Os dons são uma evidência de recebimento do Espírito Santo?

Cresci em igrejas neo-pentecostais e pentecostais, praticamente a minha vida cristã inteira. Quando minha mãe se converteu, eu tinha aproximadamente 7 anos de idade, no mês que vem, farei 27. Então, posso dizer que tive bastante vivência com a pergunta que dá título a esse texto, mas vejo a necessidade de escrevê-lo por diversos motivos, mas o principal deles, é justamente pelo modo como essa crença tem atrapalhado o crescimento espiritual de pessoas que acreditam não possuir o Espírito Santo, simplesmente porque não fala uma língua esquisita durante um culto ou reunião religiosa. Portanto, vou usar definições bíblicas a respeito do assunto, não me prendendo aos chamados “avivamentos” e manifestações carismáticas que ocorreram e ocorrem atualmente.

Batismo com o Espírito Santo, o que é?
O capítulo 12 de 1 Coríntios é a referência mais utilizada quando se fala sobre a experiência com os dons carismáticos. O problema é que muitos entendem tais manifestações da forma errada. Para mais detalhes, temos dois textos escritos pelo Prof. Vinícius Mello, pode conferí-los aqui e aqui. 1 Coríntios 12:13, diz:

“Pois todos fomos batizados por um só Espírito, a fim de sermos um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres; e a todos nós foi dado beber de um único Espírito.”

Fazendo um exercício exegético bem simples, descobrimos que a palavra grega para “todos”, é pas, que significa “cada indivíduo de um todo”. Portanto, o batismo com o Espírito Santo, é a ação do próprio em converter o pecador e torná-lo membro do corpo, não havendo necessidade de manifestação dos dons para evidenciar isso, uma vez que o próprio Cristo, já havia avisado a respeito:

“Todavia digo-vos a verdade, que vos convém que eu vá; porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, quando eu for, vo-lo enviarei.
E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo.
Do pecado, porque não crêem em mim;
Da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais;
E do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado.”
João 16:7-11

No versículo 3, do capítulo 12 da carta aos Coríntios, o Apóstolo Paulo, diz:

Portanto, vos quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo.
1 Coríntios 12:3

Paulo está dizendo que é impossível que um homem que tenha recebido o Espírito Santo de Deus, reconheça a Jesus como Senhor, pois quem o faz, automaticamente afirma sua fé em nEle, e a fé em Cristo, é constituída de:

  1. Crer na encarnação do Filho
  2. Sua revelação como Filho de Deus
  3. As provas de sua origem por meio palavras e obras
  4. Iluminação dos corações escurecidos pelo pecado
  5. Morte e ressurreição
  6. Esperança em sua vinda

Quando vemos que as pessoas, muitas vezes nem mesmo gostam de ouvir o nome de Jesus, fica mais que evidente que o homem não só, não aceita, mas também rejeita e se afasta de cada uma dessas afirmativas. Portanto, temos a concretização das palavras de Jesus em João 16:8.

Quais os problemas de buscar desenfreadamente os dons espirituais?

Quando trocamos as coisas, a igreja encara uma série de problemas, cito alguns que tenho reparado nos últimos tempos:

  • Infantilização do crente: Quando permitimos que a saúde espiritual de alguém seja medida pelo número e frequência de manifestações dos dons, a eximimos da responsabilidade de conhecer e saber pregar o evangelho a outros, afinal, já atingiu o ápice da vida espiritual. Isso faz com que, as pessoas não irem à igreja para adorar a Deus, mas sim para ter uma experiência. (1 Co 14:20; Jr 4:22; Rm 16:19; Ef 4:13,14; Hb 5:12,13)
  • Sentimento de rejeição: Muitas pessoas se sentem frequentemente rejeitadas tanto pela igreja, como por Deus, por acharem que não possuem o Espírito Santo guiando suas vidas. Essa percepção atrapalha a comunhão do corpo, uma vez que, não fazer parte dele, por se sentir impuro ou um pecador não redimido e bastante constante.
    (1 Co 12:3; Rm 10:9; 1 Jo 4:2,15; 5:1)
  • Falsa espiritualidade: Não é difícil encontrar pessoas que congregam em igrejas carismáticas (pentecostais e neo-pentecostais), que choram, rodopiam, gritam, pulam, e até mesmo rolam no chão, dizendo estarem cheias do Espírito Santo, mas que em suas vidas seculares, são mentirosos compulsivos, escravos de vícios, e presos em si mesmos. Vivendo como se não fossem convertidos, enquanto não o são.
    (Mt 6:1-5; 1 Co 3:1-3; 1 Pe 2:1; Hb 12:1; Gl 5:16-21)
  • Blasfêmia em forma de adoração: O ponto anterior nos traz diretamente a este. As manifestações acima, sendo vistas como adoração, não passam de blasfêmia, uma vez que são comportamentos que podem ser imitados (e alguns até são), por outras práticas religiosas, mas que são atribuídos ao Espírito Santo que executa uma obra única na vida do crente. Essa inversão de valores, chama a blasfêmia de adoração, e a busca por uma adoração bíblica em blasfêmia.
    (Lv 10:1; Nm 3:4; Ap 2:14)
  • Ansiedade, depressão e vício: Infelizmente, esses têm sido males cada vez mais presentes nas igrejas. Resultado de uma cultura que não zela pela saúde do corpo. Tais situações são chamadas de demônios e falta de Deus, potencializadas pelo sentimento de não pertencimento ao corpo de Cristo, e de que por não manifestarem dons espirituais não são salvos, gerando a ideia de que ainda há algo a ser feito para serem salvas e/ ou aceitas por Deus.
    (At 15:11; Rm 3:4; 5:15; 8:31; 1 Co 5:14,15; 1 Tm 2:3,4; Tt 2:11; 1 Jo 2:2)

Considerações sobre o dom de línguas

Praticamente todas as denominações carismáticas, vêem e ensinam que o dom de línguas é a evidência-mor, do recebimento do Espírito Santo, quanto a isso, precisamos esclarecer alguns pontos:

  1. O dom de línguas não é extático (At 2:5,6)
    Ao contrário do que muitos pensam, as línguas estranhas não são resultado de êxtase espiritual. São chamadas de estranhas pois são desconhecidas por quem fala, mas são idiomas humanos.
  2. A obsessão por outras línguas compromete a pregação do evangelho (Is 28:11; 1 Co 14:21)
    A profecia de Isaías é usada como base para a defesa do dom de línguas. Porém, há um erro na interpretação do texto, pois Isaías não estava profetizando uma benção. O Senhor estava dizendo por meio do profeta que a falta de adoração do seu próprio povo o faria ser glorificado por outras línguas (outros povos) que não usavam o hebraico/aramaico como língua-materna. O apóstolo Paulo recorda essa passagem ao alertar sobre o perigo de ficarem tão obcecados em falarem outras línguas (idiomas) que estavam se esquecendo de adorarem a Deus no seu idioma de origem, o que impedia a pregação do evangelho para os não crentes.
  3. Não são línguas de anjos (1 Co 13.1)
    Paulo não estava dizendo que ele fala as línguas dos anjos, ele está dizendo que mesmo que ele falasse, se não tivesse amor, ele nada seria.

Se formos levar a doutrina pentecostal a ferro e fogo como muitos sugerem, negaremos então que o próprio Cristo possuía o Espírito Santo. Afinal, em nenhum dos quatro evangelhos, temos relatos dele falando em outras línguas – sinal evidente para os pentecostais do que chamam de batismo com o Espírito Santo.
Precisamos ter muita cautela e priorizar a pregação do evangelho, pois somente dessa forma, glorificamos a Deus em toda a sua plenitude. Somente pela pregação do evangelho e pela ministração e interpretação correta da sua Palavra, conseguimos apresentá-lo realmente, como único e suficiente salvador do pecador, e isso deve começar em nosso próprio idioma.

Celso Amaral

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