Sermão do monte: Parte 4 – A prática da justiça

O próximo trecho do sermão do monte que vamos estudar, é o que se refere à prática da justiça pelo cristão. Essa seção vai até o capítulo 7.12 e para facilitar a compreensão vamos dividi-la em três partes: o crente e a adoração (6.1-18), o crente e a riqueza (6.19-34), e a caminhada do crente (7.1-12). A primeira parte se tratará do relacionamento do cristão com Deus; a segunda, do cristão com o mundo; a terceira, com a espécie humana.

1 – O cristão e a adoração (6.1-18)

Jesus enfatiza a adoração, uma vez que o modo como o cristão se relaciona com Deus determina seu relacionamento com o mundo e com as outras pessoas. A palavra “justiça” aqui, tem um peso muito forte para os ouvintes, pois os judeus tinham como atos de justiça: a doação; o jejum; e a oração. Cristo não diz que essas práticas não têm valor positivo, mas somente estão de acordo com o seu propósito final, quando são praticados em submissão e obediência a Deus. As práticas devem ser visando a adoração ao Senhor, não para obter recompensas dos homens.

1.1 Doação (v.2-4)

Esse é um ponto muito presente em nossos dias. Não é muito difícil encontrar nas redes sociais fotos de pessoas alimentando moradores de rua, orando por dependentes químicos, entregando roupas e cestas básicas para os necessitados. O erro não está na ação de ajudar os que precisam, mas em usar tal situação para se promover como em uma ação de marketing. Os fariseus tinham o mesmo hábito de se gloriar por suas esmolas e contribuições visando serem reconhecidos pelos homens. Essa é uma tentação muito difícil de se resistir,  pois curtircomentários compartilhamentos, são formas de aceitação no mundo virtual que passamos tanto tempo. Atualmente, existe uma máxima que diz que “nada é errado se te faz bem”. A recompensa que obtemos nas redes com as interações já citadas, nos dão um sentimento de prazer que pode nos induzir ao erro simplesmente para sermos aprovados por pessoas que nem sempre estão compromissadas com Deus e a sua Palavra. A aprovação de homens, é um sinal claro de desaprovação por parte do Senhor.

1.2 Oração (v.5-15)

Algo muito interessante que devemos prestar muita atenção aqui, são algumas palavras bem específicas que Jesus usou. Especialmente, as referentes a tempo. Ele começa dizendo: “E, quando orardes…”. Quando expressa a ideia de tempo e/ou acontecimento inevitável. Ou seja, a oração deve ser constantemente praticada pelo cristão. Se fosse algo corriqueiro e condicional, Jesus teria usado se no lugar do quando. Esse hábito, entretanto, não deve ser feito simplesmente para ser visto e obter destaque sobre os demais. Quem nunca ouviu um irmão que faz uma oração bem “elaborada” praticamente ensaiada, para poder se sobressair como referência nesse assunto?
Então, é proibido orar em público? De forma nenhuma! A repreensão aqui se encontra em orar em público visando ser elogiado e aclamado por isso. Porém, quem não tem o hábito de orar de forma privada, não deveria orar em público pois isso é de uma hipocrisia ímpar. Três erros comuns foram apontados por Jesus:

1º – Orar para que outros escutem (v.5,6)
2º – Orar apenas com palavras que não passam de “vãs repetições” (v.7,8)
3º – Orar com o pecado no coração (v.14,15)

Deus não nos perdoa porque perdoamos os outros, mas por causa do sangue de Cristo (1 Jo 1.9). Todavia, o espírito rancoroso atrapalha a vida de oração e mostra que a pessoa não entende a graça do Senhor, e, consequentemente, não tem um relacionamento com o Pai e o reflexo disso podemos ver em suas relações com o mundo e com as pessoas.
O Pai-Nosso não é uma oração para ser citada sem uma prévia reflexão sobre o seu sentido. Ela é um modelo para que aprendamos a orar. Podemos vê-la como uma “oração para a família” – preste atenção nas repetições dos plurais “nossos” e “nós”. O Pai-Nosso põe o nome, o Reino e a vontade de Deus antes das necessidades terrenas do homem. É uma advertência à nossa oração potencialmente egoísta.

1.3 Jejum (v.16-18)

Rosto abatido, olhar perdido ou fitando o céu. Essas poderiam ser as formas que os fariseus usavam para mostrar a todos que estavam em jejum. Há uns meses atrás, uma prática que teve bastante repercussão, foi o chamado Jejum de Daniel. Nas redes sociais várias pessoas manifestavam que estavam na prática. O curioso disso, é que Daniel não adotou o jejum que leva o seu nome. O que ocorreu nesse caso, foi uma mistura de dois eventos bem distintos para elaborar uma nova técnica de jejum. Quando Daniel e os demais israelitas decidem por não comerem dos manjares do rei, eles apenas estavam obedecendo à Lei Mosaica, podemos dizer que sequer houve alteração na dieta deles. E quanto ao tempo de 21 dias, se refere o período que o príncipe da Pérsia (uma alegoria para representar satanás) segurou o arcanjo Miguel. Não estou dizendo que é pecado jejuar por esse período de tempo e dessa forma, porém, não podemos dizer que Daniel praticou tal jejum, pois isso não aconteceu como dizem. E encarando dessa forma, como podemos nos consagrar a Deus, usando uma mentira como referência? Some-se ao agravante da exposição que se faz durante a prática desse jejum e temos uma desobediência ao ensinamento de Cristo de não transparecer o que está sendo feito, mantendo isso entre o crente e Deus, para receber a glória dos homens, mas do Pai que vê em oculto.

1.4 O Crente e a riqueza (v.19-24)

Cristo apresenta aos ouvintes uma série de razões pelas quais não é prudente viver tendo a riqueza como o fim máximo de nossa vida. O primeiro motivo apresentado é a durabilidade. Porque nos preocupamos em acumular bens que no fim das contas podem durar até mesmo, menos que nossa própria vida. O que pode destruir aquilo que você tem como precioso e necessário para sua vida?
Uma roupa de marca? As traças podem corroer; Aplicações? Podem desvalorizar e você ficar devendo; Um celular caro? Uma queda de menos de 1 metro de altura é capaz de inutilizá-lo; Dinheiro? Assim como as aplicações podem desvalorizar, o mofo se acumular nas cédulas, etc; Ouro em um cofre? A ferrugem pode corroê-lo e ladrões podem arrombá-lo e levar embora.
Aquilo que você considera como bem máximo, informa de modo mais preciso que um GPS onde está o seu coração. Nosso coração não pode de forma nenhuma ser terreno. Nossas riquezas e tesouros devem estar acumulados, pois lá, na perfeição da glória do Pai, sim, estarão seguros.
Ao falar sobre os olhos (v.22,23), Jesus estava dizendo que somente com uma intenção pura de servir a Deus, podemos manter nosso interior iluminado com a presença dEle. Dessa forma, não damos lugar ao desejo exacerbado por riquezas. O versículo 24 afirma claramente a intenção dos dois parágrafos anteriores: Deus reinvidica total lealdade; o discípulo não pode dividir sua lealdade entre Deus e suas posses. Em algumas versões da bíblia temos a expressão Mamom essa é a palavra em aramaico para dinheiro ou riqueza.

1.5 – A prática diária (v.25-34)

Uma vez que com o item anterior aprendemos a não deixar que o apego às riquezas sejam o foco de nossas vidas, embaçando nossa visão das prioridade espirituais, agora vem o teste de fogo. Usando situações do dia-a-dia como a questão da comida e da vestimenta, Jesus nos lembra do cuidado de Deus com toda a criação. “Se Deus cuida das aves, não deixando lhes faltar alimento” e “veste de forma bela e sublime os lírios do campo”, não teria cuidado conosco que temos mais valor diante do Pai (Jo 3.16)?
O Pai conhece todas as nossas necessidades e as supre por meio de sua misericórdia. Apesar do que muitos acreditam, o versículo 34, não se refere a todas as coisas (necessidades e trivialidades), mas sim  às necessidades básicas de todo ser humano, comida e vestimenta.
Precisamos ter muito cuidado com a forma que verificamos essa passagem, pois indiretamente, ela se trata da abnegação de desejos pessoais e diretamente da confiança de Deus cuida daquilo que precisamos. Não é raro discursos onde as pessoas exigem do Senhor coisas que Ele não prometeu, enquanto está com suas despensas abastecidas e guarda-roupas compostos, sendo ingratos quando supridos naquilo que Ele realmente prometeu.

Neste texto vimos como deve ser o relacionamento com Deus e o que Ele espera de nós. No próximo e último texto da série sobre o sermão do monte, falamos dos outros dois aspectos (relacionamento com e com a humanidade no geral).

Deus abençoe a todos!

 

 

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