Páscoa: a festa e a crucificação

Como diz o Pr. Renato Vargens, no domingo, várias igrejas e fiéis serão assaltadas, mas não no sentido criminal da coisa. O que será roubado é o significado da Páscoa. A festa que tinha como objetivo celebrar a libertação do povo judeu do Egito e a também libertação da humanidade da escravidão pelo pecado mediante a morte de Cristo, tem se tornado cada vez mais uma data comercial, onde os fabricantes de chocolate aproveitam para maximizar as vendas. Nesse texto, vamos falar um pouco sobre o que é a páscoa, seu surgimento e sua consagração na crucificação de Jesus.

O que é a Páscoa?

A libertação de Israel foi um acontecimento ímpar de tão extraordinário e como tal, deveria ser lembrado eternamente. O termo páscoa tem vários sentidos. O acontecimento em si que marcou a instituição da festa, foi a passagem de Deus sobre os filhos de Israel quando o destruidor matasse os primogênitos egípcios. Concluindo assim, a punição dada por Deus ao Egito, por todo o sofrimento que infringiram ao seu povo.

“Disse o Senhor a Moisés e a Arão na terra do Egito: Este mês vos será o primeiro mês do ano. Falai a toda congregação de Israel, dizendo: Aos dez deste mês, cada um tomará para si um cordeiro, segundo a casa dos pais, um cordeiro para cada família.”
Êxodo 12.1-3

“Este dia vos será por memorial, e o celebrareis como solenidade ao Senhor; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo.”
Êxodo 12.14

“Quando vossos filhos vos perguntarem: que rito é esse? Respondereis: É o sacrifício da Páscoa ao Senhor, que passou por cima das casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios e livrou as nossas casas. Então, o povo se inclinou e adorou.”
Êxodo 12.26,27

Quando era celebrada a Páscoa?

A páscoa não era uma festa qualquer. Ela também era o marco de uma nova era do povo hebreu agora, vivenciando totalmente sob o cuidado de Deus para consigo. O Senhor instituiu um novo ano para seu povo. Anteriormente, o ano se iniciava no outono com o mês de tisri, mas agora os dois primeiros meses do ano seriam o mês de abibe, que depois foi renomeado de Nisã.
Esse primeiro mês, corresponde aos meses de Março e Abril no calendário gregoriano (usado atualmente). A comemoração se iniciava no dia 14 do referido mês. A conversão de dias para comparar com nosso calendário, deve ser feita com cuidado, pois o método que utilizamos, é com base na volta que a terra dá em torno do sol, ao passo que, o calendário judaico é baseado nas fases da lua. Outra diferença a que devemos no atentar, é a seguinte. Os meses no calendário usado no Antigo Testemento, possuem 29 ou 30 dias, tornando o ano com 280 dias, e não com 365/366.

Quais os rituais da festividade?

As instruções a respeito dos rituais são bem específicas e diretas. Os israelitas deveriam pegar um cordeiro para cada casa (v.3); ao décimo quarto dia do mês ele deveria ser sacrificado ao final da tarde (v.6); o sangue derramado deveria ser posto nos batentes dos lados e de cima da porta das casas (v.7); na mesma noite, comeria a carne assada temperada com ervas amargas (v.8). O texto não especifica quais eram essas ervas, mas algo comum na época, era a endívia (tipo de chicória). O cordeiro era assado inteiro dos pés à cabeça (v.9); nada deveria sobrar do cordeiro para o dia seguinte. Aquilo que não fosse ingerido deveria ser queimado (v.10).

Para a aplicação do sangue nas portas, deveriam usar um molho de hissopo (v.22). “Esta planta era muito apropriada para aspergir sangue e por seu uso frequente para este propósito veio a ser símbolo da purificação espiritual” (Comentário Bíblico Beacon). A ordem era que nenhum israelita saísse de casa até pela manhã (v.22).

Ao obedecerem ao estatuto do Senhor (v.28) os israelitas garantiram a segurança de seus filhos. Enquanto a morte passava pelo Egito arrebatando para si os filhos daqueles que não possuíam a marca de sangue em suas portas (v.29,30).

Mas e Cristo, onde entra nessa história?

Bom, todos os detalhes da morte do cordeiro Pascal se encontram em Jesus. Os principais, são:

  • Puro e imaculado (Ex.12.5; 1 Pe. 1.19)
  • Morto em sacrifício durante a tarde (Ex.12.6; Mt. 27.45; Mc. 15.34; Lc. 23. 44; 1 Co. 5.7)
  • Seu sangue é a marca que identifica os que serão salvos (Êx. 12.7; Ap. 7.9,10)
  • Receptor da ira de Deus (Êx. 12. 8,9; Is. 53.10; Jo. 1.29; 1 Co. 5.21)
  • Não possui o fermento do pecado e a tristeza que leva à morte (Êx. 12. 18-20; 1 Co. 5.8)

Agostinho de Hipona, disse: “O Novo Testamento está escondido no Antigo, e o Antigo Testamento é cumprido no Novo”. Ao lermos a Palavra devemos sempre nos lembrar que Deus em sua soberania, direcionou todos os eventos relatados no AT para que estes, revelassem e comprovassem o ministério de Cristo, seu Filho.

O sofrimento do Cordeiro de Deus

Assumir o papel vicário para a salvação do pecador, não foi uma tarefa fácil, nem rápida… Toda a história humana seria mudada com essa entrega, o domínio do pecado e da morte seria totalmente destruído, o inferno seria destronado, havia muita coisa em jogo. O método usado para a imolação do Cordeiro de Deus, foi o mais vil até então empregado pelas civilizações do mundo antigo: a crucificação.
A cruz era a punição capital reservada à classe criminosa mais abjeta, bem como aos escravos, os provincianos (Prof. Vinícius Mello). Porém, a execução não era imediata, antes era aplicado o chicoteamento com o flagellum. Sobre o modo como esse castigo foi aplicado a Jesus, o Prof. Vinícius Mello, escreve: “um chicote de línguas de couro, com pequenos pedaços de metal ou de osso: no caso de Jesus, Pilatos talvez tenha ordenado que isso fosse feito em primeiro lugar, esperando talvez comover a multidão (Jo. 19.1; cf. Lc. 23.16,22); nesse caso, a palavra phragellosas, em Mt. 27.26; Mc. 15.15, seria uma referência em retrospecto, pois é impossível que um organismo humano pudesse suportar e sobreviver a duas flagelações seguidas tão espantosas.”
No Salmo 22, Davi narra o sofrimento do Messias do ponto de vista deste. No versículo 12 do referido capítulo, temos: “Muitos touros me cercam, fortes touros de Basã me rodeiam.” Touro era uma das figuras mais usadas pelo exército romano, justamente para demonstrar força e poder sobre os inimigos. Pelas palavras do salmista, temos um pouco do que estava acontecendo com o filho de Deus naquele momento de sofrimento.
Uma outra menção do Salmo 22, também pode nos dar um panorama de como Cristo se encontrava após o chicoteamento:

“Posso contar todos os meus ossos; eles me estão olhando e encarando em mim.”
Salmo 22. 17

Após o chicoteamento, veio a crucificação. Sobre esse processo escrevemos no texto A Cruz, o Cajado e a Coroa, que pode ser lido aqui. Segue trecho relativo à crucificação: O legista americano Frederick Zugibe, se propôs a fazer um estudo detalhado sobre as circunstâncias que levaram à morte de Jesus na cruz. Segundo ele, as perfurações nas mãos e nos pés (Jo. 20.25), causaram uma dor semelhante a um choque 30.000 volts cada. Some isso à pressão exercida no tórax, em virtude da posição arqueada que o corpo assumia por conta da técnica de crucificação empregada. A situação se agravava ainda mais, pois era comum que os suspensos, ao tentarem ficar em uma posição mais cômoda, forçassem os pés para aliviar a dor das mãos, e vice-versa para aliviar a dor nos pés, repetindo por horas esse revezamento de dor. Enquanto crucificado, o escárnio e a humilhação continuavam, pois Ele foi suspenso nu, dado que suas vestes foram sorteadas entre os soldados romanos (Mt. 27.35; Mc. 15.24; Jo. 19.23). Para um judeu, ficar nu diante de outra pessoa era uma humilhação enorme, basta dar uma olhada no caso de Noé que amaldiçoou seu filho por tê-lo visto nu (Gn. 9.20-27). Ao atingir esse ponto o Messias clama para que o Senhor não se afaste dEle nesse momento, e pede que sua alma seja livrada da espada (Sl. 22.19-21). Esse clamor é feito na confiança que seria atendido, e que do encontro com a morte, Ele sairia vitorioso.

O próximo texto será postado no domingo, e tratará justamente da ressurreição, a vitória completa sobre a morte.

“Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.
Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos.
Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.
Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo da sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo ele foi atingido.”

Isaías 53:5-8

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