Os Cinco Solas da Reforma Protestante: Sola Fide

Em 1647, um grupo de pastores e teólogos reformados reunidos na Abadia de Westminster, em Londres, elaborou um conjunto de documentos que hoje conhecemos como o Catecismo (Padrões) de Westminster, que incluem a Confissão de Fé, o Catecismo Maior e o Breve Catecismo. Tais teólogos procuraram sistematizar o ensino reformado a fim de criar uma igreja Reformada unificada na Inglatera. Na pergunta e resposta 33 do Breve Catecismo, resumem um dos principais pilares da tradição reformada:

O que é a justificação? Justificação é um ato da livre graça de Deus, através da qual Ele perdoa todos os nossos pecados e nos aceita como justos diante de si, somente pela justiça de Cristo a nós imputada e recebida pela fé somente.

Nesta breve declaração está a ideia de que os pecadores são justificados Sola Fide – somente pela fé. Mas o que significa o Sola Fide? Antes de mergulhar em seu significado, um pouco de contexto histórico é essencial para entendermos a sua importância.

Contexto Histórico

Quando Martinho Lutero pregou suas Noventa e Cinco Teses na porta da Igreja do Castelo em Wittenberg, em 1517, demorou algum tempo para que as implicações da sua ação reverberassem ao longo da história. O fruto de seu trabalho emergiu em algumas confissões luteranas e reformadas, as quais afirmaram que os pecadores são declarados justos aos olhos de Deus, não com base em suas próprias boas obras, mas somente pela fé, somente em Cristo e pela graça de Deus somente – Sola Fide, Solus Christus e Sola Gratia. A Igreja Católica Romana sentindo-se pressionada dada a popularidade que as doutrinas reformadas estavam adquirindo, respondeu no Concílio de Trento, com uma série de pronunciamentos sobre a doutrina da justificação.

Dentre os muitos pontos que Roma apresentou, vários deles reivindicações-chave, os principais foram:

(1) que os pecadores são justificados pelo seu batismo

(2) que a justificação é pela fé em Cristo e pelas boas obras de uma pessoa

(3) que os pecadores não são justificados unicamente pela justiça imputada de Jesus Cristo,

(4) que uma pessoa pode perder sua posição de justificação.

Todos esses pontos estão presentes na seguinte declaração:

“Se alguém disser que o pecador é justificado somente pela fé, ou seja, que não é necessária nenhuma outra forma de cooperação para que ele obtenha a graça da justificação e que, em nenhum sentido, é necessário que ele faça a preparação e seja eliminado por um movimento de sua própria vontade: seja anátema.” (Canon IX)

A Igreja Católica Romana claramente condenou a sola fide – não confessou que os pecadores são justificados somente pela fé.

Em contraste a essa argumentação, o Breve Catecismo define biblicamente a doutrina da justificação e explica o que é sola fide. Para Roma, os pecadores são justificados pela fé e obras. Sua doutrina da fé é introspectiva – uma pessoa deve olhar para dentro de suas próprias boas obras, a fim de ser justificado. O Breve Catecismo, por outro lado, argumenta que a fé é extrospectiva – os pecadores olham para fora de si, para a obra perfeita e completa de Cristo para a sua justificação.

Mas o que, especificamente, os pecadores recebem somente pela fé?

O primeiro benefício da justificação é que Deus perdoa todos os nossos pecados passados, presentes e futuros. Tais teólogos mencionam a citação que Paulo fez do Salmo 32: “Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto” (Rm 4:7, Sl 32:1). O segundo benefício da justificação é a aceitação do pecador como justo aos olhos de Deus “apenas pela justiça de Cristo imputada a nós”. Ter o status de “justo” conferido a si mesmo é bastante surpreendente. Quando um juiz declara uma pessoa inocente, isso simplesmente significa que ele não é culpado de ter quebrado a lei. Mas, se um juiz declara uma pessoa justa, significa que não somente ela é inocente de violar a lei, mas também que ela cumpriu a exigência da lei. Vamos usar um exemplo, bem atual; o roubo. Para uma pessoa ser vista como justa nesse caso, ela deve abster-se de roubar. Mas, mais que isso, ela também deve proteger os bens dos outros. Ela deve atender as demandas negativas e positivas da lei contra o roubo. Por justificação, um pecador é aceito como justo, não por uma parte da lei, mas por toda a lei – cada mandamento, cada jota e til. Ele é contado como aquele que guardou todas as dimensões de toda a lei.

Então, temos a pergunta; De onde surge essa justiça?

A justiça, ou obediência, pertence a Cristo. Os teólogos citam duas passagens-chave das Escrituras para fundamentar a imputação, ou confirmação, da justiça de Cristo para o cristão. Primeiro, eles citam 2 Coríntios 5:21:“Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus”. De acordo com as Escrituras, Cristo era o Cordeiro imaculado, perfeito e sem pecado (1 Pe 1:19; Hb 4:15). Ainda, Cristo carregou o pecado do seu povo – foi imputado a ele e ele o carregou. A maneira pela qual Cristo foi imputado com o nosso pecado para que ele pudesse suportar a maldição da lei (imputação) é a mesma maneira pela qual recebemos a perfeita obediência de Cristo – seu cumprimento de todas as exigências da lei. Os reformados citam Romanos 5:19 para este efeito: “Porque, como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores, assim, pela obediência de um só homem muitos serão constituídos justos”. A desobediência de Adão foi imputada a todos os que estão unidos a ele, e a obediência de Cristo, o último Adão, é imputada a todos aqueles unidos a Jesus (1 Co 15:45).

Se já não estiver aparente, a visão dos teólogos de Westminster sobre a justificação é diametralmente oposta à visão da Igreja Católica Romana. Para Roma, a justificação do pecador é uma tentativa de troca equivalente doutrinária, tentando misturar as obras de Cristo com as do crente, a fim de produzir a benéfice da justificação. A teologia reformada, por outro lado, coloca a justificação do pecador somente sobre a obra de Cristo. O único meio pelo qual a perfeita obra de Cristo é recebida é pela fé somente – sola fide. Nós não temos outra embaixada de paz para encontrar abrigo da justa ira de Deus, a não ser na perfeita justiça e sofrimento de Cristo, e não há outra ponte entre o homem e Cristo, somente a fé.

É necessário compreendermos que a fé, não é um espécie de pensamento positivo, e muito menos uma ferramenta usada para manipular a mão de Deus, como Gepetto fazia com o boneco Pinóquio. A fé é vital em nosso relacionamento com o Senhor, e exerce um papel no propósito da salvação. É muito mais do que simplesmente crer, pois assim como tudo que vem do Senhor, é muito mais profundo que podemos imaginar.

Um comentário em “Os Cinco Solas da Reforma Protestante: Sola Fide

  1. A palavra justificado significa “pronunciado ou tratado como justo.” Para um cristão, a justificação é quando Deus não só perdoa os pecados do crente, mas imputa nele a justiça de Cristo. A Bíblia diz em vários lugares que a justificação só vem através da fé (por exemplo, Romanos 5:1, Gálatas 3:24). A justificação não é conquistada por meio de nossas próprias obras; em vez disso, somos cobertos pela justiça de Jesus Cristo (Efésios 2:8; Tito 3:5). O cristão, quando declarado justo, é assim liberto da culpa do pecado.
    A justificação é uma obra concluída de Deus e é instantânea, ou seja, ela ocorre no momento da salvação. A santificação, por outro lado, é um processo contínuo de crescimento pelo qual nos tornamos mais semelhantes a Cristo (o ato de “ser salvo”, I Coríntios 1:18; 1 Tessalonicenses 5:23). A santificação ocorre após a justificação.
    Entender a doutrina da justificação é importante para um cristão. Em primeiro lugar, é o próprio conhecimento da justificação e da graça que motiva boas obras e o crescimento espiritual; assim, a justificação leva à santificação. Além disso, o fato de que a justificação é uma obra completa de Deus significa que os cristãos podem ter certeza da sua salvação. Aos olhos de Deus, os crentes têm a justiça necessária para ganhar a vida eterna.
    Pra Sueli

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