A Cruz, o Cajado, e a Coroa

Salmos 22, 23 e 24: A poesia do Messias.

Introdução

 A História da humanidade é dividida em A.C (antes de Cristo) e D.C (depois de Cristo) e isso não dá por um acaso, conveniência ou por Ele ter sido escolhido como um personagem que causou, o que podemos chamar de “desordem” social, seja por ele ser um perturbador da ordem na visão de alguns, um beberrão na visão de outros, outros ainda diziam e dizem que ele era um blasfemo, por revelar sua natureza divina, ao passo que alguns de seus seguidores, chamam de blasfemos aqueles que não acreditam nessa afirmação.

O fato é que, não é possível definir Jesus por nossos próprios parâmetros, o único meio de conhecê-Lo de perto é por meio do que a Palavra diz. Somente nela, podemos contemplar sua misericórdia, conhecer sua glória, e visualizarmos seu sofrimento.

  1. A Cruz

O Salmo 22, começa com uma expressão que os cristãos conhecem bem: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?”(Mt.27.46; Mc. 15.34). O sofrimento do Messias expresso aqui na pessoa do Rei Davi, foi tão intenso que, ao buscar apoio no Pai Ele se sentiu sozinho e desamparado. No decorrer dos versículos seguintes, essa dor e solidão são descritos de forma bem detalhada, e é possível ver neles, os elementos do sofrimento vicário de Jesus, presentes e descritos da mesma forma que nos evangelhos

O sofrimento de Jesus como homem, é muito discutido em sua  forma física, mas um aspecto muito importante da morte de Jesus é o seu sofrimento interno, e é esse que é retratado por Davi. É fácil descrever os açoites, os cravos, a coroa de espinhos, a nudez… mas o que se passava no coração de Jesus naquele momento, só pode ser encontrado nesse salmo. Podemos entender que a agonia e sofrimento de Davi, nesse ponto de sua vida, foi a forma encontrada por Deus, de nos revelar o sofrimento de seu Filho. Ele se encontrava padecendo de uma tremenda angústia por carregar o pecado do mundo, sentiu medo, solidão, abandono, rejeição, e foi humilhado de todas as formas consideradas ofensivas à época (Is. 53.3; Mt. 27.39; 27.43; Mc. 15.29). Tal sofrimento fez com Ele chegasse a se ver não mais como homem, mas como um motivo de zombaria, um alvo para a humilhação, e objeto de desprezo pela humanidade. (Mt. 26.54; Mc. 9.12; Mc. 14.49; Lc. 18.31; Lc. 24.46)

Jesus de Nazaré não era um homem que se possa dizer que era fraco, ele passou 33 anos de sua vida, ajudando e trabalhando como carpinteiro, e o ofício exigia que ele carregasse toras de madeira semelhantes à que estava em suas costas naquele momento. E ainda assim, o sofrimento espiritual e emocional, fez com que no trajeto de 600 metros e um peso de aproximadamente 60kg, seu vigor fosse totalmente tomado, jogando o no chão, e colocando em sua boca o gosto de terra…

O legista americano Frederick Zugibe, se propôs a fazer um estudo detalhado sobre as circunstâncias que levaram à morte de Jesus na cruz. Segundo ele, as perfurações nas mãos e nos pés (Jo. 20.25), causaram uma dor semelhante a um choque 30.000 volts cada. Some isso à pressão exercida no tórax, em virtude da posição arqueada que o corpo assumia por conta da técnica de crucificação empregada. A situação se agravava ainda mais, pois era comum que os suspensos, ao tentarem ficar em uma posição mais cômoda, forçassem os pés para aliviar a dor das mãos, e vice-versa para aliviar a dor nos pés, repetindo por horas esse revezamento de dor. Enquanto crucificado, o escárnio e a humilhação continuavam, pois Ele foi suspenso nu, dado que suas vestes foram sorteadas entre os soldados romanos (Mt. 27.35; Mc. 15.24; Jo. 19.23). Para um judeu, ficar nu diante de outra pessoa era uma humilhação enorme, basta dar uma olhada no caso de Noé que amaldiçoou seu filho por tê-lo visto nu (Gn. 9.20-27). Ao atingir esse ponto o Messias clama para que o Senhor não se afaste dEle nesse momento, e pede que sua alma seja livrada da espada (Sl. 22.19-21). Esse clamor é feito na confiança que seria atendido, e que do encontro com a morte, Ele sairia vitorioso.

Os versículos seguintes, narram a vitória sobre a morte (v.21), o triunfo do rei que agora, tem o seu nome reconhecido por todas as nações (v.28), a Ele se convertem todos até os limites da terra (v.27), diante dEle se prostram todas as famílias (v.27b). E vemos então o propósito do sofrimento de Jesus, que não foi um capricho de um Deus vingativo e tirano, foi para que pudéssemos ver novamente a sua glória e poder, enxergá-lo em seu trono e admirar sua majestades (v.29-31) Agora, não mais como criaturas, mas como filhos!

  1. O Cajado (Sl. 23)

É possível que o Salmo 23 seja o capítulo da bíblia mais famoso, e recitado, sendo quase tanto quanto João 3.16. Isso não é à toa, aqui somos apresentados ao bom pastor, aquele que no capítulo anterior deu a sua vida pelas ovelhas, que se lançou no abismo da morte para resgatar a humanidade perdida (Jo. 10.11). No Salmo 22, nós vimos o preço do resgate e como Jesus se ergueu em glória, no 23, nós estamos diante do cuidado desfrutado por aqueles que foram resgatados.

O cuidado amoroso que desfrutamos em Jesus, é algo único. Somente nEle, podemos estar com nossas almas bem alimentadas, e descansadas junto às águas tranquilas onde desfrutamos da água que não mais teremos sede (Jo. 4.14).

A palavra que nos foi trazida como “refrigera-me” (refrigera, em algumas versões), em hebraico é shuwb e tem o sentido de, restaurar as relações/trazer da morte, assim, podemos reescrever o versículo 3 da seguinte forma: v.2: Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso;v.3 traz a minha alma da morte e restabelece um relacionamento com ela. Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. Esse relacionamento é fruto do resgate da condenação, uma vez que antes estávamos afastados dEle, por conta de nosso pecado (Is. 59.2).

Em nossa trajetória com Ele, poderemos para passar pelo vale da sombra da morte. O bordão era uma vara usada especificamente para afastar predadores, e o cajado para guiar e direcionar as ovelhas. A presença de Cristo como nosso pastor, deve afastar todo o medo do nosso coração, pois mesmo na iminência do perigo, Ele nos protegerá dos predadores de nossa alma, e nos momentos que estivermos perdidos, seremos direcionados por Ele para o caminho correto.

No aprisco do Senhor é onde encontramos a paz e descanso que passamos nossa vida inteira buscando, quando enfim chegarmos à morada eterna de nossas almas, comemoraremos com Ele, e partilharemos da mesma mesa. Nossos cálices transbordarão de paz e consolo, ao passo que, enfim estaremos plenamente em sua presença.

O Senhor que reina em glória e sobre todos, não reina sozinho, Ele reina e cuida dos seus.

  1. A Coroa (Sl. 24)

Só Jesus se qualifica para ascender aos céus, e ele é o Senhor vitorioso, diante de quem se abrem os portais da glória. Ao SENHOR pertence a terra. Ele criou e sustenta a terra inteira; ela lhe pertence. Paulo citou este versículo a fim de estabelecer o princípio de que não existe alimento, embora oferecido aos ídolos pagãos. que seja errado para os crentes comerem (1Co 10.25-26).

Esta passagem (v.2) reflete a história da criação, podemos ver que o Cristo em glória tem poder criador sobre toda a existência. Porém, o mar é também uma figuração para indicar o mal. Por todos os Salmos e os profetas. Deus é retratado como alcançando uma vitória sobre os mares (SI. 29.10; 77.16-20; 104.5-9; Na. 1.4; Dn. 7).

Davi então inicia uma lista de requisitos necessários para se encontrar com esse soberano em seu templo, nos passando uma definição bem clara do que é santidade seguindo o exemplo de Cristo, são eles:

 Limpo de mãos, significa ações retas, tomadas sempre pensando em não prejudicar outra pessoa intencionalmente.

Puro de coração, é possuir a mente cheia de pensamentos e motivos justos.

Que não entrega sua alma à falsidade nem jura dolosamente, e nem jura pelos nomes de falsas divindades, que podem ser aqueles que nós mesmos fabricamos em nosso coração.

Em seguida, as portas da cidade e/ou do templo são personificadas, é ordenado que sejam levantadas para que entre o Rei da Glória. A volta do Rei da Glória subentende que ele saiu para batalhar e retornará vitorioso. O Cristo que se encarnou, morreu, ressuscitou e guiou e protegeu os seus como o Pastor, agora retorna como Rei soberano de toda a Glória, vencedor e Senhor dos Exércitos, que não pode ser derrotado por ninguém, pois seu poder é ilimitado!

Conclusão

 

É comum o hábito de tentar pegar aspectos isolados a respeito de Jesus, que melhor calhem com alguma filosofia ou corrente ideológica que simpatizemos. Podemos falar sobre os milagres e sobre a ressurreição de Jesus de forma isolada, o que não podemos desconsiderar os outros pontos. Há várias vertentes que tratam de Cristo como um profeta, que está morto e não ressurreto (Testemunhas de Jeová e Islamismo, por exemplo), outros dizem que ele foi Deus em espírito que andou entre nós sem se fazer em carne (algumas vertentes espíritas e filosóficas assumem essa ideia). Porém, o que torna Cristo tão importante para a existência humana, é que somente nEle, temos a certeza da vida eterna, pois Ele nos garantiu isso ao ressuscitar.

Louvado seja Deus!

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