pedra principal é Cristo, proclamado pelos apóstolos.

Assim, agora gentios e judeus, eu e você, unidos pela cruz, compartilhamos todas as áreas da vida comum e da atividade do corpo, pois, todo crente é advertido do perigo do cristianismo individualista. Não existe a igreja do “eu sou a igreja” (apesar de alguns tornarem esta expressão em algo parecido com o que Groot fala, como último representante da espécie). O Novo Testamento sempre apresentará o ideal único e verdadeiro de “nós somos a Igreja”.

            Agora, unidos em Cristo, que destruiu toda barreira de inimizade, seja ela, racial, cultural ou social, aqueles que são lavados por Cristo, são membros da família de Deus. E, como membros de um só corpo, lutam juntos pela fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos. Somos um em Cristo. Temos o mesmo Espírito. Temos o mesmo Pai. Somos herdeiros da mesma herança. Moraremos juntos no mesmo lar.

            Sendo então Cristo a nossa paz, podemos juntos, em alto e bom tom exaltar a Ele, unidos, testemunhando a obra do evangelho em nossa vida comunitária. Que assim como na oração sacerdotal de Jesus, possamos ser um, para que o mundo reconheça que o Pai o enviou para ser a nossa paz.

[1] Wikipedia

 

Vinícius Mello

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *