As Maravilhosas Doutrinas da Graça: Eleição Incondicional

“Não importa o que as pessoas falem sobre esse assunto, a eleição ocorre de fato e não há como negá-la. Nenhum cristão pode negar o fato de que nem todos os cristãos professos serão salvos e que os que o são, devem sua salvação inteiramente à graça de Deus e ao chamado do Espírito Santo, e tampouco podem explicar o porquê de alguns serem chamados à salvação, enquanto outros, não.”

J.C. Ryle

Este é o segundo ponto das doutrinas da Graça. Aqui encontramos a esperança para o homem totalmente caído e morto em seu pecado: a eleição incondicional. Vou dedicar esta primeira parte para responder as seguintes questões: “O que é a doutrina da eleição incondicional?” e, “Quais são as razões bíblicas para crermos na doutrina da eleição?”.

A doutrina da eleição tem sido o ponto mais controverso na história do cristianismo devido à sua má compreensão e má aplicação. Alguns crêem que esta doutrina é uma artimanha de Satanás para impedir a evangelização na igreja. Outros calvinistas extremados crêem que sem esta doutrina, Deus deixa de ser Deus, pois estaria privado de sua devida glória na salvação do homem caído. Alguns crêem que esta é a causa de muitos estarem no inferno, porém, nós que aceitamos o ensinamento bíblico da depravação total, sabemos que a eleição é o motivo pelo qual somos salvos.

Mais uma vez afirmo: esta não foi uma doutrina descoberta por Calvino e, nem foi o único sermão pregado por Spurgeon. E, num sentido geral, esta doutrina se aplica a tudo o que Deus faz, pois tudo foi predeterminado por Ele.

Baseio-me então na definição de Joel R. Beeke para eleição:

“[…] Deus elege aqueles que são totalmente depravados e incapazes de exercer sua vontade caída para crer em Cristo. Deus os elege com base em seu beneplácito soberano, conquistando a vontade deles para torná-los dispostos a exercer fé em Cristo para a salvação.”[1]

Ou seja, Deus soberanamente escolheu aqueles que haveriam de ser salvos antes da fundação do mundo, em um tempo conhecido como “eternidade passada”. Aí então começam os problemas, pois na maioria das discussões sobre este tema há uma grande preocupação em proteger a dignidade e a liberdade do homem, travando uma aparente batalha entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana, ou, livre arbítrio.

Porém, biblicamente não podemos negar de forma alguma a existência da eleição, ou predestinação. Veja alguns textos:

“Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los?” – Lucas 18.7

“Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vósoutros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda.”
João 15.16

“Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna.”
Atos 13.48

“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.”
Romanos 8.29

Todos estes textos referem-se a um grupo de pessoas que foram escolhidos soberanamente por Deus.[2] E talvez agora você esteja dizendo: “Mas este não é Deus, pois ele estaria sendo injusto!”. Quero te dizer que esta afirmação já foi feita, e Deus mesmo respondeu:

“Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.”
Romanos 9.14-16

Na eternidade passada Deus soberanamente amou e escolheu um povo peculiar, escolheu especialmente cada pessoa, não somente o grupo como um todo,  elegendo-os para a Sua salvação. E não foi porque Ele previu que as pessoas haveriam de crer, pois a própria fé é fruto da Sua vontade. Ele escolheu porque é gracioso, amoroso e soberano, pois, se dependesse de nossa vontade, não o escolheríamos. Lembra-se? Estamos mortos em nossos pecados.

A maior dificuldade dos homens, em todos os tempos, é deixar Deus ser Deus. A doutrina da eleição aponta para o majestoso fato de que dentre tantos atributos, Deus é soberano, e ordena TODAS as coisas. Sem este atributo Ele não seria Deus.

Como então unir a eleição soberana e os homens mortos em seus pecados? Somente pela graça. A salvação não vem por méritos, mas pela graça soberana de Deus, que se expressou na cruz de nosso Senhor Jesus. Ele nos elegeu para sermos santos, pois de fato não éramos (Efésios 1.4; 2Tessalonicenses 2.13). Ele nos elegeu para nos dar vida.

Isto é insondável para nossas mentes. Paulo exalta a Deus afirmando que isto é profundo, que esta sabedoria é insondável. Por isso a Ele toda a glória!

“Ninguém jamais veio a Cristo porque sabia que era um dos eleitos; antes, veio porque precisava de Cristo.”
Ernest Kevan

Como esta doutrina contribui para a formação do caráter cristão e ainda, como ela pode estimular a evangelização?

Fico preocupado quando pregadores afirmam crer nesta doutrina, porém, dizem que não é algo que possa ser tratado no púlpito, ou ainda, algo que os membros da igreja não precisam saber. Mas, se você parou para ler os textos que indiquei no post anterior, focando agora nos textos paulinos, você pode perceber que ele não levantava qualquer discussão acerca da eleição, pelo contrário, aceitava e expunha como parte integral do evangelho que ele propôs no coração de pregar integralmente (Atos 20.20,27).

O ensino corretamente bíblico da eleição, segundo J.I. Packer, visa tornar os crentes humildes, confiantes, alegres e ativos, mas, também, se de maneira errada for exposto, pode fazer com que crentes se tornem orgulhosos, presunçosos, complacentes e preguiçosos. Creio então que se abster de tornar esta doutrina pública também pode gerar cristãos omissos ou abertos à heresia arminiana.

Como então podemos saber se somos eleitos de Deus? Tendo Cristo como espelho. Tendo-o como única esperança de salvação. Vendo a beleza de Cristo, e achando-o totalmente desejável. Amando-O, não por causa dos seus benefícios, mas amando por ele ser quem Ele é. Os eleitos são conhecidos por seus frutos (Mateus 7.10), e o principal fruto é conhecer a Jesus Cristo, e isto é a vida eterna (João 17.3). O maior sinal de que somos eleitos é nossa total dependência de Cristo.

A eleição, ao contrário de que muitos pensam, então é um estimulo de coragem ao trabalho missionário. A confiança de que Deus reunirá seus eleitos, levando-os ao conhecimento do evangelho deu coragem a grandes missionários calvinistas, dentre eles: David Brainerd, William Carey, Adoniram Judson, John Paton e muitos outros que dedicaram sua vida, muitas vezes entregando-a, em favor do ajuntamento dos eleitos. Como afirmou John Blanchard, “na Bíblia a eleição e a evangelização andam de mãos dadas, e não de punhos fechados”.

Packer então alista três motivos pelos quais, nós que afirmamos ser “calvinistas”, devemos evangelizar[1]:

Primeiro, os textos que temos estudado dizem-nos que Deus escolheu não só a quem Ele salvará, mas também o método pelo qual haverá de salvá-los: a pregação do verdadeiro evangelho de Cristo.

Segundo, a base sobre a qual a Bíblia nos ensina a oferecer Cristo ao mundo nada tem a ver com a eleição. Assim como Spurgeon acreditava na livre oferta do evangelho, nós como cristãos, devemos convidar todos os que se encontram fora do reino do céu para que entrem nele. O evangelho é uma porta que está sempre aberta, jamais fechada. Quer os incrédulos acreditem ou não, devem ser insistentemente convidados a entrar no Reino.

Terceiro, longe de solapar o evangelismo, a eleição o reforça, pois provê a única esperança do evangelismo ser bem sucedido em seu alvo. O homem por si só não veria e viria a Cristo se não houvesse um chamado sobrenatural (Romanos 8.30; 1Coríntios 2.14). Se não houvesse eleição, não haveria chamado, não haveria conversões, e toda atividade evangelística fracassaria.

Como bem ressalta Joel Beeke[2], não sabemos quantas pessoas Deus escolheu em nossas cidades. Cremos que foram muitas, mas, sendo muitas ou poucas, elas são do Senhor; Ele nos deu o meio de achá-las. Portanto, temos de falar, orar e visitar pessoas, abundando sempre na obra do Senhor e sempre prontos a dar a todos os que nos pedirem a razão da esperança que há em nós (1Pedro 3.15).

[1] PACKER, J.I. Vocábulos de Deus. São José dos Campos: Editora Fiel, 2002.

[2] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[1] BEEKE. Joel R. Vivendo para a Glória de Deus – Uma introdução à fé reformada. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.

[2] Outros textos que também afirmam isto: João 6.39, 17.8-9; Romanos 8.33; 9.11-13; 1Coríntios 1.26-29; Gálatas 1.15; Efésios 1.4; Colossenses 3.12; 1Tessalonicenses 5.9; 2Tessalonicensses 2.13-14; 2Timóteo 1.9; Tito 1.1; 1Pedro 1.1-2; 2João 1.

 

Vinícius Mello

Qual a sua fraqueza?

Já parou para pensar qual a sua maior limitação? Sejam elas, físicas ou emocionais, todos nós possuímos fraquezas ou fatores limitadores. O verso mais usado para tratar sobre as fraquezas é um trecho da segunda carta aos Coríntios, escrita pelo apóstolo Paulo:

Mas ele me disse: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim.
2 Coríntios 12:9

O filme Um Lugar Silencioso trata de fraquezas que podem ser um trunfo. E é sobre disso que falaremos nesse texto.

Sobre o filme – CONTÉM SPOILERS

Em 2020, o planeta foi invadido por criaturas extraterrestres predatórias sem visão, com audição extremamente sensível (que aparentemente usam a ecolocalização para caçar seres humanos e outras presas). A família Abbott busca suprimentos na cidade, permanecendo o mais silenciosos quanto for possível e comunicando-se exclusivamente por meio da língua de sinais. O mais novo dos três filhos, Beau, quer um foguete de brinquedo, mas seu pai, Lee, remove as baterias, avisando-o que os sons que o brinquedo faz são muito altos. No entanto, Regan, a irmã mais velha surda de Beau, devolve o brinquedo ao irmão, que compõe o erro pegando as baterias em seu caminho para fora da loja. Enquanto a família retorna para casa, Beau liga o foguete de brinquedo, cujo som atrai a atenção de uma das criaturas, que o massacra.
Um ano depois, as criaturas tomam conhecimento da localização da família Abbott. Lee repara o implante coclear de Regan, aumentando o sinal com peças sobressalentes de rádio retiradas da cidade abandonada, mas o dispositivo não consegue restaurar sua audição. Apesar das repetidas demonstrações de apoio de Lee e de sua insistência de que a morte de Beau não foi culpa dela, as tensões se desenvolvem entre Lee e sua filha.
Quando após alguns acontecimentos, Regan é encurralada junto com sua mãe e seus irmão no porão da casa por uma das criaturas, ela descobre que o último aparelho de surdez que seu pai havia feito, é capaz de produzir uma onda em alta frequência que compromete o sentido de ecolocalização dos monstros, tornando-os vulneráveis.

Fraquezas

Uma criança surda em um ambiente no qual a sobrevivência depende do som, é algo de fato preocupante, afinal de contas, Regan Abbott não tem condições de perceber a intensidade de seus movimentos e ações. Some-se a isso, o remorso que sente pela morte de seu irmão caçula e a dificuldade de acreditar no amor do pai, e temos a receita do caos.
Não é muito difícil nos colocar no lugar de Regan, afinal, quantos erros cometemos que influenciam diretamente na vida de outros, e quando sabemos das consequências desses erros ou fraquezas, nos culpamos e temos dificuldade em nos perdoar e nos relacionar com os atingidos. Tentamos sobreviver em um mundo que despreza fraquezas. No WhatsApp temos os status e as mensagens motivacionais, no facebook temos as autoafirmações com seus casos de sucesso individual e superioridade aos demais; no Instagram, vemos pessoas felizes, em lugares paradisíacos, sorrindo e mostrando um sucesso que parece distante de pessoas comuns. Infelizmente, temos tido o hábito de trazer essa mesma ideia para nossa vida espiritual.

Ansiedade, depressão, Síndrome do Pânico, Transtornos Obsessivos-Compulsivos, Fobias e afins, apesar do que se pensa e se fala, estão presentes em cristãos. E sendo agravadas, por uma abordagem simplista e que muitas vezes ignora a realidade dos fatos. Como dizer que temos medo de morrer quando estão todos celebrando pela vida? Como dizer às pessoas mais próximas que tem pensamentos suicidas, quando estão todos fazendo milhares de planos para o futuro? Somos tentados inclusive a acreditar que tais fraquezas e deficiências, de alguma forma comprometem o nosso relacionamento com Deus, e até mesmo a nossa salvação.

O poder transcendente

A fonte de esperança do cristão em meio a todo esse caos instaurado em nossos corações se encontra justamente no poder de Cristo em superar todo e qualquer obstáculo.  Dentre todos os milagres de Jesus registrados no evangelho, dois deles chamam bastante a minha atenção, por conta de notarmos o poder do evangelho de forma visível. É o caso do leproso curado após a ministração do Sermão do Monte e o da mulher do fluxo de sangue, vamos analisar ambos na ordem em que Mateus nos apresenta

“E, descendo ele do monte, seguiu-o uma grande multidão.
E, eis que veio um leproso, e o adorou, dizendo: Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo.
E Jesus, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; sê limpo. E logo ficou purificado da lepra.”
Mateus 8:1-3

E eis que uma mulher que havia já doze anos padecia de um fluxo de sangue, chegando por detrás dele, tocou a orla de sua roupa;
Porque dizia consigo: Se eu tão-somente tocar a sua roupa, ficarei sã.
E Jesus, voltando-se, e vendo-a, disse: Tem ânimo, filha, a tua fé te salvou. E imediatamente a mulher ficou sã.
Mateus 9:20-22

Em ambos os casos as pessoas envolvidas eram consideradas impuras, e caso fossem tocadas ou tocassem nelas, seria considerado impuro (Lv 15:5; 22:6). Ao tocar e ser tocado, ao invés de ser contaminado pela impureza, Cristo limpou essas pessoas. Nossos pecados não são nada diante do poder redentor de nosso Senhor Jesus. Costumamos temer nos aproximar após um erro ou pecado, por acreditar que nossa condição é horrenda ao ponto de manchar a imagem/nome de Cristo, quando na verdade, ao chegarmos junto dEle, nós é que somos purificados e nossas manchas são apagadas, e pelo seu sangue somos feitos mais alvos que a neve (Ap 7:14; 22:14). Para entendermos de fato, o capítulo 12 de 2 Coríntios, precisamos acompanhar desde o capítulo 11, no qual o apóstolo defende seu ministério e vocação, contando um pouco sobre o seu sofrimento para a pregação do evangelho, chegando verso 30, que diz:

Se devo me orgulhar, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza.
2 Coríntios 11:30

Em nossas fraquezas é que somos de fato, contemplados com o poder de Deus. Se Regan não fosse surda, seu pai não teria feito o aparelho que mesmo não a fazendo escutar, proporcionou que sua família sobrevivesse aos eventos do filme. Nunca saberemos por quê Cristo é o príncipe da Paz, se não passarmos por conflitos. Não contemplaríamos a sua graça superabundante, se não fôssemos escravos do pecado que abunda em nós.
Nossa função não é ser perfeitos, mas glorificar a Deus. E até mesmo nossas fraquezas e deficiências servem a esse propósito quando estamos em Cristo.

 

Celso Amaral

Os dons do Espírito Santo: Parte 2

O capítulo 13 da primeira carta de Paulo aos Coríntios tem sido desde tema de música à leitura quase obrigatória nos casamentos. Aqui, ele fala de forma magnífica sobre a superioridade do amor sobre os dons. Mas, o que é o amor? Talvez a maior parte das pessoas o defina como um sentimento, algo intrinsecamente ligado às emoções. Aquele momento em que o coração bate mais forte, as pernas tremem e as palavras fogem. Não há nada mais longe da definição de amor do que esta. Continuar lendo “Os dons do Espírito Santo: Parte 2”

Jesus e os sinalizadores

Você sabe o que é, ou já ouviu falar sobre sinalização da virtude (virtue-signalling)? É um novo padrão de comportamento que tem se tornado bastante popular por conta das redes sociais. Quando começou, era visto como algo bom, pois uma espécie de estímulo para que outros praticassem o bem, mas, atualmente, é visto como algo não somente negativo, mas também nocivo. E como a igreja é composta de pessoas, e essas pessoas acompanham as tendências comportamentais e são por diversas vezes influenciadas pela cultura na qual estão inseridas, no ambiente de culto, nós passamos então a ter a sinalização da espiritualidade.

Sinalização da Virtude: o que é?

Estamos chegando ao final de 2018, e quantas vezes as hashtags do tipo #somostodos(alguma coisa) foram usadas à exaustão? A ideia por trás das tags é a promoção de alguma causa como uma forma de conscientização por meio da popularização. Mas quantas das pessoas que compartilharam e entraram na onda, realmente tomaram ações concretas no seu dia-a-dia para de fato, promover a causa pela qual se manifestaram? Isso é a sinalização da virtude, promover a luta contra o câncer usando hashtags ao invés de buscar doações para hospitais e instituições que forneçam tratamento. Mostrar para o maior número possível de pessoas que está envolvida com algo virtuoso, sem o estar na realidade.
Recentemente, uma jovem suíça ficou famosa por impedir a decolagem de uma avião para que um homem não fosse deportado para o Afeganistão. Uma cena comovente que foi transmitida ao vivo pelo facebook. Casos como esse, não são difíceis de encontrar no feed de nenhuma rede social, principalmente o facebook, por conta da capacidade de viralização da plataforma. É possível até mesmo contar quantos vídeos passam pelas nossas linhas do tempo todos os dias, com pessoas ajudando pobres, ou militando por alguma causa.
A SV (sinalização da virtude) se tornou um problema social por conta da massiva busca por fazê-lo sem medir as consequências. O homem defendido da deportação no exemplo anterior, dias mais tarde foi acusado de ter estuprado uma adolescente. As pessoas não estão ajudando ou se engajando para ajudar de fato, mas poderem anunciar isso em bom som e conseguirem em certa medida, promoção. O ser humano é vaidoso e orgulhoso por natureza, buscamos sempre meios e formas de nos colocar em uma posição superior moralmente, adoramos a ideia de estar acima, seja em qualquer aspecto (quantas pessoas não se orgulham de terem levado vantagem indevida sobre outras?). É a busca desenfreada pela própria glória que nos leva a decadência desde o Éden.

E quando esse comportamento entra na igreja?

Como dito anteriormente, a igreja é composta de pessoas, e essas pessoas, possuem e interagem por meio de redes sociais, e dentro desse contexto, são influenciadas por elas, algumas mais e outras menos. Dizer que passamos ilesos por esse aspecto da cultura que nos cerca, é ser no mínimo, negligente. Dentro da igreja, as pessoas tem buscado sinalizar não somente suas virtudes, mas também sua espiritualidade. Mãos levantadas, gingado de um lado para o outro, choros, pulos, gritos… Para uma boa parcela das pessoas que se declaram evangélicas, essas são as características que servem de padrão para medir a espiritualidade de alguém, ou até mesmo para definir se um culto foi bom ou não. Se teve alguma dessas, foi bom, se não, Deus não estava presente.
O maior problema desse tipo de cultura na igreja, é justamente a promoção de uma espiritualidade superficial e sem nenhum tipo de comprometimento com o alvo da adoração. Afinal, o objetivo não é oferecer um culto racional e consciente de que cada ação executado naquele momento, deve ser para honra e glória de quem se adora, mas sim, a busca pelas emoções e reações palpáveis, que podem ser vistas e registradas.
Na prática, temos duas situações opostas, mas que são igualmente prejudiciais à saúde da congregação, que são:

  1.  Hipocrisia: Pessoas em situação de total escravidão do pecado e totalmente imersas na própria corrupção, deixam de buscar a santificação e concerto, pois o fato de reagirem emotivamente às situações do culto, faz com que creiam estarem vivendo uma vida agradável aos olhos do Senhor, afinal, Ele ainda se “manifesta” através delas. Um sinal bastante claro de que a pessoa foi ao culto apenas para se servir, é que normalmente, ela não se lembra do que foi pregado, e por consequência não se preocupa com o que realmente deve fazer para agradar ao Senhor.
  2. Rejeição: Na outra ponta, temos aqueles que pelos mais diversos motivos não reagem da mesma à cerimônia, podem se sentir desprezados pelos irmão mais “espirituais” e até mesmo por Deus, uma vez que, não há sinais de “manifestação” do sobrenatural através deles. Tal situação resulta em um crente que não se firma na fé e que constante busca atalhos para poder ter o mesmo que os demais.

Ambas as situações, contribuem para uma visão superficial e totalmente mundana a respeito do culto, e em nenhuma delas o nome do Senhor é glorificado. Ele não recebe a adoração de um povo que está mais preocupado com as próprias reações num culto que não é para elas, e não também não é adorado por quem não sente segurança no amor do Criador e Provedor de todas as coisas.  Nos dois casos, negligenciamos os atributos do próprio Deus que tanto repetimos à exaustão, como justiça, graça, verdade, soberania, amor e misericórdias, pois tornamos condicionais, as características do Deus eterno.

Jesus e os sinalizadores

Atualmente, Jesus, o Salvador, Redentor e Justificador do pecador, tem sido usado como uma espécie de muleta moral. Ou seja, sempre que puder ser usado para expressar uma superioridade sobre os outros, o nome de Jesus será utilizado, o que é contraditório e evidencia um desconhecimento a respeito dEle, afinal, diante dEle, somos igualmente pecadores, corruptos e sem nenhum atributo que seja capaz de nos justificar a nós mesmos (Gl 3:28).
Durante o Sermão do Monte, o mestre dos mestres trata diretamente com as duas situações que falamos acima. Aos que ajudam, mas tiram selfies, disse:

“Tenham o cuidado de não praticar suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isso, vocês não terão nenhuma recompensa do Pai celestial.
Portanto, quando você der esmola, não anuncie isso com trombetas, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem honrados pelos outros. Eu lhes garanto que eles já receberam sua plena recompensa.
Mas quando você der esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que está fazendo a direita,
de forma que você preste a sua ajuda em segredo. E seu Pai, que vê o que é feito em segredo, o recompensará”.
Mateus 6:1-4

E continuou, agora se referindo aos que ostentam seus próprios métodos de culto:

“E quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros. Eu lhes asseguro que eles já receberam sua plena recompensa.
Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está no secreto. Então seu Pai, que vê no secreto, o recompensará.
E quando orarem, não fiquem sempre repetindo a mesma coisa, como fazem os pagãos. Eles pensam que por muito falarem serão ouvidos.
Não sejam iguais a eles, porque o seu Pai sabe do que vocês precisam, antes mesmo de o pedirem.”Quando jejuarem, não mostrem uma aparência triste como os hipócritas, pois eles mudam a aparência do rosto a fim de que os homens vejam que eles estão jejuando. Eu lhes digo verdadeiramente que eles já receberam sua plena recompensa.
Ao jejuar, ponha óleo sobre a cabeça e lave o rosto,
para que não pareça aos outros que você está jejuando, mas apenas a seu Pai, que vê no secreto. E seu Pai, que vê no secreto, o recompensará”.
Mateus 6:5-8;16-18

A repetição das expressões “hipócritas” e “lhes garanto que já receberam sua recompensa”, evidencia a vaidade dos sinalizadores de virtude e da espiritualidade. Afinal, tudo o que fazemos visando uma recompensa, seja ela qual for, indo desde a aceitação por um grupo até algo material, não passa de vaidade. Fora de Cristo, vivemos apenas para nós e para nossa própria glória obedecendo à nossa própria natureza carnal. É necessário que peçamos ao Senhor para que Ele limpe o nosso coração e mantenha afastado nosso maior inimigo: Nós mesmos.

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Jovem, não desperdice a sua mocidade

Você que é, ou ainda se considera jovem, qual a sua prioridade, hoje? Mais do que isso, quais as ações que tem tomado para executar essa prioridade? Pois bem, o título desse texto é uma paráfrase, ao que o apóstolo Paulo diz a Timóteo em sua primeira carta. O original, diz:

Ninguém despreze a tua mocidade; mas sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, no amor, no espírito, na fé, na pureza.
1 Timóteo 4:12

Essa referência é tema de diversos congressos de mocidade e adolescentes, sendo geralmente abordados de forma a tornar esses grupos intocáveis e irrepreensíveis. Muitas vezes dando a entender que os mais velhos nunca os compreendem e devem dar espaço para que eles agora assumam o comando. No fim, acaba sendo uma interpretação leviana que apenas serve para causar separação ao corpo de Cristo.  Mas, e quando o próprio jovem despreza a mocidade, e a si mesmo se sabota? Continuar lendo “Jovem, não desperdice a sua mocidade”

Relevantes como o sal, resplandecentes como a luz

Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte;
Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa.
Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.
Mateus 5:13-16 Continuar lendo “Relevantes como o sal, resplandecentes como a luz”

Imagens e miragens

Já reparou como parece praticamente impossível sair tão bem ou bonitos em uma foto, quanto nos enxergamos diante de um espelho? Esse fenômeno tem intrigado diversas pessoas no decorrer de suas vidas. Afinal, em tempos como os nossos, com a exposição das redes sociais, todos nós queremos parecer belos e convidativos. Passar tanto tempo se admirando, pode ter consequências bem devastadoras, tanto para nossos relacionamentos, quanto para nós mesmos. Continuar lendo “Imagens e miragens”

A relação entre a Lei e a Graça

No rol das coisas que causam uma certa confusão na cabeça de muitos cristãos, está a relação entre a Lei e a Graça. Basicamente, encontramos dois grupos opostos: Os que buscam praticar a lei com total dedicação e aqueles que a ignoram totalmente acreditando que a Graça elimina qualquer traço de importância ou ensino que podemos ter com a primeira. Então, qual das duas é a correta?
Continuar lendo “A relação entre a Lei e a Graça”

A necessidade da tribulação: Expectativa e Esperança

Já parou para contar quantas mensagens motivacionais vemos todos os dias em nossas redes sociais? Aquelas frases feitas que tem o único objetivo de massagear o ego e contribuir para sentimento de que somos mais importantes e iluminados que os outros. Esse tipo de conteúdo é muito popular por ser de fácil acesso, mas também de ótima aceitação. Afinal, quem não quer ouvir/ler que é mais especial que pessoas de contexto social semelhante? Mas, qual o resultado disso? Será que esse tipo de conteúdo não contribui para o isolamento em bolhas sociais, nos tornando alvos extremamente frágeis para os espinhos que a vida possui? É sobre o que vamos discorrer nesse texto.

Continuar lendo “A necessidade da tribulação: Expectativa e Esperança”

Sal que não salga e a luz que se esconde

Recentemente, comentei ao final de uma live no Instagram sobre como o dualismo – ou dualidade como preferir – tem sido amplamente aceito pela igreja como algo não só comum, mas também necessário, abrindo margem e dando munição para os inimigos dela que usam dessa oportunidade, para a isolar e calar sua voz na sociedade. Continuar lendo “Sal que não salga e a luz que se esconde”