O Sermão do Monte: Parte 5 – Conclusão

Ainda falando sobre a prática da justiça, Jesus usa alguns exemplos bem particulares aos judeus para que eles pudessem absorver totalmente a mensagem. É bem provável que ao se deparar com alguma dessas situações no cotidiano, os ouvintes e em especial os discípulos, se lembrassem de imediato dos ensinamentos e da profundidade da situação.
O versículo 12 é a chave para esse bloco inicial do capítulo: “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas” tem algo de muito mais valioso que simplesmente possuir uma boa conduta diante dos homens. A ideia aqui, é a seguinte: o cristão não é bom por conta de seu caráter, mas sim, por ter sido regenerado pelo Espírito Santo. Com isso, ao agir de acordo com a vontade de Deus em um proceder justo, santo e imitável, faz com que aqueles que o imitam e aprendem com sua prática, acabem glorificando a Deus.
Temos a responsabilidade não somente de adorar e glorificar a Deus, mas de fazer com que indiretamente, todos façam o mesmo.

O juízo temerário (v.1-5)

Poucos trechos do discursos de Jesus, são tão mal compreendidos e usados quanto esse. Em algumas situações, chegar a ser cômico como as pessoas simplesmente repetem em qualquer situação de divergência ministerial. No Brasil, nós temos uma máxima que é a seguinte: “Não se discute, política, religião e futebol”. Pois bem, a política dispensa comentários; a religião, estamos com um número absurdo de apóstatas em nossas igrejas; sobre o futebol, as consecutivas quedas de audiência nos campeonatos nacionais, indicam que algo errado não está certo. Mas vamos falar sobre o segundo ponto da máxima.
Jesus em diversas ocasiões criticou de forma muito dura o modo como os fariseus e os sacerdotes lidavam com a Lei. Alguém na multidão pode ter pensado: “mas eles são homens de Deus”; “eles zelam pela lei do Senhor”. A situação não é muito diferente do que vemos hoje. Mas vamos ao significado das palavras de Jesus.
Não há proibição à censura, opiniões ou condenação de erros. O que é proibido aqui, é o julgamento hipócrita, a ação de passar por cima dos próprios erros para condenar o pecado alheio, interpretando-o de forma muito mais grave que aqueles cometidos por si mesmo. O que devemos fazer, é justamente o contrário. Devemos interpretar os nossos pecados como mais graves que os alheios, pois assim, julgando a nós mesmos, temos condição de exortar os outros sobre os seus erros.

Pérolas, porcos e cães (v.6)

Nesse ponto, Jesus orienta os discípulos a não desperdiçarem a mensagem do evangelho com aqueles que não querem ouvir e que provavelmente, usarão das palavras ministradas para desdenhar e zombar do evangelho. Ao pregar para alguém, devemos nos atentar ao interesse da pessoa em ouvir a mensagem. Caso ela se mostre interessada e reconhecendo o que está sendo dito, devemos continuar e prosseguir para um breve discipulado e concluir com uma confissão de fé em Cristo como Senhor e Salvador. Caso o ouvinte não queira ouvir, zombe, faça comentários jocosos, piadas com o nome de nosso Senhor, simplesmente dê as costas e siga para outra pessoa. Cães e porcos são duas metáforas judaicas que representam os pagãos que não possuem interesse em reconhecer o senhorio daquele a Quem servimos.

O estímulo a permanecermos em oração (v.7-11)

Pedi, buscai e batei estão conjugados no imperativo. Ou seja, é uma ordem à uma prática constante na vida do cristão. O cuidado de um pai para com o filho, é uma representação do cuidado de um Deus santo com a criação pecadora. Do mesmo modo, que confiamos que nossos pais cuidarão de nós em nós momentos de necessidades, devemos ter uma confiança ainda maior que em Deus, recebemos um cuidado ainda maior.

A regra de ouro judaica (v.12)

O que Jesus diz, não é meramente uma regra de comportamento ou um código de etiqueta. É mais que isso. Ele expressa que um comportamento piedoso de alguém que foi realmente transformado pelo Espírito Santo, pode inspirar pessoas a imitar tal comportamento e dessa forma, glorificarem a Deus. Temos a responsabilidade de através de um novo caráter, revelar às pessoas na prática, a influência transformadora do evangelho, de modo que sejam inclinadas pelo reconhecimento de uma ação divina, a virem ao Senhor.

As duas portas (v.13, 14)

Os dois caminhos que são acessados por duas portas, representam dois estilos de vida: o popular, fácil, confortável e repleto de prazeres; e o difícil, apertado e de abnegação.
A referência à porta está relacionada se dá justamente para representar a ideia de uma na qual, para se passar é preciso se ajeitar. O discípulo de Jesus, necessita se despir do natural desejo de busca pelo conforto e de facilidades nessa vida. É necessário que de fato, suspeitemos de tudo aquilo que parece comum aos olhos das pessoas que não tem nenhum compromisso sério com Cristo.
Quem está no caminho largo não o vê como algo ruim simplesmente porque se encontra cego pelos prazeres e comodidades que acredita desfrutar. Jesus deixa claro que todo aquele que não passa pela porta estreita, já se encontra no caminho da perdição. Não existe meio-termo. Ou está com Ele, ou contra Ele (Lc 11.23; 2 Co 4.4).
Em Lucas 13.23, alguém pergunta ao Mestre se são poucos os que são salvos, e no verso seguinte o Senhor confirma ao afirmar que muitos tentarão entrar e não conseguirão. Mais do que nunca é necessário que vigiemos quanto ao caminho que estamos seguindo. Pois, será que não estamos desejando o caminho mais fácil, ao invés do correto?

Os falsos mestres (v.15-20)

A palavra “acautelar” significa se “prevenir, precaver-se”. Ao ordenar cautela aos discípulos, estava os alertando que deveriam se prevenir quanto aos falsos mestres que surgiriam no decorrer da trajetória da igreja – e não foram, nem serão poucos! Geralmente, nos preocupamos apenas em tomar medidas corretivas, quando deveriam ser tomadas medidas preventivas.
A história da igreja, desde a ascensão de Cristo aos céus, é repleta de confrontos com outros ensinos que resultavam em uma negação parcial ou completa da suficiência de Cristo como salvador. A carta aos Gálatas tem como objetivo justamente, combater a prática judaizante que estava corrompendo a igreja, gerando um atrito até mesmo entre os apóstolos (At. 15.35; Gl. 2.11-14), contrariando a ideia de que a igreja primitiva era perfeita e imaculada. Em nossos dias, vemos o mesmo acontecer. Tem uma máxima que diz o seguinte: “Futebol, religião e política não se discutem”. Bom, o fato de não discutirmos as práticas nos bastidores do futebol, nos apresentou escândalos de corrupção até mesmo na escolha das sedes da Copa do Mundo, maior evento do esporte; não discutirmos política de forma aberta, resultou em uma alienação ideológica absurda, corrompendo valores morais de toda uma geração apenas por conta de um projeto de poder; não discutirmos as práticas religiosas, trouxe a igreja a uma crise ética, moral e doutrinária que resulta em ensinos e práticas muitas vezes anticristãs, totalmente contrárias aos princípios bíblicos.
A ideia de que avivamento é algo a ser estimulado, chorado, sentido e forçado, é uma ilusão que tem causados danos absurdos na igreja. Falamos com um pouco mais de detalhes nesse texto. Nos empolgamos com curas, línguas “estranhas”, rodopios, pulos, gritos, lágrimas e outras tantas “manifestações” do Espírito que por diversas vezes fazemos questão de nos lembrar que mesmo aqueles que fazem tudo isso, se não manifestarem o fruto deste (Sl 1.3; Sl. 92.12-14; Jr. 17.8; Ex. 19.10; Jo. 15.2; Gl. 5.22).

Os dois fundamentos (v.24-28)

Jesus conclui o sermão do monte, usando dois tipos de fundamentos para exemplificar a importância do que ele acabara de ensinar. Guardar tais palavras significa que por mais fortes que sejam as adversidades e tormentas que enfrentaremos em nossa caminhada, podemos ter a firme certeza de que estaremos seguros, pois estamos nele. Ao contrário daqueles que se apoiam em ensinamentos e filosofias que não passam de sofismas. Externamente, pessoas com cosmovisões distintas podem mostrar construções e aspectos conceituais idênticos, mas ao olharmos a fundação na qual se deu tal construção, é que podemos atestar de verdade qual delas permanecerá, e qual será levada pelas ondas da vida. Tratamos dessa relação aqui.

Caso não tenha lido os textos anteriores da série, abaixo os links:

Parte 1 – As bem-aventuranças

Parte 2 – Sal da terra e Luz do mundo

Parte 3 – A ética do cristão

Parte 4  – A prática da justiça

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