A providência, a graça e a misericórdia

Há cinco anos que estou para publicar esse texto. Estava esperando adquirir maturidade suficiente para não acabar glorificando as minhas ações no lugar do que Deus, realmente fez. O dia 08/12/2013 seria o culto de Missões na Igreja Assembléia de Deus Ministério Madureira Campo do Taboão, o Pr. Lucelio tinha chegado havia poucos meses e eu compunha a equipe de Missões à época. Como seria o último culto desse tipo do ano, ele quis fazer algo diferente e por coincidência (ou não) estava circulando pela internet um texto sobre um Pastor chamado Jeremias Steepek que havia se disfarçado de mendigo e se posto à porta da igreja que iria pastorear. Foi então que o Espírito Santo me despertou para fazer o mesmo. Conversei com minha esposa e ela concordou de imediato – vale ressaltar que não tínhamos nem um mês de casados ainda, e ainda assim ela foi comigo na empreitada. Ela e eu planejamos juntos como seria, oramos e então fui apresentar a idéia ao Pr. Lucelio, pois mexeria um pouco na liturgia do culto. Também de imediato concordou com a idéia, foi então que fui combinar com o amigo Daniel, que era quem estava escalado para dirigir o culto em questão. Assim, sendo em toda a igreja somente nós quatro sabíamos do que aconteceria. No sábado, dia 07/12/2013 pegamos algumas roupas velhas, jogamos algumas coisas para que ficassem fedendo e deixamos dormir no quintal com diversos produtos aplicados, para que ficassem o mais mal-cheirosas possíveis.
Acordei no domingo por volta das 05:00 da manhã, me vesti e a Silvana me maquiou (para não dizer sujou) para que eu ficasse com aparência de sujo. Saí de casa às 06:30 e fiquei perambulando pela rua, sem documento, nem alimento nenhum. Chegando à Praça Pedro Pomar em São Bernardo do Campo, acabei dormindo em um banco que usam para fazer abdominais. Mas não foi um sono tranqüilo, o medo de ser atacado, era constante. Então, o sono acabou virando mais uma sequencia de cochilos. Acordei por volta das 08:30hs, acredito que tenha sido a essa hora, por conta de ser quando se iniciava a Escola Bíblia Dominical na igreja e eu sempre tomava um café antes de ir. Orei a Deus de uma forma até displicente, lembro de ter dito: Senhor, um cafezinho não cairia mal não, hein?
Caminhei pela Avenida Humberto de Alencar Castelo Branco, a famosa “Castelo” como é conhecida na região, até o Piraporinha. Quando passei em frente à uma lanchonete, ouvi alguém atrás de mim, dizendo: “Ô, espera aí! Moço! Quer um café?”. De cara, achei que era uma pegadinha. O homem me abordou e se ofereceu para me pagar um café – a primeira das minhas orações a ser atendidas naquele dia. Curiosamente, tão cedo, e o homem já apresentava sinais de embriaguez, o que me fez pensar que ele ia aprontar alguma coisa comigo.
Ele perguntou o que eu queria comer, respondi que um copo de café estava bom, mas ele insistiu em me dar uma coxinha. Quando comecei a comer, notei que as pessoas do local me olhavam de rabo de olho, torciam o nariz, comentavam algo entre si e riam ou balançavam a cabeça. Foi então, que fui pego de surpresa. De repente, aquele senhor que estava pagando o meu café, se levantou, virou para os outros que estavam sentados e disse: O que vocês estão achando ruim, aí? Deus nos dá as coisas para a gente compartilhar com os outros! Hoje, vocês podem ficar aí sentados e se dar ao luxo de comerem o que quiserem, mas isso só é possível porque Deus deu isso a vocês!
Fiquei tão chocado de ouvir aquelas palavras de alguém naquele estado, que nem percebi quando um outro senhor se levantou e me pagou mais uma coxinha. Terminei o café, agradeci e guardei a segunda coxinha para comer mais tarde.
Subi a Avenida Piraporinha, sentido do Supermercados Extra que tem na região. Praticamente em frente ao Extra, havia uma igreja (não vou citar o nome por não achar necessário) na qual estava acontecendo um culto de avivamento. Pelo menos eu imagino que tivesse sido isso pelas constantes línguas estranhas, rodopios, pulos e giros “proféticos”. Eu estava com muita sede e parei em frente a porta da igreja, ao lado do filtro e com um obreiro bem no meio. Devo ter ficado parado ali, olhando para o filtro de água, não mais que 3 ou 4 minutos. Percebi que o obreiro estava dando glórias e se virou para mim, me mediu de cima embaixo e vice-versa e continuou dando glória a Deus pelo que estava acontecendo, segui no sentido do bairro Marilene, sem tomar a água. Conforme caminhava, fiquei a me perguntar: Cara, que avivamento é esse que impede as pessoas de oferecerem um copo com água?
Eu estava andando por uma calçada, quando há aproximadamente uns 15 ou 20 metros, uma senhora que vinha na direção oposta à minha tomou o filho, atravessou a rua, e depois voltou para a mesma calçada apenas para não cruzar comigo. Então, pensei: Então, isso é que é ser rejeitado?
Nunca havia nem mesmo visto aquela senhora, mas ao me ver, ela cruzou a rua…
Confesso que aquilo mexeu muito comigo e tomou meus pensamentos no decorrer do dia. Decidi então voltar para as proximidades da igreja para poder acompanhar a volta os irmãos da EBD e a ida dos jovens para o ensaio. Passei pelos bairros Promissão e Arco-Íris, onde me perdi e só me achar novamente quando encontrei a rodovia Imigrantes. Caminhei até o muro que separa a Escola Estadual João Carlos Gomes Cardim da empresa localizada ao lado. Devo ter chegado por volta das 10:00hs por conta do tráfego de pessoas indo e voltando do até então, Supermercado Ricoy, que no domingo costuma ser intenso, por assim dizer.
Vi os jovens voltando da minha congregação, voltando da EBD e outros indo para o ensaio. Alguns me viram, mas não me notaram. A minha própria tia, com quem havia morado nos últimos anos antes de me casar, passou por mim, e não me reconheceu… Lembro dos rostos e das feições de todos com detalhes, o que é curioso, já que normalmente, sou um péssimo fisionomista.
Passados alguns minutos, vi um casal com uma criança que não aparentava ter mais que três anos de idade. Quando me viu o menino, começou a dizer para o pai: Pai, olha o moço sentado ali, vamos ajudar ele, pai! O pai então deu um tranco no braço do filho, me olhou torto e seguiram seu caminho. Na volta, novamente o menininho começou a pedir que o pai me ajudasse, olhando para trás enquanto tomava os trancos. Foi então que o Espírito Santo, falou comigo: “Viu? É por isso que o reino dos céus é delas”. Aprendi que somos dependentes da misericórdia do Pai, para ajudarmos uns aos outros, assim como as crianças são dependentes dos pais, para ter ou realizar qualquer coisa.
Mais ou menos pela hora do almoço, a sede veio numa intensidade que até então não tinha sentido. Não era como sentir sede da forma convencional de simplesmente tomar água, junto com ela veio um desespero, uma sensação de que nunca tomaria água de novo. Olhei para o lado e vi um copo de suco que já estava ali desde que eu cheguei e não faço a mínima ideia se aquilo era realmente suco. Dentro do copo, havia alguns insetos já mortos. Mas na sede que eu estava sentindo, ele me pareceu muito atrativo. De repente, me lembrei de todas as vezes que assistia matérias na televisão em que mostravam pessoas indo ao Mercado Municipal de São Paulo para catar restos estragados de frutas, legumes e verduras. Naquele momento, entendi o desespero de querer o que vê pela frente sem pensar nas consequências. Para me livrar da sensação pois não sabia o que me aconteceria se ingerisse aquele suco, atravessei a avenida e fiquei um tempo entre as árvores. Foi quando a sede me deu vontade de desistir e voltar para casa – estava a mais ou menos 600 metros da minha residência – quando me levantei, ouvi uma voz que foi quase um grito: “E se eu tivesse desistido?” Então, me sentei novamente e esperei.
Claro que, o que eu estava passando de forma nenhuma se assemelha ao sofrimento de Cristo, mas o que me foi cobrado aqui era justamente o compromisso. Se eu tinha orado a Deus e havia um propósito nessa ação toda, porque eu deveria desistir, quando aquele que enfrentou tão grande sofrimento, para cumprir o propósito do Pai, não desistiu e foi até o fim? Para aliviar um pouco os pensamentos, fui até o orelhão mais próximo e liguei para a Silvana para dar notícias, afinal, fazia horas que eu estava na rua sem dar notícias. Conversei um pouco com ela disse onde estava e que estava bem. Voltei para o meu canto entre as árvores e em frente à escola, encostei na parede e pensei em dormir para esquecer da sede, mas antes orei da mesma forma displicente: Pai, uma água cairia bem, viu?
Adormeci não sei por quanto tempo, mas fui acordado por um jovem de aproximadamente 18 anos, com uma mochila preta. Então ele me disse: “Licença, eu estava em uma oração ali na igreja, e o Senhor me mandou passar no mercado e te trazer essa garrafa d’água… ó, tenho esse Danone aqui também, pode ficar. E, não desiste, não. Deus está com você.”
Quando olhei, eram duas garrafas de Bonafont. Até aquele momento não me lembro de ter tomado Bonafont na minha vida! De novo, Deus havia ouvido minha oração e ainda mais, havia respondido a minha pergunta de mais cedo. Avivamento, é quando ouvimos a voz de Deus e atendemos o seu chamado de ajudar ao próximo.
O Daniel que ia dirigir o culto, passou por mim, por volta das 16:00hs indo para o ensaio, me trouxe uma bolacha e um cobertor, pois estava começando a esfriar conforme a tarde foi se indo, e tirou a foto abaixo:

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Fonte: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=475388822578285&set=a.452559834861184.1073741825.100003215140587&type=3&theater

Subi para a igreja, pois queria pegar o movimento dos irmãos chegando e suas reações ao verem um mendigo na porta da igreja. Vi o Daniel descer com a até então sua noiva para o ensaio e também a chegada dos irmãos para o culto. Cada uma das famílias, membros, obreiros, presbíteros e pastores. Um deles chegou a tropeçar em mim, sem nem me notar. Lembro de ouvir um diálogo entre os cooperadores sobre o que fazer comigo. Até que alguém chegou, me cutucou e perguntou se eu precisava de alguma coisa. Era o diácono Raimundo (hoje é presbítero) que era o líder do departamento de missões na época. Ele foi o único a me abordar até que eu me manifestasse no culto. Como ele me reconheceu, pedi para manter segredo e esperar que ele ia entender o que estava acontecendo. Ouvi alguns dos diáconos fazerem algumas piadinhas sobre mim.

Alguns minutos de decorrer do culto, a minha esposa veio falar comigo que estava na hora. Eles não entenderam o que estava acontecendo e não me reconheceram. Foi então que o Daniel, me deu a oportunidade.

Entrei pela entrada que dá acesso ao púlpito, mas falei da nave da igreja mesmo. Peguei uma bíblia – não lembro de quem – e li o seguinte trecho:

Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber;
Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes.
Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos?
Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim.
E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna.
Mateus 25:42-46

Contei o relato desse texto e deixei a igreja meditando no acontecimento.

Me lembro da surpresa, quando tirei a touca limpei um pouco da sujeira do rosto e me apresentei. Congreguei naquela igreja, por anos, lá, eu comecei meu ministério teológico, aprendi a tocar, cantei, estudei e ensinei. Mas passei batido pelos irmãos, porque eles imaginavam ver um deles na rua. Assim como não imaginamos alguém de nosso círculo nessa situação.

E muitas vezes, negligenciamos as pessoas em condição de rua, porque não conseguimos vê-los como irmãos.

Nesse dia, fui alvo de desprezo e abandono, mas também me senti um alvo enorme da providência, graça e misericórdia de Deus.

Espero que esse relato te edifique de alguma forma e te faça, tanto glorificar a Deus pelo cuidado, como também orar para que seus olhos abertos para ajudar a quem precisa.

Agradeço a Deus, por ter me inspirado; à minha esposa por ter me apoiado; aos amigos, Daniel e Lucelio por terem ajudado. Essa experiência mudou minha cosmovisão totalmente, de modo que, pude realmente entender, a importância do evangelho e necessidade de um avivamento em nossos dias.

Soli Deo Gloria!

Deus abençoe.

Por: Celso Amaral
Criador e editor do Blog Cristão Racional

3 comentários em “A providência, a graça e a misericórdia

  1. Parabéns Celso… O verdadeiro avivamento precisa iniciar primeiro no coração para que o msm transborde ao ponto de atingir o próximo.

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