A relação entre a Lei e a Graça

No rol das coisas que causam uma certa confusão na cabeça de muitos cristãos, está a relação entre a Lei e a Graça. Basicamente, encontramos dois grupos opostos: Os que buscam praticar a lei com total dedicação e aqueles que a ignoram totalmente acreditando que a Graça elimina qualquer traço de importância ou ensino que podemos ter com a primeira. Então, qual das duas é a correta?

O que é a Lei?
Quando falamos em Lei no sentido bíblico e teológico, estamos nos referindo ao Pentateuco (conjunto dos cinco primeiros livros da bíblia), que são um compêndio de regras com o objetivo de diferenciar aqueles que Deus escolheu para si dos demais povos contemporâneos a este (Dt 17:18,19; 31.24; Js 1.8; Sl 1.2). Por essa razão, vemos com bastante frequência no decorrer de todo o Antigo Testamento – especialmente nos livros históricos – Deus repreender alianças com tais nações.

Qual a função da Lei?
As questões relacionadas à aplicabilidade ou não da lei após o sacrifício de Cristo não é nova, inclusive, os apóstolos chegaram a discutir sobre isso (At 15). Podemos resumir a função da Lei como nos revelar a necessidade que temos de um salvador, nos revelando nossa condição de pecadores. A lei é a formalização das atitudes que Deus considera como ofensas à sua santidade. Sem essa mensagem seria impossível que compreendêssemos a proporção com a qual estamos afastados do Senhor por nossos pecados. Uma vez conhecedores dessas atitudes, nos damos conta do quanto ofendemos a Deus com as mesmas, e do quanto incapazes somos de nos reabilitar diante do Pai (Rm. 7:7).

A função da lei hoje
É bem natural que olhemos para a lei e nos sintamos ofendidos, pois ela aponta o que há de pior em nós que fazemos questão de esconder a todo custo. Um exemplo que gosto de usar para ilustrar a função da lei é o que está exposto em Levítico 19.14:

Não amaldiçoarás um mudo e não porás obstáculo diante de um cego, mas temerás o teu Deus. Eu Sou o Senhor.

Consegue notar o nível de maldade impressa no coração de alguém que coloca um obstáculo deliberadamente para que o cego tropece? Ou ainda amaldiçoar um surdo, zombando de sua condição ao invés de zelar por ele? No versículo anterior, o Senhor chama a atenção para a opressão praticada com o próximo e no seguinte chama atenção para a prática da injustiça. Por mais que nunca tenhamos praticado nenhuma dessas coisas deliberadamente, gostamos de zombar das deficiências e incapacidades alheias. E quando olhamos para a justiça, buscamos os nossos interesses e não a prática isenta desta. É nesse ponto que a Lei nos ofende, pois nossa natureza pecaminosa não reconhece sua incapacidade de fazer o bem (Rm 7.15), nos fazendo crer que aquilo que julgamos ser bom, de fato o é, quando na verdade, está em constante oposição àquilo que o Senhor estipulou como mandamento.

Graça e liberdade
Outra situação que não é de hoje, é a busca incessante da humanidade em pecar indiscriminadamente, inclusive, manipulando e deturpando algumas doutrinas da Escritura, sendo a graça o principal alvo dessas distorções, por exemplo. Existe uma leva de jovens que ao descobrirem a liberdade em Cristo por meio de sua Graça, a usam como pretexto para se conformarem com uma vida de pecados que em nada glorificam a Deus e o fazem sob a ideia errada de que nada disso trará consequências às suas vidas espirituais, tanto aqui, quanto no porvir. Essa confusão a respeito da liberdade da qual desfrutamos, se dá, acredito eu, principalmente por uma déficit na compreensão a respeito do que realmente, fomos libertos. Destaco, duas:

  1. Fomos libertos da Lei Mosaica como sistema de salvação: Pela fé em Cristo, somos justificados de modo que, não somos mais condenados pela lei de Deus. Mas sim, absolvidos por sua maravilhosa graça, por meio da obra vicária de Jesus. Qualquer mérito que julguemos ter, não passa de soberba visando usurpar a glória que é somente de Jesus ao nos tornar aceitos diante do Pai (At 13:39; Rm 8:3; Gl 4:4; Hb 2:17; Hb 10:1)
  2. Fomos libertos do domínio do pecado: fomos regenerados e vivificados para Deus de forma sobrenatural por meio da união com Cristo em sua morte. Fomos crucificados com Ele e ressurretos por meio dEle. Assim sendo, agora vivemos tendo como prazer a obediência ao Pai e por consequência na prática da sua justiça (Jo 8:32; Rm 6:18,22; Rm 8:2; 1 Co 7:22; 1 Pe 2:16).

Como podemos ver, mesmo sendo uma revelação da vontade de Deus, o pecado intrínseco à humanidade impedia que mesmo em total obediência, não fosse possível desfrutar de uma comunhão plena com o Senhor, mas em Cristo temos uma aproximação para nos relacionarmos com Ele como filhos, justamente pela justificação e libertação de nossos pecados. Como podemos dizer e usar essa liberdade como pretexto para pecar, sendo que do pecado é que fomos libertos? Sendo assim,  não podemos dizer que fomos de fato libertos, pois as ações não se fundem com o discurso, e se não há acordo entre o que falamos e o que fazemos, estamos zombando da cruz de Cristo, apresentando aos descrente um salvador que é menos poderoso que o pecado. É uma bola de neve, no qual se acumulam erros e mais erros que culminam numa visão totalmente deturpada da obra de Cristo na vida do cristão, e esta, que deveria ser para louvor e glória do Senhor, se torna agora, motivo de vergonha diante daquele que é Santo e escárnio diante dos homens

Como se dá o encontro da Lei e da Graça de forma prática?

O ponto que acredito que podemos tomar para conciliar ambas, é a possibilidade que uma me dá condições de viver plenamente a outra. Ao passo que a graça nos fornece condições salvadoras plenas, temos o entendimento de que agora, em Cristo, glorificamos a Deus com nossas vidas, sendo como Ele, e assim, em condições de sermos vistos como filhos pelo Pai. A compreensão de que nossa vida agora, deve ser para glória daquele que nos criou, nos direciona para a obediência. Para obedecer, é necessário conhecer o que Deus requer de nós, e essa informação pode ser encontrada na lei. É por meio dela que temos os subsídio morais que o próprio Deus instituiu para o povo que Ele mesmo escolheu para glorificá-lo de modo a manifestar sua presença de forma sobrenatural à toda a humanidade.
Uma vez que ainda não havia acontecido a expiação. Para que os homens agradassem a Deus, Ele deu a Lei, para revelar a sua vontade. Porém, nossa natureza pecaminosa impede que a obedeçamos de forma satisfatória e não tinha o poder salvador permanente, o perdão era temporário. Quando há o sacrifício na pessoa de Cristo, e o Espírito Santo é derramado sobre toda a carne, o Espírito Santo é quem nos leva a obedecer a Lei de Deus, agora sim, de forma satisfatória, pois já não pertencemos ao pecado.
Cristo como sendo Deus e possuindo os atributos da eternidade é o único que pode satisfatoriamente, sustentar o perdão pelos nossos pecados para toda a eternidade.

“Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo.
Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus;
Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros.
Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?
Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado.”
Romanos 7:21-25

Paulo está dizendo que mesmo tendo o conhecimento da lei (vontade, princípio, regra) de Deus, a sua carne ainda o leva a pecar, por conta de sua composição corruptível que busca os prazeres desta vida. Se não fosse por Cristo que nos liberta desse cativeiro, estaríamos eternamente condenados por iríamos obedecer às vontades da carne. Assim sendo, batalhamos constantemente com a nossa própria carne para vivermos em obediência ao Senhor. O Espírito Santo transforma nossa mente e ser, porém, todo o nosso corpo clama e busca desenfreadamente o pecado.

Não é fácil seguir os princípios de moralidade estabelecidos pelo Senhor. Afinal, sempre há o desejo de fazermos aquilo que mais nos dá prazer. A graça de Deus não é um salvo-conduto para o pecado, ela é o meio pelo qual somos salvos deste. E se mesmo, dizendo ser salvos e obedientes aos mandamentos do Senhor, buscamos o pecado, precisamos repensar nossas vidas diante da Palavra do Senhor, pois com certeza, algo está errado.

 

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