Jesus e os sinalizadores

Você sabe o que é, ou já ouviu falar sobre sinalização da virtude (virtue-signalling)? É um novo padrão de comportamento que tem se tornado bastante popular por conta das redes sociais. Quando começou, era visto como algo bom, pois uma espécie de estímulo para que outros praticassem o bem, mas, atualmente, é visto como algo não somente negativo, mas também nocivo. E como a igreja é composta de pessoas, e essas pessoas acompanham as tendências comportamentais e são por diversas vezes influenciadas pela cultura na qual estão inseridas, no ambiente de culto, nós passamos então a ter a sinalização da espiritualidade.

Sinalização da Virtude: o que é?

Estamos chegando ao final de 2018, e quantas vezes as hashtags do tipo #somostodos(alguma coisa) foram usadas à exaustão? A ideia por trás das tags é a promoção de alguma causa como uma forma de conscientização por meio da popularização. Mas quantas das pessoas que compartilharam e entraram na onda, realmente tomaram ações concretas no seu dia-a-dia para de fato, promover a causa pela qual se manifestaram? Isso é a sinalização da virtude, promover a luta contra o câncer usando hashtags ao invés de buscar doações para hospitais e instituições que forneçam tratamento. Mostrar para o maior número possível de pessoas que está envolvida com algo virtuoso, sem o estar na realidade.
Recentemente, uma jovem suíça ficou famosa por impedir a decolagem de uma avião para que um homem não fosse deportado para o Afeganistão. Uma cena comovente que foi transmitida ao vivo pelo facebook. Casos como esse, não são difíceis de encontrar no feed de nenhuma rede social, principalmente o facebook, por conta da capacidade de viralização da plataforma. É possível até mesmo contar quantos vídeos passam pelas nossas linhas do tempo todos os dias, com pessoas ajudando pobres, ou militando por alguma causa.
A SV (sinalização da virtude) se tornou um problema social por conta da massiva busca por fazê-lo sem medir as consequências. O homem defendido da deportação no exemplo anterior, dias mais tarde foi acusado de ter estuprado uma adolescente. As pessoas não estão ajudando ou se engajando para ajudar de fato, mas poderem anunciar isso em bom som e conseguirem em certa medida, promoção. O ser humano é vaidoso e orgulhoso por natureza, buscamos sempre meios e formas de nos colocar em uma posição superior moralmente, adoramos a ideia de estar acima, seja em qualquer aspecto (quantas pessoas não se orgulham de terem levado vantagem indevida sobre outras?). É a busca desenfreada pela própria glória que nos leva a decadência desde o Éden.

E quando esse comportamento entra na igreja?

Como dito anteriormente, a igreja é composta de pessoas, e essas pessoas, possuem e interagem por meio de redes sociais, e dentro desse contexto, são influenciadas por elas, algumas mais e outras menos. Dizer que passamos ilesos por esse aspecto da cultura que nos cerca, é ser no mínimo, negligente. Dentro da igreja, as pessoas tem buscado sinalizar não somente suas virtudes, mas também sua espiritualidade. Mãos levantadas, gingado de um lado para o outro, choros, pulos, gritos… Para uma boa parcela das pessoas que se declaram evangélicas, essas são as características que servem de padrão para medir a espiritualidade de alguém, ou até mesmo para definir se um culto foi bom ou não. Se teve alguma dessas, foi bom, se não, Deus não estava presente.
O maior problema desse tipo de cultura na igreja, é justamente a promoção de uma espiritualidade superficial e sem nenhum tipo de comprometimento com o alvo da adoração. Afinal, o objetivo não é oferecer um culto racional e consciente de que cada ação executado naquele momento, deve ser para honra e glória de quem se adora, mas sim, a busca pelas emoções e reações palpáveis, que podem ser vistas e registradas.
Na prática, temos duas situações opostas, mas que são igualmente prejudiciais à saúde da congregação, que são:

  1.  Hipocrisia: Pessoas em situação de total escravidão do pecado e totalmente imersas na própria corrupção, deixam de buscar a santificação e concerto, pois o fato de reagirem emotivamente às situações do culto, faz com que creiam estarem vivendo uma vida agradável aos olhos do Senhor, afinal, Ele ainda se “manifesta” através delas. Um sinal bastante claro de que a pessoa foi ao culto apenas para se servir, é que normalmente, ela não se lembra do que foi pregado, e por consequência não se preocupa com o que realmente deve fazer para agradar ao Senhor.
  2. Rejeição: Na outra ponta, temos aqueles que pelos mais diversos motivos não reagem da mesma à cerimônia, podem se sentir desprezados pelos irmão mais “espirituais” e até mesmo por Deus, uma vez que, não há sinais de “manifestação” do sobrenatural através deles. Tal situação resulta em um crente que não se firma na fé e que constante busca atalhos para poder ter o mesmo que os demais.

Ambas as situações, contribuem para uma visão superficial e totalmente mundana a respeito do culto, e em nenhuma delas o nome do Senhor é glorificado. Ele não recebe a adoração de um povo que está mais preocupado com as próprias reações num culto que não é para elas, e não também não é adorado por quem não sente segurança no amor do Criador e Provedor de todas as coisas.  Nos dois casos, negligenciamos os atributos do próprio Deus que tanto repetimos à exaustão, como justiça, graça, verdade, soberania, amor e misericórdias, pois tornamos condicionais, as características do Deus eterno.

Jesus e os sinalizadores

Atualmente, Jesus, o Salvador, Redentor e Justificador do pecador, tem sido usado como uma espécie de muleta moral. Ou seja, sempre que puder ser usado para expressar uma superioridade sobre os outros, o nome de Jesus será utilizado, o que é contraditório e evidencia um desconhecimento a respeito dEle, afinal, diante dEle, somos igualmente pecadores, corruptos e sem nenhum atributo que seja capaz de nos justificar a nós mesmos (Gl 3:28).
Durante o Sermão do Monte, o mestre dos mestres trata diretamente com as duas situações que falamos acima. Aos que ajudam, mas tiram selfies, disse:

“Tenham o cuidado de não praticar suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isso, vocês não terão nenhuma recompensa do Pai celestial.
Portanto, quando você der esmola, não anuncie isso com trombetas, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem honrados pelos outros. Eu lhes garanto que eles já receberam sua plena recompensa.
Mas quando você der esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que está fazendo a direita,
de forma que você preste a sua ajuda em segredo. E seu Pai, que vê o que é feito em segredo, o recompensará”.
Mateus 6:1-4

E continuou, agora se referindo aos que ostentam seus próprios métodos de culto:

“E quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros. Eu lhes asseguro que eles já receberam sua plena recompensa.
Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está no secreto. Então seu Pai, que vê no secreto, o recompensará.
E quando orarem, não fiquem sempre repetindo a mesma coisa, como fazem os pagãos. Eles pensam que por muito falarem serão ouvidos.
Não sejam iguais a eles, porque o seu Pai sabe do que vocês precisam, antes mesmo de o pedirem.”Quando jejuarem, não mostrem uma aparência triste como os hipócritas, pois eles mudam a aparência do rosto a fim de que os homens vejam que eles estão jejuando. Eu lhes digo verdadeiramente que eles já receberam sua plena recompensa.
Ao jejuar, ponha óleo sobre a cabeça e lave o rosto,
para que não pareça aos outros que você está jejuando, mas apenas a seu Pai, que vê no secreto. E seu Pai, que vê no secreto, o recompensará”.
Mateus 6:5-8;16-18

A repetição das expressões “hipócritas” e “lhes garanto que já receberam sua recompensa”, evidencia a vaidade dos sinalizadores de virtude e da espiritualidade. Afinal, tudo o que fazemos visando uma recompensa, seja ela qual for, indo desde a aceitação por um grupo até algo material, não passa de vaidade. Fora de Cristo, vivemos apenas para nós e para nossa própria glória obedecendo à nossa própria natureza carnal. É necessário que peçamos ao Senhor para que Ele limpe o nosso coração e mantenha afastado nosso maior inimigo: Nós mesmos.

Untitled design

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *