A necessidade da tribulação: Expectativa e Esperança

Já parou para contar quantas mensagens motivacionais vemos todos os dias em nossas redes sociais? Aquelas frases feitas que tem o único objetivo de massagear o ego e contribuir para sentimento de que somos mais importantes e iluminados que os outros. Esse tipo de conteúdo é muito popular por ser de fácil acesso, mas também de ótima aceitação. Afinal, quem não quer ouvir/ler que é mais especial que pessoas de contexto social semelhante? Mas, qual o resultado disso? Será que esse tipo de conteúdo não contribui para o isolamento em bolhas sociais, nos tornando alvos extremamente frágeis para os espinhos que a vida possui? É sobre o que vamos discorrer nesse texto.

Uma vida de expectativas

O número de pessoas que têm sofrido com ansiedade e depressão é assustador. E esses dados são mundiais. Não se tratam de uma manifestação isolada por um contexto cultural. O que tem levado as pessoas que atualmente, possuem uma vida bem mais confortável que há 20 anos, a se verem perdidas e ansiosas quanto ao que há de vir? Tenho refletido muito a respeito desse assunto e algo que pode ser notado claramente, é que as pessoas têm vivido uma vida de expectativas. Existem planos para a faculdade, para o casamento, para os filhos, para a aquisição da casa própria, para a compra de um carro, e diversos outros. É necessário sim, se planejar para estas coisas para poder usufruí-las de forma plena e satisfatória. O que não pode ocorrer, é justamente o apego esse planejamento, de forma que, a não concretização, da maneira ou  no tempo que traçamos, resulte em um abalo de nossa fé, que por sua vez, atinge nossos sentimentos e afete nossa espiritualidade.
Nossa expectativa, e por consequência, nossa ansiedade, são alimentadas pelo ambiente de pronto-atendimento que vivemos. Se queremos uma notícia, podemos jogar no Google exatamente o que esperamos ler, e a temos diante de nossos olhos; se queremos interagir ou dar umas risadas, vamos nas páginas e perfis em redes sociais que fornecem esse conteúdo; se buscamos algum conteúdo sem que precisamos nos debruçar sobre livros, o YouTube já está na barra de favoritos, é só clicar e digitar o assunto. Na prática, não precisamos esperar por mais nada?
Cristo alerta sobre isso no Sermão do Monte quando fala sobre as ansiedades da vida e a providência divina (Mt. 6:25-31), trazendo os ouvintes à realidade de que somos mais valiosos para Deus do que os pássaros do céu (vs.26) e os lírios do campo (vs.28). A orientação de Jesus, é que não nos deixemos levar pelas ansiedades e expectativas da vida, pois o Senhor cuida de nós naquilo que é de fato, necessário (vs. 33). A busca por uma vida confortável em um ambiente intelectual e emocionalmente favorável, é uma das tentações modernas mais frequentes, e, acredito que também uma das mais subestimadas.  Quem quer ser confrontado? Quem quer suas ideias postas em cheque? Quem quer ter seus erros evidenciados enquanto os acertos são negligenciados? Ninguém, pois vivemos na sociedade otimista que orbita em torno de afirmações positivas. Essa é uma expectativa moderna que corrói nossa capacidade de aprender e também de amadurecer. Afinal, aprendemos que tudo está sujeito às nossas vontades, o simples fato de podermos silenciar qualquer ideia divergente – bloqueando, excluindo, etc – nos fornece uma falsa segurança emocional e intelectual, que ao menor sinal de confronto se esvai. É a habitação construída sobre os fundamentos voláteis da cultura, ao invés do evangelho – falo especificamente sobre, aqui. Em nossa vida ministerial e eclesiástica, isso é evidenciado na ideia de um ministério/trabalho que não sofra críticas e nem repreensões, quando o que encontramos na Palavra, é justamente a importância e necessidade da exortação.

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.” 
2 Timóteo 3:16-17

“Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando vocês mesmos.” 
Tiago 1:22

“Exortamos vocês, irmãos, a que advirtam os ociosos, confortem os desanimados, auxiliem os fracos, sejam pacientes para com todos. Tenham cuidado para que ninguém retribua o mal com o mal, mas sejam sempre bondosos uns para com os outros e para com todos. Alegrem-se sempre. Orem continuamente. Deem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus. Não apaguem o Espírito. Não tratem com desprezo as profecias, mas ponham à prova todas as coisas e fiquem com o que é bom. Afastem-se de toda forma de mal.”
1 Tessalonicenses 5:14-22

“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. “
1 João 1:9

Quando vivemos com base em expectativas, buscamos resultados rápidos e nessa procura, sempre nos direcionaremos para aquilo que o nosso coração considera melhor, nos esquecendo que ele é especialista em nos enganar e nos levar para longe dos desígnios de Deus (Jr 17:9; Mc 7:21; Rm 7:11; Ef 4:22; Ec 9:3; Is 1:5,6).

Vivendo em esperança

Romanos 5.1-11 é um dos trechos que mais trazem luz à nossa situação uma vez que somos salvos por Cristo, nos orientando para a direção correta. Enquanto o nosso coração nos direciona para nossas vontades e expectativas a curto prazo, a graça de Deus manifesta através da ação justificadora e redentora de Cristo nos leva à direção oposta que é o caminho a longo (eterno) prazo. O caminho da esperança.

“E não somente isso, mas também gloriemo-nos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a perseverança,
e a perseverança a experiência, e a experiência a esperança;
e a esperança não desaponta, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.”
Romanos 5:3-5

Uma vez que estamos em Cristo e fomos justificados por Ele, nos encontramos em paz com Deus, pois a ação do pecado, que nos colocava em inimizade com Ele, foi derrotada por Cristo em seu sacrifício, e nos é garantido por sua ressurreição (Rm 5:1,2). Enquanto ainda sujeitos à condenação do pecado, a tribulação produz desespero e tristeza, que por sua vez, nos entregam às paixões da carne, e essas paixões resultam em condenação.
A obra de Cristo nos garante paz, por termos a certeza de uma promessa futura. Ainda que soframos por quaisquer que sejam as adversidades da vida, tais situações, resultam na perseverança de permanecermos fiéis àquele que nos amou primeiro, para que assim, através de nossas experiências possamos viver em esperança, e ajudar aqueles que se encontram na direção oposta, ou que estão fraquejando na fé e cedendo às tentações.
Não é uma tarefa fácil, mas é necessária. No capítulo 6 do evangelho de João, Jesus faz um discurso duro logo após um milagre. O motivo? A expectativa da multidão. Logo após multiplicado os e repartido com a multidão os alimentar de modo que até sobrou (Jo 6:11,12), a multidão então tenta proclamá-lo rei à força ( vs.15). Essa mesma multidão persegue o Cristo insistentemente, não para ouvir os seus ensinamentos, mas para terem suas necessidades – de curto prazo – supridas. Ao que falou Jesus:

“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que me buscais, não porque vistes sinais, mas porque comestes do pão e vos saciastes.”
João 6:26

Em seguida Jesus inicia um sermão duro que resulta na seguinte pergunta por parte daqueles que o seguiam: “Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir?” (João 6:60); e também no abandono de muitos deles: “Por causa disso muitos dos seus discípulos voltaram para trás e não andaram mais com ele.” (João 6:66).
Jesus sabia quem o seguia por sua mensagem e quem o fazia por interesse nos milagres e com expectativas terrenas a serem supridas. E nem por isso deixou de confrontá-los. Então, Jesus se vira para os doze, e pergunta porque eles não foram embora com os demais.

“Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna.”
João 6:68

Essa é a diferença entre o discípulo de Cristo que foi resgatado pela mensagem, daquele apenas vê no evangelho um meio para tornar sua vida terrena mais agradável e mais fácil. Diante do confronto, e de uma evidente repreensão, há a perseverança que produz experiência, que resulta em esperança. Como discípulos do Senhor e pregadores do evangelho não podemos nos dar ao luxo de reduzir a poderosa mensagem do evangelho à expectativas terrenas, devemos anunciar a esperança do cumprimento da promessa por meio do poder de Deus, que enviou o seu Filho para garantí-la com seu sangue. Esse é o meio pelo qual devemos nos manter fieis e firmes durante a tribulação e tempestades em nossas vidas. Pois todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus e vivem de acordo com o seu propósito (Rm 8.28).
As tribulações e dificuldades da vida, nos ajudam a amadurecer, e em Cristo, resultam em esperança, que mantém nossos olhos na eternidade.

 

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