Os Puritanos

Segundo o dicionário Aurélio, uma pessoa puritana é alguém que é ou aparenta ser muito rigoroso na aplicação de princípios morais, um moralista rígido em outras palavras. E esta tem sido a visão deturpada que muitos têm do termo puritano. Hoje, mais do que nunca, observando a situação da igreja em nosso país, somos chamados a subir nos ombros desses “gigantes de Deus”, como J.I. Packer os intitula, e olhar para Cristo, para a Bíblia, para a graça soberana, e proclamar uma reforma bíblica novamente.

Nenhum grupo desde a Reforma tem sido tão mal compreendido, e até pouco estudado ainda. Alguns vão dizer que estes eram contra o sexo, nunca riam e eram contrários à diversão, eram contrários ao esporte e à recreação, gananciosos, viciados no trabalho, hostis às artes, excessivamente emotivos e desprezavam a razão, eram completamente intolerantes com as pessoas que discordavam deles e extremamente rígidos. Mas estes rótulos degradantes estão muito distantes da realidade histórica.

Nestes últimos anos, com o retorno à teologia reformada, temos voltado os olhos para este grupo de homens cujo legado teológico grandemente influenciou a Igreja. Quem foram os puritanos? Packer os define como o movimento dos séculos XVI e XVI, na Inglaterra, que procurava reformar profundamente a igreja da Inglaterra, além do que era permitido pelo Acordo Elisabetano.[1][2]

Errol Hulse[3] aponta que por volta de 1568, muitas congregações dos anabatistas, em Londres, se autodenominavam puritanos, ou, “os cordeiros imaculados do Senhor”. Provavelmente este termo surgiu primeiramente associado a estes grupos. Não houve uma data ou um evento específico que marcou seu início.

Durante o período entre 1558-1603, estes cresceram intensamente como uma fraternidade de pastores que tinham como ênfase em seu ministério os grandes pilares do cristianismo:

  • Fidelidade às Escrituras;
  • Pregação expositiva;
  • Cuidado pastoral;
  • Santidade pessoal;
  • Piedade prática associada a cada área da vida.

A partir de então, aqueles que zelavam pela exposição pura do evangelho e a busca de uma vida santa, começaram a ser chamados de puritanos. Seu estimulo estava no fato de que para eles, a Reforma estava interrompida, pois a Igreja da Inglaterra permanecia “reformada pela metade”, portanto ainda era necessário que esta eliminasse os vestígios que ainda restavam das cerimônias, rituais e hierarquia católica[4]. Horton Davies diz que “o puritanismo começou com uma reforma litúrgica, mas desenvolveu-se numa atitude distinta em relação à vida”[5].

Quais foram os antecedentes dos puritanos? [6]

  1. William Tyndale e a Supremacia da Bíblia– A principal característica dos puritanos foi seu amor incondicional pela Palavra de Deus. Antes que estes surgissem, apesar da Reforma, ainda havia grande ignorância com relação à Bíblia. Então, William Tyndale (1495-1536) desafia as leis que proibiam a tradução da Bíblia, traduzindo e publicando o Novo Testamento, o Pentateuco e o livro de Jonas. Seu trabalho teológico contribuiu para o protestantismo, especialmente no que diz respeito à justificação somente pela fé, pela graça. A partir de seu trabalho, toda a Bíblia foi traduzida, chegando até a Bíblia de Genebra, a favorita dos puritanos.
  2. O papel dos mártires e o ministério crucial de John Foxe– Durante o período do reinado de Maria (1553-1558), conhecida como “Maria sanguinária”, mais de 270 mártires cristãos foram queimados sobre estacas. Esta cena, que inclui alguns nobres da Inglaterra, influenciou a vida dos puritanos que viriam. O testemunho dos mártires encontrado em “O Livro dos Mártires” (1570), de John Foxe (1517-1587) fez com que muitos corações fossem movidos e mentes transformadas quando eram consideradas as razões pela quais estes homens se entregaram pela fé.
  3. O movimento luterano e genebrino vinculados à Reforma, especialmente o exemplo de João Calvino– O crescente apoio à reforma chega à Inglaterra a partir dos escritos e dos exemplos dos reformadores, em especial Martinho Lutero (1483-1546) e Calvino (1509-1564). Mas, especialmente o estilo de pregação expositiva de Calvino, e seu exemplo de Reforma em Genebra, impressionaram os refugiados ingleses no período em que Maria “sanguinária” reinou. Ao se depararem com a Reforma completa, através da forma de governa e sua forma de adoração, foram impactados. Mas, para seu desapontamento, uma Reforma completa e radical seria impedida. Então, Thomas Cartwright (1535-1603), professor de Cambridge, impacta os homens de sua época através da exposição de Atos dos Apóstolos, fazendo-os voltar-se à necessidade de uma Reforma radical.

            A devoção espiritual, o compromisso teocêntrico e a integridade moral dos puritanos são dignos de imitação para os evangélicos de hoje. Sua teologia era calvinista, mas pietista em sua maneira de enxergar as coisas. Sua força não estava em qualquer outra coisa que não em buscar viver mais piedosamente.

[1] PACKER, J.I. Entre os Gigantes de Deus – Uma Visão Puritana da Vida Cristã. São José dos Campos: Editora Fiel, 1996.

[2] Leland Ryken explica que “esse acordo reuniu a doutrina da Reforma, ou doutrina calvinista, a continuação da liturgia (aos olhos dos puritanos) da forma de culto católica e um governo eclesiástico episcopal”.

RYKEN, Leland. Santos no Mundo – Os Puritanos como realmente eram. São José dos Campos: Editora Fiel, 2013.

[3] HULSE, Errol. Quem foram os Puritanos? São Paulo: PES, 2004.

[4] RYKEN, 2013, p. 36.

[5] Ibid

[6] HULSE, 2004, p. 37-44.

 

Por: Professor Vinícius Mello

 

Um comentário em “Os Puritanos

  1. No meio Puritano houve alguns grupos que foram:
    Separatistas: Os que se separaram da igreja da Inglaterra;
    Não – conformistas: São os que não se aderiram à Igreja oficial da Inglaterra;
    Não – separatistas: Eram aqueles que não saíram da igreja anglicana, mas tentaram reformá-la;
    Independentes: Os que no século XVII e XVIII entraram no sistema congregacional, pois não concordavam com o sistema episcopal e estatal;
    Dissidentes (dissenters): Os que saíram da igreja anglicana por motivo de consciência e originaram outras igrejas como congregacionais, presbiterianas e os batistas.

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